ANAC ignorou alertas sobre Voepass antes de acidente que matou 62, diz PF

ANAC ignorou alertas de ex-inspetor sobre reaproveitamento de peças na Voepass antes do acidente que matou 62 pessoas em Vinhedo

10 ago, 2026
Avião da Voepass | Reprodução/X/@patoaviador
Avião da Voepass | Reprodução/X/@patoaviador

Dois anos após o acidente com o avião da Voepass, que resultou na morte das 62 pessoas que estavam a bordo, a Polícia Federal encerrou as investigações sobre as causas da tragédia. Segundo um ex-funcionário da ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil), a empresa fazia reaproveitamento de peças e já havia alertas sobre isso. No total, 16 pessoas foram indiciadas, entre elas pilotos, funcionários, gerentes, diretores e o presidente da empresa responsável.

Laudo aponta os responsáveis

“A investigação deixa bem claro que há uma cultura de omissões, uma gestão pautada por pressões para não reportar, priorizando o operacional em detrimento da segurança”, declarou o delegado da Polícia Federal André Ribeiro.

De acordo com o laudo da PF, a causa foi uma falha no sistema de degelo, quando o voo 2283 enfrentou uma frente fria que ocasionou formação de gelo. O acúmulo de gelo pode adicionar toneladas ao peso do avião. Nas gravações da caixa-preta, piloto e copiloto conversam entre si sobre a pane e optam por desligar o sistema de degelo, que estava com problema.


Imagem do acidente (Foto: Reprodução/X/@fl360aero)


Os pilotos não realizaram o procedimento prévio para esse tipo de ocorrência, quando deveriam deixar a área de formação de gelo. Às 13h20, o copiloto pede para ligar o airframe (sistema de degelo), mas o comandante responde que ele não está funcionando. A última fala do copiloto foi “gelo”, às 13h21, e, um minuto depois, o avião caiu. O sistema de degelo havia falhado pelo menos 15 vezes anteriormente, segundo o laudo da PF, mas nenhuma dessas falhas foi registrada no diário de bordo.

Prevaricação na ANAC

Novos documentos apontam ainda que um ex-inspetor da ANAC, exonerado em 2025, já denunciava as omissões da Voepass e afirmava sofrer perseguição por parte dos dirigentes da agência.

Em 2019, o ex-funcionário recomendou a suspensão da autorização de voo da MAP Linhas Aéreas, que posteriormente viria a se tornar a Voepass. Ele denunciava que peças estavam sendo utilizadas sem avaliação. Em 2022, alertou que um avião acidentado em Rondonópolis (MT), em 2016, estava sendo usado para reaproveitamento ilegal de peças.


Imagem do acidente (Foto: Reprodução/X/@aviationbrk)


Sem respostas da agência, o ex-inspetor enviou e-mails para órgãos internacionais (FAA e EASA), mas a ANAC coibiu essa ação perante as agências internacionais e ainda respondeu com um processo interno por insubordinação contra o então inspetor, antes de efetivar sua exoneração.

No Ministério Público Federal, por falta de provas, as denúncias de prevaricação contra funcionários da ANAC foram arquivadas. Em 2025, dez meses após o acidente da aeronave da Voepass, a agência cassou a autorização da empresa.

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