Felca quebra silêncio sobre saúde mental e revela diagnóstico de fobia social

Youtuber divulga laudo médico em vídeo de mais de uma hora e apresenta plano de três meses para ampliar participação em atividades sociais, além de palestras gratuitas em escolas

20 out, 2026
Felca I Reprodução/Instagram/@felca0
Felca I Reprodução/Instagram/@felca0

Felca retornou às redes sociais na madrugada desta terça-feira (20), após sete meses longe do ambiente digital. Em um vídeo com duração de uma hora e três minutos publicado no YouTube, o influenciador de 27 anos apresentou seu laudo médico e revelou o diagnóstico de fobia social. Na gravação, também relembrou oito anos de bullying vivenciados durante a adolescência, período marcado por agressões físicas e humilhações que deixaram cicatrizes em sua vida adulta.

“Eu tenho fobia social. Esse é o meu laudo. Esse é o vídeo mais sincero e mais difícil que eu já fiz. Eu não sei se eu vou postar ainda, mas, se você está vendo, eu postei”.

O afastamento anterior foi motivado pela repercussão de um conteúdo sobre adultização de menores. Naquele momento, Felca se isolou completamente, permanecendo aproximadamente cinco meses sem sair de sua residência. O último compromisso que havia cumprido antes de gravar o vídeo de retorno foi uma premiação.

Violência sistemática desde os 12 anos

O influenciador começou a enfrentar bullying aos 12 anos de idade. Inicialmente em forma de provocações verbais, as agressões evoluíram para atos de violência física. Um episódio particularmente traumático ocorreu dentro do banheiro da escola, quando cinco meninos maiores o agrediram.

“Eu lembro de um dia, por mais que meus agressores provavelmente não lembrem, que eu estava no banheiro e cinco meninos maiores e mais fortes do que eu me bateram. Não me bateram só até eu cansar, mas até eles cansarem”.

Após essa agressão, trancou-se em uma cabine do banheiro e chorou. Em outro momento, uma colega recusou-se a ajudá-lo, chamando-o de forma ofensiva. Felca também descreveu uma prática humilhante em que seus colegas colavam adesivos nas costas dos estudantes. Ele passou parte do período letivo removendo-os, descobrindo posteriormente que havia uma lista elaborada pela turma com nomes das pessoas mais ridicularizadas. Seu nome ocupava a primeira posição.

“Eu sentia muita vergonha e muito medo por não estar conseguindo sair dos braços deles. Eu me debatia, mas eu não conseguia sair. Eles eram muito mais fortes do que eu”.

Entre 14 e 18 anos, Felca atravessou uma fase de profundo sofrimento. Vivenciou pensamentos relacionados ao desejo de interromper a própria dor. Demorou para reconhecer-se como vítima de bullying e minimizou as agressões ao longo dos anos. Quando procurava ajuda de adultos, frequentemente ouvia que se tratava apenas de brincadeira ou exagero, intensificando seu sentimento de isolamento.

“Dos 14 aos 18, eu sobrevivi. Eu me mantive vivo, e isso foi tudo.”

Ao completar o ensino médio, recusou ingressar em uma universidade. Explicou aos pais que não teria condições emocionais de frequentar uma sala de aula novamente.

“Quando eu terminei o colégio, eu tinha apanhado tanto, por tanto tempo, foram oito anos, que eu disse para os meus pais: ‘Eu vou fazer vídeo, o que seja, mas eu não vou conseguir enfrentar uma faculdade. Eu não consigo enfrentar mais uma sala de aula'”.

Oprou por dedicar-se à produção de conteúdo, sentindo que experiências cruciais da adolescência lhe haviam sido subtraídas.


Felca (Vídeo: reprodução/YouTube/@felcaseita)


Fobia social e o recurso ao álcool

Mesmo conseguindo participar de gravações e eventos públicos, Felca experimenta sintomas físicos intensos quando enfrenta situações sociais. Seus batimentos cardíacos chegam a 138, 140 ou até 150 bpm, mesmo quando se encontra em repouso. O nervosismo emerge em atividades cotidianas como visitar shoppings ou passar pela portaria de seu prédio.

