Aos 92 anos, morre a ativista Gloria Steinem, uma das maiores vozes do feminismo mundial

Jornalista que liderou a segunda onda do movimento nos EUA, fundou a revista Ms. e dedicou mais de cinco décadas aos direitos reprodutivos e à participação política das mulheres

03 set, 2026
Gloria Steinem | Reprodução/Instagram/@gloriasteinem
Gloria Steinem | Reprodução/Instagram/@gloriasteinem

Gloria Steinem, jornalista e ativista que se tornou um dos principais símbolos do movimento feminista norte-americano, morreu aos 92 anos em sua casa em Nova York na quarta-feira (2). A Fundação Gloria Steinem divulgou o falecimento nesta quinta-feira (3). A causa não foi informada.

“Ontem, Gloria Steinem faleceu pacificamente em sua casa na cidade de Nova York, cercada por algumas das muitas pessoas que a amavam. O quase um século de vida de Gloria foi bem vivido, e ela continuou trabalhando pela igualdade até o fim”, informou a fundação.

Steinem consolidou-se como voz central do feminismo americano no final dos anos 1960, período de profundas transformações sociais nos Estados Unidos. Por mais de cinco décadas, trabalhou pela expansão dos direitos reprodutivos das mulheres e pelo seu ingresso na vida política, tornando-se figura-chave da segunda onda do movimento feminista no país.

Do jornalismo investigativo ao ativismo

Antes de se tornar referência do feminismo, Steinem atuou como jornalista investigativa. Em 1963, segundo o G1, ela se infiltrou na Playboy disfarçada de coelhinha durante onze dias para documentar as condições degradantes impostas às funcionárias do império de Hugh Hefner. A reportagem rendeu prêmios e marcou sua trajetória na imprensa.


Comunicado da morte de Gloria Steinem (Foto: reprodução/Instagram/@gloriasteinem)


Cinco anos depois, Steinem publicou na New York Magazine, veículo que ajudou a criar, um artigo que seria decisivo: “Depois do Black Power, a Libertação das Mulheres”. O texto a posicionou como liderança feminista em um contexto de intensas mudanças sociais. Pouco depois, conforme G1, estampou a capa da Newsweek com o título “A Nova Mulher”.

Steinem relatou que passou a atuar publicamente após enfrentar rejeições de editores ao propor reportagens sobre feminismo. “Então, acabei saindo para falar em público, o que era o meu pesadelo”, declarou em entrevista à Associated Press em 2015. A falta de espaço na cobertura sobre o movimento que lhe interessava a impulsionou para as ruas.

Mobilização política e organizações

Steinem liderou manifestações que pressionaram o Congresso a ampliar direitos das mulheres. Em 1971, co-fundou o Caucus Político Nacional para Mulheres ao lado de Bella Abzug, Shirley Chisholm e Betty Friedan, uma aliança que marcaria profundamente a história do feminismo americano.

Ao longo de sua carreira, Steinem criou a Coalizão de Mulheres Sindicalistas, o Centro de Mídia de Mulheres, Eleitores pela Escolha e a Fundação Ms. para as Mulheres. Em 2013, o presidente Barack Obama lhe conferiu a Medalha Presidencial da Liberdade, a honraria civil mais elevada dos Estados Unidos.


Gloria Steinem (Foto: reprodução/Instagram/@gloriasteinem)


Os direitos reprodutivos ocuparam lugar central em seu ativismo. Steinem havia vivido um aborto secreto aos 22 anos, experiência que se tornou propulsora de sua luta. “Ou o controle sobre nossos próprios corpos é igualitário, independentemente de sexo ou raça, ou não estamos vivendo em uma democracia”, afirmou.

Origens, vida pessoal e trajetória

Nascida em 25 de março de 1934 em Toledo, Ohio, Steinem era a filha mais nova de um casal. Seu pai trabalhou como negociante de antiguidades em constante deslocamento, razão pela qual a família mudava-se frequentemente e ela não frequentou escola regularmente até o sétimo ano.

Na vida pessoal, optou por não ter filhos. Aos 66 anos, casou-se com David Bale, empresário e ambientalista sul-africano que era pai do ator Christian Bale. David Bale faleceu em 2003.

Grande parte de sua atuação como ativista envolveu viagens e apresentações em universidades, centros comunitários, comícios e marchas. Mesmo na faixa dos 80 anos, continuava a viajar pelo mundo e a se posicionar sobre questões prementes, incluindo mutilação genital e reconciliação coreana, mas a igualdade das mulheres permanecia como sua prioridade principal.

“Não dá para fazer isso por telefone ou pela internet. É preciso estar presente com todos os cinco sentidos. Deveria ser óbvio que as pessoas não conseguem sentir empatia umas pelas outras a menos que estejam no mesmo ambiente”, disse à Associated Press em 2015.

Steinem também expressou que “ser feminista significa ver o mundo como um todo, em vez de apenas a metade”. Essa compreensão integral do ativismo orientou suas decisões até seus últimos anos.

Presença nas artes e últimos projetos

Aos 83 anos, Steinem compareceu à primeira fila de seu primeiro desfile de moda, como convidada do estilista Prabal Gurung. Anos depois, com 85 anos, conduziu uma roda de conversa sobre feminismo em uma peça off-Broadway que celebrava sua vida. Mulheres da plateia levantavam-se para agradecê-la e dividir histórias de discriminação.

Em 2020, sua história inspirou o filme “The Glorias”, baseado em suas memórias de 2015, com Julianne Moore no elenco e Julie Taymor na direção. Aos 91 anos, Steinem colaborou em um livro ilustrado com a ativista e ganhadora do Prêmio Nobel Leymah Gbowee. O livro, lançado em fevereiro de 2026, buscava inspirar jovens a promover mudanças no mundo.

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