Flávio Bolsonaro rebate críticas sobre contas de “Dark Horse” e aponta Lula como responsável
Senador insiste que a produtora divulgou as contas em documentos do inquérito e se recusa a apresentar o acordo firmado com o banqueiro Daniel Vorcaro
O senador Flávio Bolsonaro se irritou ao ser questionado pela imprensa na noite de segunda-feira (24 de agosto) sobre a apresentação do contrato entre a produtora do filme Dark Horse e o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. Mais de três meses após prometer divulgar os detalhes financeiros em até 30 dias, ele afirmou que a produtora Go Up Entertainment já prestou contas e redirecionou as acusações para o presidente Lula.
Flávio contestou a ideia de que tenha recuado da promessa feita em 19 de maio, logo após o vazamento de áudios que mencionavam o filme. Conforme suas declarações, os relatórios constam de documentos anexados ao inquérito que a Polícia Civil de São Paulo conduz sobre o caso.
“Não houve recuo nenhum. Eu vi a prestação de contas no g1. Dá um Google vocês no g1. A prestação de contas tá lá na matéria do g1 dizendo que a produtora gastou mais até que recebeu de investimento [de Daniel Vorcaro]. A prestação de contas foi feita dentro da investigação que está acontecendo em São Paulo e a própria imprensa vazou. Da minha parte eu digo, não sou eu que tenho que prestar conta, é o Lula, porque fez reuniãozinha escondida com Augusto Lima e o Vorcaro”, disse Flávio Bolsonaro.
O laudo produzido pelos advogados de Karina Ferreira da Gama, presidente da Go Up Entertainment, não inclui recibos ou notas fiscais. Também não descreve a origem dos R$ 20,9 milhões gastos no Brasil, conforme documento anexado ao inquérito.
Quando os repórteres insistiram sobre a falta de transparência, o senador elevou o tom e deslocou o debate.
“Vocês vão parar no tempo? O Brasil tá lambendo em chamas, todo mundo endividado, Brasil quebrado… e vocês querem insistir com uma relação privada, de um filme privado que não tem partilha pública de nada? Não adianta, vocês não vão me colocar na mesma página pública desse cara. Não vão me colocar. Hoje o governo Lula é que deve explicações. Vão cobrar explicações dele”, afirmou Flávio Bolsonaro.
As falas ocorreram durante participação de Flávio em evento da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), que reuniu empresários e candidatos à Prefeitura de São Paulo, entre eles o prefeito Ricardo Nunes.
Os números da produção
Segundo laudo do Instituto de Perícia Investigativa, contratado pelo escritório Hasson Sayeg, Novaes e Advogados, a Go Up Entertainment declarou que Dark Horse custou ao menos R$ 75,1 milhões. Dessa quantia, R$ 54 milhões foram gastos no exterior e R$ 20,9 milhões no Brasil, conforme assinado pelo perito Anísio Costa Castelo Branco.
O filme foi comercializado por US$ 13,39 milhões, apesar de ter sido integralmente gravado em território brasileiro. O documento do perito não apresenta recibos ou notas fiscais que comprovem os gastos declarados.
Em seu parecer, o perito afirmou não ter identificado “entradas de caixa oriundas de recursos públicos, repasses governamentais ou financiamentos”. A investigação da Polícia Civil de São Paulo e do Ministério Público, contudo, busca esclarecer se houve utilização de recursos públicos do contrato municipal de wi-fi na produção.
Candidato a presidencia, Flávio Bolsonaro (Foto: reprodução/Getty Images Embed/MAURO PIMENTEL)
O papel de Vorcaro
Daniel Vorcaro, preso por gerar um rombo de R$ 47 bilhões ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC), transferiu R$ 61 milhões aos produtores do filme por intermédio de um fundo nos Estados Unidos. Conforme informações do site The Intercept Brasil, Flávio Bolsonaro teria negociado o repasse de US$ 24 milhões, o equivalente a cerca de R$ 134 milhões à época, para financiar a produção.
A Go Up Entertainment não tinha histórico anterior de produção cinematográfica no Brasil antes de Dark Horse. O Instituto Conhecer Brasil, que apareceu como beneficiário do contrato municipal de instalação de wi-fi, também não possuía registros de execução de projetos similares na periferia de São Paulo até junho de 2024, quando firmou acordo com a gestão de Ricardo Nunes.
O pós-produção e o inquérito
Karina Ferreira da Gama informou que o filme encontra-se em fase de pós-produção, com inclusão de efeitos especiais e sonorização. Segundo ela, o projeto ainda necessita de recursos, mas nada considerado crítico para sua conclusão.
“Quando ele [Vorcaro] foi preso, a gente já estava filmando. Eu tinha folha de pagamento para pagar, eu já tinha profissionais para pagar. E nenhum deles sentiu o impacto porque todo mundo arregaçou as mangas. ‘Gente, vamos ver onde a gente ajuda, quem pode apoiar’. Nossa vida todo dia era falar com pessoas da iniciativa privada que pudessem apoiar o nosso projeto”, disse Karina da Gama.
O inquérito sobre o contrato de R$ 108 milhões para instalação de wi-fi na periferia de São Paulo permanece em andamento. A Polícia Civil e o Ministério Público trabalham para determinar se houve deslocamento de recursos públicos municipais para a produção cinematográfica.