Para lidar com os compromissos profissionais, recorria ao álcool. Bebia em sua casa antes de eventos e levava consigo bebidas para manter o consumo durante os mesmos. Conforme seus compromissos se multiplicaram, com programas de televisão, eventos diversos, trabalhos em parceria, a dependência também cresceu.

“Eu bebia só para enfrentar pessoas. Quando eu passei a ir a programa toda semana, evento, web, parceria, eu me vi alcoólatra.”

Um incidente grave ocorreu durante a gravação de um conteúdo para Virginia Fonseca em um shopping. O objetivo era fazer entrevistas com pessoas, mas Felca não conseguiu encontrar coragem. Consumiu aproximadamente meia garrafa de vodca antes de iniciar e permaneceu cerca de duas horas dentro de um automóvel tentando reunir ânimo. Continuou bebendo ao longo do dia inteiro.

Ao retornar para casa após passar o dia em jejum e consumindo álcool, perdeu a consciência. Tentou vomitar no banheiro e desmaiou novamente, caindo no piso. Acordou no dia seguinte com dores intensas nas costas. Seus pais o levaram ao hospital, onde foi diagnosticado com duas costelas fraturadas. O médico informou que a queda poderia ter gerado lesão ainda mais séria, e Felca foi medicado com morfina durante o tratamento.

Noitibundo, refletiu sobre o caminho que o havia levado àquele ponto crítico. Percebia que, para outras pessoas, uma gravação seria apenas uma atividade corriqueira e retorno ao descanso, enquanto ele carregava a responsabilidade e o isolamento sozinho. Prometeu a si mesmo abandonar a bebida, mas voltou a consumir álcool quando novos compromissos profissionais surgiram. Após três dias sem ingerir bebidas alcoólicas, sentiu tremores no corpo e reconheceu a profundidade da relação que havia desenvolvido com a substância.

“Eu percebi que a fobia social ainda está toda aqui. Eu não enfrentei de verdade, eu enfrentei de mentirinha, porque é isso que o álcool faz, faz você viver uma vida de mentirinha.”

Felca participou do programa Roda Viva e passou dois dias sem dormir antes da gravação em razão do nervosismo. Apesar de ter construído carreira diante das câmeras, a visibilidade pública não significou o desaparecimento do transtorno. Costumava sentir alívio após participar das atividades, porém o medo persistia permanentemente.

Projeto de retomada e iniciativas futuras

O influenciador anunciou um projeto pessoal com duração de três meses, voltado a ampliar sua participação em atividades sociais. A proposta envolve aceitar mais convites e frequentar novos ambientes, dividindo essas vivências com seus seguidores. O objetivo central é interromper o padrão de isolamento como resposta ao medo.

Pretende compartilhar momentos do seu dia a dia com maior regularidade nas plataformas, inclusive aqueles em que se sinta inseguro, para construir conexões genuínas com outras pessoas. Comunicou também o retorno do Sofá do Felca, projeto em que convida pessoas para conversas informais em seu espaço pessoal, nascido da vontade de criar vínculos apesar da fobia social.

Felca decidiu transformar parte de sua trajetória em uma iniciativa direcionada a crianças. Realizará palestras sem custo em instituições de ensino abordando o tema bullying e seus impactos sobre a violência escolar, objetivando acolher crianças que vivenciam essa realidade no presente. Não cobrará honorários pelas apresentações.

Lançou também o desafio #simfel, com o propósito de incentivar as pessoas a dizerem mais sim do que não, enfrentando medos nas interações humanas. Agradeceu sua versão adolescente por ter permanecido viva, recordando as viagens, amizades e realizações profissionais que não teria conhecido caso tivesse encerrado a própria vida.

Alguns dos antigos agressores solicitaram desculpas anos depois, e Felca optou por perdoá-los.

Mais notícias