Zélia Duncan revela que quase perdeu a voz durante tratamento contra câncer de tireoide
Em depoimento ao videocast do Jornal Globo, a cantora relata o diagnóstico de 2017, a operação e como a música a ajudou na recuperação
Zélia Duncan descobriu um câncer de tireoide em setembro de 2017, aos 50 anos, em seu melhor momento profissional. A artista revelou a experiência em entrevista ao videocast Conversa vai, conversa vem, exibido no YouTube do Jornal Globo e no Spotify, detalhando desde o diagnóstico até o processo de recuperação que marcou sua vida.
O medo que mais a assombrou durante esses meses foi perder a voz, seu principal instrumento de trabalho. A sensação era tão intensa que ela a descreveu com palavras fortes.
“Pior que morrer”. Essa foi a expressão de Zélia Duncan ao falar do risco de perder o principal instrumento de sua arte: a voz.
Vivendo entre o palco e o camarim
Do diagnóstico em setembro até a cirurgia em dezembro, Zélia vivenciou uma transição emocional profunda. Durante esses três meses, ela se comportava como se estivesse dizendo adeus à profissão. No camarim, as lágrimas eram frequentes, enquanto nos palcos ela cantava com a intensidade de quem não sabia se teria outra chance.
Nessa época, trabalhava com uma fonoaudióloga que tentava ajudá-la a ressignificar a situação. Com uma frase simples mas decisiva, a profissional buscava mudar a perspectiva:
“Para de se despedir”, disse a fonoaudióloga de Zélia Duncan.
Havia compromissos profissionais confirmados, então Zélia solicitou ao médico que adiasse a intervenção até depois do último show. Como o quadro não era emergencial, o médico concordou com o adiamento.
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Zélia Duncan revela que quase perdeu a voz durante tratamento contra câncer de tireoide (Vídeo: reprodução/Instagram/@jornaloglobo)
O diagnóstico e as vulnerabilidades
Zélia vivia uma fase promissora quando recebeu a notícia. Havia um ano estava em relacionamento com Flavia e se sentia forte e saudável. Somado a isso, passava pela menopausa, o que tornava a situação ainda mais delicada, pois seria necessário interromper a reposição hormonal antes da cirurgia.
Sua relação histórica com o próprio corpo sempre fora rigorosa. Na juventude, era tão protetora da voz que não permitia que tocassem seu pescoço e carregava sempre um casaco. Seus colegas de trabalho a chamavam de “florzinha de estufa”. Era conhecida como a disciplinada: não fumava, não bebia, cuidava de si com extremo rigor.
O diagnóstico representou um abalo emocional considerável. Até hoje, Zélia relata sentir-se em processo de adaptação contínua.
A cirurgia e o primeiro sinal de esperança
Ao despertar da anestesia, Zélia encontrou-se muda e assustada. O médico lhe pediu que pronunciasse algo para testá-la. Sua primeira frase marcou o momento de virada: “Um dois três testando”.
Apesar do temor que ainda a acompanhava, a voz persistia. A combinação de idade e menopausa poderia ter agravado uma voz naturalmente grave, mas ela recebeu uma surpresa positiva durante a recuperação.
O pós-operatório demandou exercícios específicos e sessões intensas com a fonoaudióloga. O desafio posterior foi trabalhar com o violoncelista e maestro Jaques Morelenbaum. A voz e o violoncelo em conjunto exigiam muito; era como amplificar cada imperfeição vocal. O esforço emocional foi substancial.
O aspecto mais difícil era precisar pensar antes de cantar. Para Zélia, a música sempre fora algo instintivo, natural. Agora precisava calcular cada respiração, sua profundidade, a intensidade de cada nota. Tudo que era instinto transformou-se em técnica. Ela teve que se reinventar nesse novo modo de existir através da música.
Reconstrução e novo significado
A recuperação emocional acontecia gradualmente, a cada apresentação. Chorava copiosamente antes de entrar em cena, limpava o rosto, se maquiava e seguia para o palco. Pouco a pouco, foi se refazendo. Hoje Zélia relata bem-estar, mas mantém uma cautela constante, como quem já foi queimado.
Essa jornada ganhou profundo significado com o álbum Agudo grave, seu 21º trabalho. A faixa Voz, desenvolvida em parceria com Maria Beraldo, encerra com um verso que sintetiza toda essa trajetória: “E as cicatrizes todas cantam por mim”.
O disco, feito com colaboração de Maria Beraldo e Tó Brandileone, investiga o que foi recuperado, quem é a nova Zélia para cantar, como está a voz agora. Não é apenas um lançamento fonográfico; é uma ressignificação de tudo que vivenciou. As cicatrizes, tanto a física no pescoço quanto as emocionais, tornaram-se parte constitutiva de sua arte.
