Ed Sheeran: como a fama de bom moço contribuiu para a maior crise da carreira do cantor
Finneas, Lukas Graham, Aaron Rowe e a banda Beoga abandonaram os shows em solidariedade ao rapper. Críticos questionam por que Sheeran não enfrentou os donos dos estádios
O cantor britânico Ed Sheeran enfrenta a maior crise de sua carreira após concordar com a retirada do rapper Macklemore da turnê nos EUA. A saída do abridura ocorreu após pressão de donos de estádios, liderados pelo bilionário Robert Kraft, que ameaçaram não ceder seus espaços caso Macklemore continuasse com seus discursos pró-Palestina. Sheeran respondeu afirmando que os promotores tomaram a decisão, não ele, mas a alegação gerou acusações de covardia de críticos do setor.
Com mais de 120 milhões de discos vendidos e passagens que somam mais de 1 mil semanas nas paradas de sucesso americanas, Sheeran construiu uma carreira baseada na imagem de artista acessível e genuíno. Sua personalidade simples é marca registrada: veste-se como fãs ao sair de Glastonbury e desenvolveu cuidadosamente uma reputação inofensiva e receptiva a todos.
Essas ações filantrópicas consolidaram a imagem. Em 2014, doou todo seu guarda-roupa para lojas de caridade. No mesmo ano, adotou um gato de um mês salvo da eutanásia, nomeado Graham. Hoje administra uma organização que oferece aulas de música para menores de 18 anos em Suffolk.
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Ed Sheeran acaba no centro da maior crise de sua carreira (Vídeo: reprodução/Instagram/@teddysphotos)
A cautela política de Sheeran
Apesar dessa reputação progressista, Sheeran evita se envolver em política pública. Normalmente só se manifesta sobre direitos autorais, revenda de ingressos e impactos do Brexit. Sua tendência é esquerdista, mas ele hesita em usar sua plataforma para posicionamentos políticos.
Em 2017, afirmou ter apoiado o líder trabalhista Jeremy Corbyn, embora não participasse da campanha.
“As pessoas achavam que, como eu não aparecia ao lado dele, não era apoiador de Corbyn”, contou Sheeran ao Sunday Times. “Se você me conhecesse como pessoa e ouvisse minhas músicas, poderia ter um palpite bem fundamentado de que ele seria o tipo de pessoa que eu realmente apoiaria.”
Para Sheeran, a música deve unir as pessoas. Ele prefere manter distância de questões fora do universo musical, vendo seus shows como ambientes de humanidade comum. Essa filosofia guia suas decisões públicas.
Ed Sheeran acaba no centro da maior crise de sua carreira (Vídeo: reprodução/YouTube/Splash)
O discurso de Macklemore e a pressão nos bastidores
A crise começou quando Macklemore foi escolhido como artista de abertura da turnê. Na primeira noite, pronunciou o discurso “Palestina livre” e exibiu imagens da destruição na Faixa de Gaza. Na apresentação seguinte, referiu-se ao número de mortos como genocídio, acusação rejeitada por Israel.
A organização StopAntisemitism acusou Macklemore de criar uma “armadilha” para o público. Donos de estádios, aparentemente liderados por Robert Kraft, intensificaram a pressão sobre Sheeran e os promotores. Ameaçaram não sediar os shows caso Macklemore permanecesse.
Após uma semana de negociações, conseguiram retirar o rapper. Na terça 15 de setembro, Sheeran publicou declaração afirmando que os promotores decidiram sozinhos. Afirmou ter tentado construir pontes entre as partes, sem êxito.
“Estou indignado com o conflito entre Israel e a Palestina. O sofrimento e a dor causada nos dois lados é uma tragédia humana. Existem guerras demais em todo o mundo, causando dores imensuráveis, e nenhuma delas deveria ser tolerada.”
As razões para não usar a plataforma
Sheeran explicou por que decidiu não se pronunciar publicamente sobre o assunto durante a turnê.
- Seu público inclui crianças e jovens de todas as origens
- Acredita que shows devem ser espaços neutros
- Prefere não inflamar divisões em apresentações
- Teme afastar parte de seus fãs internacionais
Críticos, porém, questionam por que sua declaração não mencionou as crianças mortas na Faixa de Gaza.
As contradições que prejudicam a narrativa
Observadores apontaram incoerências na posição de Sheeran. Em 2018, vestiu uma camiseta com “Justiça para Grenfell” no Estádio de Wembley. Participou do Festival pela Ucrânia em 2022. Gravou com U2 uma canção de protesto sobre guerra em 2026. Seu histórico mostra que ele usa sua plataforma para causas específicas.
A amizade com Robert Kraft também levantou questões. Sheeran cantou no casamento de Kraft em 2022 e o descreveu como “superdoce” em entrevista posterior. Segundo críticos, isso representa um potencial conflito de interesses nessa relação.
O jornalista Jeffrey Ingold, especialista em música, foi direto na crítica. Segundo ele:
“Ele é um dos maiores músicos do mundo. Ele tem poder e influência. E, basicamente, ele lavou as mãos e disse ‘não é responsabilidade minha’. Ele poderia ter dito aos promotores e aos donos dos espaços, incluindo Robert Kraft: ‘Quer saber? Não vamos fazer os shows ali.'”
Ingold destacou que Sheeran tinha alternativas. O cantor poderia ter ameaçado cancelar os shows ou encontrado locais menos dependentes dos bilionários que exigiam a remoção de Macklemore.
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Ed Sheeran acaba no centro da maior crise de sua carreira (Vídeo: reprodução/Instagram/@teddysphotos)
O êxodo de artistas de apoio
Horas após a declaração de Sheeran, outros três artistas anunciaram suas saídas. Finneas, Aaron Rowe e Lukas Graham deixaram a turnê. A banda irlandesa Beoga também desistiu de servir como apoio para músicas como “Galway Girl” e “Nancy Mulligan”.
Os artistas argumentaram que a exclusão de Macklemore representava supressão de liberdade de expressão. Afirmaram que a decisão foi tomada por um pequeno grupo de bilionários donos de espaços de shows. Personalidades do setor musical e além dele manifestaram solidariedade ao rapper.
Sheeran encontrou-se em uma encruzilhada sem saída. Se ameaçasse desistir dos shows, seria interpretado como apoio total a Macklemore. Ao aceitar a remoção, como fez, foi visto como covarde. Qualquer escolha o condenaria aos olhos de uma parcela significativa do público.
O impacto na reputação e os próximos passos
A imagem de bom moço de Sheeran sofreu um abalo considerável. Segundo Ingold, isso mudará a forma como as pessoas o veem. O show em Filadélfia no sábado 19 de setembro seria um teste importante de reação do público.
Jem Aswad, editor-executivo de música da Variety, duvida que a controvérsia cause grandes danos comerciais à carreira de Sheeran. Acredita que as críticas não vêm necessariamente de seus fãs. A turnê encerra em dezembro no México, e os próximos movimentos precisam ser cuidadosamente planejados para que ele recupere a credibilidade construída ao longo de duas décadas.
