Júlio Baptista analisa futebol brasileiro e aponta falha de Neymar: “Não entendeu”
Técnico ex-Real Madrid e Arsenal implementa controle severo no CT e questiona a falta de atualização dos treinadores do país; contrato vai até dezembro de 2028
Júlio Baptista é o novo técnico do São Paulo sub-20. O ex-jogador, que atuou em grandes clubes europeus e integrou seleções campeãs, assinou contrato até 31 de dezembro de 2028 e substitui Allan Barcellos na categoria. Tem 44 anos e chega ao time com uma filosofia de comando baseada em rigor disciplinar.
Na carreira de jogador, Baptista foi revelado pelo São Paulo e conquistou títulos importantes na base tricolor: o Torneio Rio-São Paulo, em 2001, e o Supercampeonato Paulista, em 2002. Seu percurso internacional inclui passagens por Sevilla, Real Madrid, Arsenal, Roma, Málaga, Cruzeiro, Orlando City e Cluj.
Pela Seleção Brasileira, disputou 48 jogos e marcou cinco gols. Foi bicampeão da Copa das Confederações (2005 e 2009) e da Copa América (2004 e 2007). Integrou ainda o elenco da Copa do Mundo de 2010, quando o Brasil foi eliminado nas quartas de final.
Trajetória como técnico
Antes de chegar a São Paulo, Baptista trabalhou no Real Valladolid entre 2019 e 2023, onde atuou nas categorias de base durante o período em que Ronaldo era acionista do clube espanhol. Possui licenças A e B da UEFA para treinar em diferentes categorias.
Sua filosofia de trabalho segue uma linha dura. Define-se como técnico capaz de se adaptar conforme a situação exige, mas enfatiza que o treinador moderno precisa ser multifacetado. Acredita que a conexão com os jogadores é essencial para o sucesso.
No São Paulo sub-20, implementou medidas rígidas de disciplina. Proibiu palavrões durante os treinamentos, argumentando que eles não contribuem para a orientação tática. Limitou o uso de celular em períodos específicos: café da manhã, almoço, jantar, preleção e treino. Os aparelhos são deixados em um quiosque no CT.
Segundo Baptista, o celular causa dispersão e retarda a compreensão dos exercícios. “Se eu visse qualquer jogador com o telefone ele não ia treinar”, afirmou sobre a restrição. Sua observação é que atletas levam entre oito e dez minutos para entender um exercício quando têm acesso ao aparelho. Quem não cumpre as normas fica fora da escalação.
“Eu sou bem exigente, bem duro com os meninos. Mas aí depois, com o tempo, eles vão vendo que é tudo para o bem deles”
Durante sua passagem pela Espanha, Baptista observou diferenças comportamentais e educacionais entre jovens espanhóis e brasileiros. Segundo sua avaliação, os espanhóis apresentam maior senso de educação. Ele ajustou o nível de rigor no São Paulo conforme necessário e estabelece normas claras com consequências para o descumprimento.
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Júlio Baptista é o novo técnico do sub-20 do São Paulo (Foto: reprodução/Instagram/@juliobaptistaoficial)
Desafios da formação contemporânea
Baptista identifica um obstáculo crescente na formação de jovens jogadores: a exposição em redes sociais. Muitos ganham visibilidade antes de chegar ao futebol profissional, criando uma realidade distanciada daquela que realmente precisam viver. Um jogador em desenvolvimento frequentemente acredita que já é consagrado, o que prejudica sua evolução. O apoio familiar é fundamental para manter a perspectiva.
Ele detecta quando um atleta apresenta queda de rendimento por distração. Nesses casos, chama para uma conversa franca e oferece uma escolha explícita: mudar o comportamento ou ficar no banco. Acredita que o treinamento é inspiração para a partida.
Baptista absorveu ensinamentos de grandes técnicos ao longo de sua carreira como jogador. Oswaldo de Oliveira foi importante no Brasil. Pita o reposicionou quando perdia espaço no São Paulo. Joaquín Caparrós o reformulou novamente em Sevilla. Arsène Wenger, Manoel Pellegrini e Dunga também influenciaram sua forma de jogar e conceber o futebol.
Sua filosofia de jogo bebe da escola espanhola de posse de bola. Prefere jogar alto em sua área e busca o controle da partida. Acredita que o domínio gera melhor entendimento entre os jogadores. Uma equipe com controle consegue diferentes facetas: ajuda a conquistar títulos, alcança resultados mais profundos e reduz o desgaste físico e mental. A transição, ao contrário, gera maior desgaste em ambos os aspectos.
Baptista faz crítica severa à desatualização técnica do futebol brasileiro. “Eu acho que o treinador brasileiro perdeu espaço a partir do momento que não se atualizou”, afirmou em entrevista. Questiona a postura adotada na eliminação para a Noruega na Copa do Mundo, entendendo que o Brasil não pode abrir mão da bola nem deixar de pressionar o adversário.
“A gente não pode abdicar nunca de ter a bola, de sufocar o rival, de querer a todo momento fazer gol”
O contrato até dezembro de 2028 permite um planejamento de médio e longo prazo. O objetivo do São Paulo é capacitar talentos para a equipe principal. O caminho é similar ao que Filipe Luís segue no Flamengo, onde o técnico trabalha nas categorias de base como preparação para a equipe profissional. Baptista retorna ao Brasil após mais de uma década trabalhando na Europa.
