Estação espacial comercial terá minicérebros em estudo sobre Alzheimer

Módulo da empresa Vast tem lançamento previsto para 2027; neurocientista brasileiro Alysson Muotri planeja pesquisas sobre a doença em órbita

16 out, 2026
Alysson Muotri, responsável pela pesquisa sobre o Alzheimer | Reprodução / Instagram / @alyssonmuotri
Alysson Muotri, responsável pela pesquisa sobre o Alzheimer | Reprodução / Instagram / @alyssonmuotri

Em 2027, pela primeira vez, astronautas terão a oportunidade de dormir, trabalhar e realizar pesquisas numa estação espacial que não pertence e não é operada por nenhum governo, chamada Haven-1. Uma das pesquisas que deverá ir a bordo é a do neurocientista brasileiro Alysson Muotri, que pretende enviar minicérebros humanos à órbita para estudar o Alzheimer.

Alysson Muotri é professor da Universidade da Califórnia em San Diego (UCSD) e um dos mais respeitados cientistas do mundo em transtornos do desenvolvimento neurológico, principalmente o autismo. Ele vai levar ao espaço seu projeto de minicérebros, pequenas estruturas criadas em laboratório a partir de células-tronco que reproduzem o cérebro de um bebê em formação.

O projeto, da empresa Vast, será a primeira estação comercial do mundo, um empreendimento inédito que transforma a órbita em espaço para alugar. De modo semelhante a um hotel, laboratórios vão poder contratar sua “estadia” para desenvolver pesquisas. Internamente, ela se distancia das ideias convencionais: colchões infláveis, superfícies brancas e lisas e áreas destinadas às experiências de vários usuários. O cientista foi escolhido para uma expedição espacial em 2023, a bordo da Estação Espacial Internacional (ISS), que ainda continua em orbita, porém sua viagem foi interrompida, conforme ele relatou, devido a restrições no orçamento da agência espacial americana, Nasa.

Como será o funcionamento da estação?

A Haven-1 vai ser lançada no foguete Falcon 9, da SpaceX. Aproximadamente um mês após alcançar a órbita, deverá receber os primeiros astronautas, que chegarão na cápsula Dragon, também da SpaceX, unida ao módulo. Ao contrário da ISS, que foi criada e é gerida por um grupo de nações, a nova estação representa um projeto privado e será montada em fases. A Haven-1 é o primeiro de uma sequência de módulos planejados pela Vast.



Tour pela Haven – 1 (Vídeo: Reprodução / youtube / @vastspacestation)


Desde o começo, a ideia é que a estação atue como um espaço de pesquisa que possa ser acessado por empresas. Operadoras de cargas científicas enviam seus próprios experimentos ou de clientes, que ocupam espaços próximos uns dos outros. Após as análises, esses materiais são enviados de volta à Terra. Assim, o módulo inicial já contará com atividades científicas e marcará o início da transição da ISS para espaçons geridos pela iniciativa privada.

Um espaço projetado para os que habitam nele

A Haven-1 também altera a estética das estações espaciais em operação atualmente. A ISS possui estruturas metálicas tubulares, com fiações e equipamentos expostos, resultado de um design focado nas necessidades funcionais. Por outro lado, o módulo da Vast apresenta superfícies planas, linhas discretas e uma disposição projetada para o conforto de quem passa semanas em um ambiente de microgravidade.

A entrada é feita pela porta de acoplamento da cápsula Dragon, localizada ao lado da área de comunicação com a equipe na Terra. As camas dos membros da equipe estão localizadas nas bordas, ao lado dos compartimentos de armazenagem. Elas podem ser infladas para manter o corpo seguro durante o sono, pois, na ausência de gravidade, tudo tende a se mover. Para Muotri, isso representa uma forma de dormir no espaço que é muito superior à atual na ISS.

Estruturas fixadas nas paredes funcionam como suporte para os astronautas se moverem flutuando dentro do módulo. Uma área que ainda está sendo planejada irá conter equipamentos de análise para que os cientistas possam trabalhar a bordo. Os locais de trabalho são compactos, equipados com pontos de apoio para que o pesquisador possa se fixar e, como brinca Muotri, “até olhar para cima quando sentir falta da Terra”.

Brasileiro responsável na missão

Muotri lidera o programa de células-tronco da UCSD e está envolvido em projetos de pesquisa com a Nasa. A missão que poderá levá-lo a Haven-1 como astronauta-cientista ainda está em planejamento e não possui uma data definida. De acordo com ele, a data de embarque depende da finalização dos equipamentos de análise que serão utilizados a bordo.

Muotri se tornará o primeiro cientista a ir para o espaço, enquanto Marcos Pontes, o primeiro brasileiro a ir ao espaço, possui formação em engenharia e é militar. O projeto Haven-1 é algo inédito. Até o momento, todas as estações espaciais tripuladas foram criadas e geridas por governos. Nenhuma companhia privada já lançou ou administrou uma estação espacial própria que alberga uma equipe.

O cientista diz que está acompanhando de perto o progresso da estação, incluindo os testes pré-voo e declara que não teme participar de uma iniciativa sem precedentes. Se o cronograma for seguido, em 2027 a órbita baixa contará com seu primeiro endereço privado. Antes de receber novos módulos, a Haven-1 vai avaliar se uma estação menor, que seja mais confortável e compartilhada entre empresas, pode sustentar a pesquisa que atualmente está dependente da ISS.

Minicérebros para investigar o Alzheimer

O laboratório de Muotri irá acolher minicérebros, que é a denominação comum para os organoides neurais. Essas são estruturas cultivadas em ambiente laboratorial que imitam o desenvolvimento e algumas funções do cérebro de um infante. Esses organoides são gerados a partir de células-tronco pluripotentes induzidas, conhecidas como iPS: células adultas que foram reprogramadas para retornar a um estágio semelhante ao de embriões, o que lhes permite formar neurônios. Com essas células, os pesquisadores analisam doenças neurológicas, o processo de envelhecimento do cérebro e os impactos de fármacos.

A intenção é fazer com que os organoides cresçam, se desenvolvam e envelheçam durante a missão espacial, para posteriormente serem trazidos de volta para investigação. De acordo com o pesquisador, o ambiente no espaço pode acelerar o envelhecimento desses minicérebros, e esse fenômeno será detalhado em uma pesquisa que será divulgada nas próximas semanas.

Os organoides cerebrais já foram enviados ao espaço uma vez, mas sem a presença de um cientista. Agora, a intenção é realizar os experimentos dentro da estação espacial. A primeira fase dos experimentos deve focar em doenças neurodegenerativas, especialmente o Alzheimer. Também serão levadas para o espaço moléculas oriundas da biodiversidade amazônica, escolhidas por comunidades nativas. A suposição é de que algumas dessas moléculas possam auxiliar no tratamento dessas condições ou proteger os neurônios de danos.

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