Fafá de Belém reúne artistas e comunidade LGBT em celebração de fé no Círio de Nazaré

Cantora de 70 anos comanda há 16 anos um evento que emprega 1.500 pessoas anualmente e redefiniu o turismo cultural do Pará durante a procissão

11 out, 2026
Fafá de Belém I Reprodução/Instagram/@fafadbelem
Fafá de Belém I Reprodução/Instagram/@fafadbelem

Fafá de Belém, de 70 anos, coordena desde 2008 a Varanda de Nazaré, um espaço criado durante o Círio de Nazaré que reúne artistas, representantes LGBTQIA+ e lideranças religiosas em torno de uma celebração inclusiva. O evento emprega 1.500 pessoas todos os anos e transformou o turismo paraense, atraindo convidados de todo o Brasil para vivenciar a procissão como expressão de fé e identidade local.

A rotina de Fafá durante o Círio é conhecida por sua intensidade. Ela acorda cedo, nada no rio, canta para multidões e conduz orações enquanto apresenta as tradições do Pará aos participantes do evento. Questionada pela revista Quem sobre de onde tira tanta disposição para uma agenda desse porte, a cantora respondeu com seu bom humor característico: “Eu durmo bem”.

O propósito da Varanda

Fafá criou a Varanda de Nazaré com um objetivo claro: levar convidados de fora do Pará a compreender o verdadeiro significado da procissão para a população local. A seleção de personalidades que participam do evento segue critérios rigorosos de admiração pela trajetória profissional e capacidade de se conectar com a cultura paraense.

“Trago personalidades múltiplas, jornalistas, cantores, teólogos, padres, pais de santo, babalorixá, pastor e drags. Eu trago pessoas por quem eu tenho admiração pela sua trajetória, trago para ver no nosso povo, porque a gente é caboclo e ficamos muito felizes quando olham para a gente”, revelou em entrevista à revista Quem.

O impacto da iniciativa no setor de turismo foi significativo. Desde seu lançamento, outros espaços semelhantes começaram a surgir há cerca de cinco anos. As contratações para a Varanda iniciam em março, com predominância de trabalhadores oriundos do Pará, gerando demanda expressiva para hotéis e restaurantes da região.


Fafá de Belém (Foto: reprodução/Instagram/@fafadbelem)


Fé e identidade paraense

Para Fafá, o Círio transcendeu o caráter puramente religioso. Ela o vê como manifestação central da identidade do povo paraense. A devoção a Nossa Senhora de Nazaré é tão profunda na região que a santa é conhecida familiarmente como Naza, Nazinha ou Nazarezinha.

“A devoção à Nossa Senhora é tão grande que aqui ela é Naza, Nazinha, Nazarezinha. Temos Nossa Senhora como uma entidade distante, mas ela é próxima. E, como ela é próxima, ela permite que a gente tenha uma intimidade muito grande com ela. O profano se mistura ao sagrado, então a cada ano as manifestações vão crescendo mais. Se você quer conhecer o Pará, venha durante o Círio. É a explosão do paraensismo”, afirmou a cantora.

Durante a trasladação, na madrugada de sábado para domingo, e a procissão do domingo pela manhã, Fafá permanece na Varanda cantando e mobilizando os romeiros. A procissão reúne fiéis puxando uma corda que alcança aproximadamente 400 metros. Quando descreveu o estado emocional vivenciado nesses momentos, Fafá relatou uma experiência de difícil tradução em palavras.

“Eu não sei [o que acontece]. A partir da procissão fluvial, eu não estou mais aqui. É muito difícil explicar isso em palavras, entendeu? Porque é muita emoção. Como sou uma pessoa muito sensível, de vez em quando, eu dou uma descolada. Agora, quando começa a transladação, aí não conte comigo. Eu ando, canto, passo, mas tenho muitos momentos onde eu não estou ali, euestou no meio da multidão”, descreveu.

Folclore e fé celebrativa

“Eu não arriscaria não estar atento quando tem um homem com chapéu na cabeça por perto. O Boto está aí e a Iara está por aí também. Está todo mundo solto na época do Círio. Aqui é tempo de encantaria, de crendice, de muito afeto e muita alegria. Acho que o diferente do Círio é que é uma fé feliz, é uma procissão que é alegre. Nossa fé pensa no futuro, não se apega ao passado. Ela não está aqui para punir ninguém, ela está aqui para perdoar e seguir em frente”, finalizou em declaração publicada na revista Quem.

A cantora encerra sua reflexão sobre o Círio evocando os elementos místicos que permeiam a celebração na visão local. O Igarapé Murutucu, onde em torno de 1700 um caboclo chamado Plácido teria encontrado uma imagem de madeira de Nossa Senhora que desaparecia e reaparecia misteriosamente, hoje abriga a Basílica Santuário de Nossa Senhora de Nazaré, centro espiritual da procissão.

Mais notícias