Thaila Ayala se reaproxima da mãe e conta detalhes da reconstrução da relação: “Liguei e pedi que ela me perdoasse”

Atriz grava curta-metragem sobre a vida de sua mãe e prepara livro que explora a relação entre elas; viagem à Itália está nos planos

31 ago, 2026
Thaila Ayala I Reprodução/Instagram/@thailaayala
Thaila Ayala I Reprodução/Instagram/@thailaayala

Aos 40 anos, Thaila Ayala volta aos estúdios na novela vertical Nas Profundezas do Amor, disponível no Globoplay, no papel da vilã Zara. Após quase dois anos longe das gravações, ela mergulha em um personagem ambicioso, calculista e desprovido de escrúpulos. Para uma atriz, esse tempo afastado equivale a uma eternidade, como ela própria descreve.

Zara é fria, sem pudor e passa por cima de tudo para alcançar seus objetivos. A antagonista protagoniza sequências intensas, com brigas físicas, empurrões e humilhações verbais. A força do papel marcou profundamente o trabalho de Ayala. Durante as filmagens, ela ficou sem voz pela intensidade que exigia de si mesma, apesar de todos os cuidados tomados para preservar o corpo.

As gravações ocorreram em apenas dez dias, um ritmo completamente distinto das novelas folhetim convencionais, que levam um ano inteiro para serem gravadas. No formato de série vertical, cada episódio precisa de múltiplos plot twists para manter o ritmo acelerado e prender o espectador.

“Era pesado sair de lá. Falava: ‘Graças a Deus, são só 10 dias”, confessa Thaila.

O desafio técnico exigiu tudo dela. A atriz não se aprofundou muito em produções desse formato e preferiu deixar-se conduzir pelo processo criativo. O diretor Cristiano Marques guiou suas escolhas de interpretação. Zara é descrita como uma vilã corporal e brutal, sem escrúpulos em nenhum aspecto de sua trajetória.

Transformando dor em criação

Paralelamente ao retorno atuando, Ayala trabalha em projetos que ressignificam seus traumas através da arte. Ela está arrecadando recursos para realizar o curta-metragem Tudo em Ordem, que dirigiu e roteirizou. A obra retrata a história de sua mãe, que trabalhou como empregada doméstica e vivenciou diferentes formas de abuso.

O projeto nasceu de duas décadas de análise pessoal. Sua terapeuta recomendou que ela transformasse vivências em palavras, um exercício que a atriz mantém desde sempre.

“Desde sempre escrevo histórias, assim como meu filho, que começou a escrever aos 4 anos. Demorei muito tempo para entender que precisava contar o que vivi. Minha analista recomendou que eu escrevesse e, para mim, é realmente um processo terapêutico. Estou feliz e empolgada de estar fazendo isso.”

Além do curta, Ayala começou a estruturar um livro sobre o vínculo com sua mãe. Não se trata apenas de um relato pessoal, mas de um desdobramento do entendimento conquistado na análise. Ela compreendeu que precisava dar voz às suas experiências e às de sua família para ressignificar o sofrimento vivido.


 

Ver esta publicação no Instagram

 

Uma publicação partilhada por Thaila Ayala (@thailaayala)

Thaila Ayala (Foto: reprodução/Instagram/@thailaayala)


O caminho da compreensão

A jornada emocional que levou ao curta começou há mais de 20 anos nos consultórios. Ao longo desse percurso, Ayala conseguiu enxergar que traços seus que mais rejeitava espelhavam características de sua mãe. Quando ela mesma virou mãe, conseguiu olhar para a mãe de forma diferente.

Antes disso, enfrentou períodos intensos de questionamento. Sentiu raiva, ressentimento e compaixão durante suas sessões. A transformação veio quando a empatia finalmente prevaleceu:

“Teve momentos que questionei e não entendi as escolhas dela. Já senti raiva, ranço e pena nas minhas sessões de análise. Mas a virada de chave veio quando consegui enxergar que as coisas que mais odiava em mim eram reflexos dela.”

Essa mudança de perspectiva levou a um gesto marcante. Um dia, Ayala ligou para a mãe com uma proposta inusitada: pedir perdão.

“Um dia, liguei e pedi que me perdoasse por tê-la julgado e agradeci por tudo que fez por nós, criando sozinha, sem casa, base ou dinheiro, três mulheres fortes, fodas e de caráter.”

Sua mãe se tornou mãe aos 17 anos. Enquanto limpava casas alheias, sustentava a família em um conjunto habitacional. Enfrentou abusos tanto no trabalho quanto em relacionamentos pessoais. Essa narrativa é o coração tanto do curta quanto do livro que Ayala escreve.

Um novo capítulo dessa reconstrução está próximo. A atriz viajará à Itália com a mãe em breve, pela primeira vez que passarão tempo sozinhas desde que saiu de casa aos 15 anos. Para Ayala, a mãe permanece em muitos aspectos desconhecida, e essa experiência representa a chance de conhecê-la para além do papel materno.

Duas décadas de trajetória

Este ano marca 20 anos de carreira para Ayala. Seu ponto de partida foi a novela Caminho das Índias, primeira participação dela em uma trama das 9 da Globo. Desde então, acumulou papéis variados: foi Miranda na adaptação de A Tempestade, estrelou o filme Pica-Pau e participou de Ti Ti Ti e Família é Tudo.

Sua história pessoal permeia toda sua carreira profissional. Cresceu em uma rua sem asfalto, com apenas três canais de televisão. Sua primeira memória sobre a carreira é a de si mesma, criança, imaginando um mundo diferente daquele.

Por muito tempo, Ayala não conseguia se apropiar de suas conquistas. Olhava para sua casa sem se reconhecer nela. Provou seu primeiro morango apenas aos 15 anos. Esse contexto marca profundamente como ela percebe gratidão.

Diariamente, ela é tomada por agradecimento pelas oportunidades conquistadas. Sente também a responsabilidade de passar ensinamentos aos filhos, desejando levá-los a conhecer a casa da avó, suas raízes.

Maternidade e vida em casal

Ayala é mãe de Francisco e Tereza, filhos que compartilha com o ator Renato Goés. As duas gestações aconteceram consecutivas, uma emendando na outra. A segunda não foi planejada, e o casal viveu quase três anos entre gestação e puerpério.

Durante esse período, o relacionamento entre eles se reorganizou. Deixaram de existir como casal e passaram a ser pai e mãe em construção. Renato atuou a parentalidade dele com intensidade e presença na dinâmica familiar que se formava.

Atualmente, equilibram a relação através de práticas simples. Fazem uma viagem por ano juntos e compartilham conversas enquanto tomam um vinho, após colocar os filhos para dormir. Renato lidera essas iniciativas com mais cuidado e romantismo.

Durante a pandemia, o casal trabalhou junto em uma produção cinematográfica. Renato atuou na produção enquanto Ayala integrava o elenco, e tudo foi gravado dentro de casa. Ela também colaborou na escrita com Paulo Fontenelle, expandindo sua atuação para além da interpretação.

Mais notícias