Canetas emagrecedoras no SUS: entenda as três etapas que faltam após anúncio de Lula

Presidente afirmou que o fármaco será oferecido, porém a Conitec ainda não avaliou a incorporação e o custo pode atingir R$ 7 bilhões em cinco anos

18 set, 2026
Presidente Lula | Reprodução/X/@LulaOficial
Presidente Lula | Reprodução/X/@LulaOficial

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou durante evento em Montes Claros, Minas Gerais, que medicamentos emagrecedores serão oferecidos sem custo no Sistema Único de Saúde. O anúncio ocorreu no mesmo dia em que o governo aumentou o Bolsa Família em 15%. Contudo, o fármaco não chegará aos postos de forma imediata. A disponibilização depende de aprovações que ainda não foram concluídas, sem data prevista para cada etapa.

Em publicação nas redes sociais, Lula reafirmou o compromisso com a medida.

“As canetas emagrecedoras vão ser oferecidas no SUS. Elas vão ampliar o acesso ao tratamento da obesidade, sempre com muita responsabilidade e protocolos médicos rigorosos, e proporcionar maior qualidade de vida para a população.”

A intenção, segundo o presidente, é ampliar as opções de tratamento para a obesidade, hoje restrita à cirurgia bariátrica no sistema público.

Três obstáculos antes da implementação

Antes que o medicamento alcance as farmácias do SUS, conforme apuração do G1, pelo menos três condições precisam ser satisfeitas. A primeira é a avaliação e aprovação formal da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec), órgão responsável por analisar novos medicamentos e tratamentos para a rede pública. Após aprovado pela Conitec, o Ministério da Saúde deve assinar a decisão final.

A segunda etapa é a criação de um protocolo clínico de uso e uma política pública para obesidade, documentos que hoje não existem no SUS. Essa definição será essencial para estabelecer quem tem direito ao medicamento e quantos pacientes poderão ser atendidos.

O terceiro obstáculo é o cálculo do impacto orçamentário e a identificação da fonte de recursos. Sem esses números, o governo não consegue medir quanto custará o programa e onde virão os recursos.

A Conitec realizou reunião em 4 de setembro. A pauta incluía a possibilidade de debater o tema, mas, conforme apurado pelo G1, a discussão foi adiada para depois do período eleitoral. O próximo encontro da comissão está marcado para 7 de outubro.

Medicamentos aprovados pela Conitec não chegam de forma instantânea aos postos. Fármacos para câncer de pulmão foram avaliados entre 2024 e 2025, mas só estarão acessíveis em 2026.


Lula fala sobre canetas emagrecedoras (Vídeo: reprodução/Instagram/@jovempannews)


O peso do custo para o SUS

Nem a Presidência nem o Ministério da Saúde divulgaram se e como calcularam o impacto orçamentário. Dados da própria Conitec indicam que o valor varia conforme o cenário de implementação.

Considerando uma dose inicial de R$ 727,25 por paciente, o custo total chegaria a R$ 7 bilhões em cinco anos. Se o preço unitário for reduzido para R$ 400, o gasto acumulado em cinco anos seria de R$ 3,6 bilhões. O montante pode ser superior, visto que a obesidade é doença crônica que exige tratamento prolongado e contínuo.

Para colocar em perspectiva: um paciente que sofre acidente vascular cerebral custa mais de R$ 57 mil ao SUS. Quem depende de diálise gera despesa de quase R$ 73 mil no primeiro ano. Um infarto provoca custo médio de R$ 4,9 mil, enquanto internação por insuficiência cardíaca chega a R$ 17,8 mil.

Por que o medicamento é necessário

Mais de 60% dos brasileiros estão acima do peso, e cerca de 25% enfrentam obesidade, segundo especialistas consultados pelo G1. O sistema público de saúde não oferece medicamento para tratamento da doença. Atualmente, a cirurgia bariátrica é o único recurso disponível no SUS, com fila de espera extensa.

Neuton Dornelas, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), reconhece a importância da medida, mas solicita cautela na implementação.

“A incorporação desse medicamento é uma necessidade. Precisa ser feito com a garantia de continuidade do fornecimento, como uma política de Estado, não de governo, de partido, como algo eleitoreiro. É preciso garantir que vai ter distribuição para todo o país, de forma igualitária.”

Dornelas defende que o protocolo inclua pacientes com obesidade diagnosticada e também aqueles com sobrepeso que sofrem comorbidades como diabetes e hipertensão. Será fundamental, na avaliação dele, determinar o teto orçamentário do Estado para que se estabeleçam critérios de acesso.

O papel do protocolo clínico

O protocolo será instrumento essencial para delimitar a população elegível e calcular quantos indivíduos terão acesso. Esse documento determinará, na prática, o custo final da iniciativa.

Maria Laura Precinotto, doutoranda em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo (USP), alerta para a necessidade de uma abordagem mais ampla.

“É preciso que o Ministério da Saúde debata o acesso ao tratamento e ao acompanhamento, mas sem reducionismo. Não dá para achar que falar de obesidade no SUS é apenas inserir os GLP-1 e que isso resolve o problema no país.”

Segundo Precinotto, a incorporação exigirá a estruturação de equipes multidisciplinares, centros especializados e um plano nacional integrado para o tratamento da obesidade.

O que existe em prática hoje

O único movimento concreto envolvendo o medicamento no SUS é um estudo-piloto restrito a Porto Alegre. O projeto atende 250 pacientes que aguardam na fila por cirurgia bariátrica. O trabalho começou em 26 de junho e terá duração de dois anos.

No mercado privado, o cenário é diferente. O Ministério da Saúde requisitou agilidade à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para aprovação de novas versões do medicamento. O número de fármacos emagrecedores aprovados subiu de 1 para 14 em 2026, entre eles duas versões genéricas, novidade no Brasil.

O preço também recuou no setor privado. Doses iniciais estão sendo comercializadas a R$ 300 em farmácias, valor consideravelmente inferior aos quase R$ 1 mil cobrados pelo Wegovy até 2025.

O Ministério havia anunciado parceria com a indústria farmacêutica EMS para manufatura de medicamentos próprios no SUS. A EMS tornou-se a primeira empresa farmacêutica nacional com registro aprovado. Segundo apuração do G1, a cooperação não evoluiu até o presente momento.

O tema do medicamento emagrecedor não consta do programa de governo de Lula registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Outros candidatos também não mencionaram medicações para obesidade em seus planos de campanha.

O que são os medicamentos

Apesar da denominação comum, os medicamentos não produzem emagrecimento por si. O fármaco é indicado para dois tratamentos específicos: diabetes tipo 2 e obesidade. Ambas são doenças crônicas que requerem supervisão e acompanhamento médico contínuo.

O Ministério da Saúde informou ao G1 que a incorporação ocorrerá com responsabilidade e rigor técnico. O órgão não detalhou, no entanto, prazos, valores exatos de impacto orçamentário ou quais as etapas pendentes para conclusão do processo.

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