Após 1º turno, focos de queimadas disparam no Amazonas e atingem áreas rurais privadas

Dados do Inpe revelam que mais da metade dos incêndios atingem áreas desmatadas recentemente; A aceleração começou em outubro, período de eleições municipais

21 out, 2026
Focos de fogo aumentam no Amazonas após 1º turno; 80% estão em áreas privadas I Reprodução/Instagram
Focos de fogo aumentam no Amazonas após 1º turno; 80% estão em áreas privadas I Reprodução/Instagram

Uma análise do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) solicitada ao g1 aponta que oito de cada dez focos de fogo identificados em outubro no Amazonas localizam-se dentro de imóveis rurais privados registrados no Cadastro Ambiental Rural (CAR). Os dados reforçam o padrão descrito por órgãos como o Ibama, a Polícia Federal e o Ministério do Meio Ambiente: as chamas resultam de ação humana e caracterizam-se como criminosas.

A crise do fogo sufoca cidades amazônicas, em especial Manaus. Apenas no entorno da capital, o acumulado do ano apresenta focos 109% acima da média histórica, conforme o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam). Desde 9 de setembro, o governo estadual decretou proibição do uso do fogo. Mesmo assim, os incêndios prosseguem.

O contexto climático amplifica o problema. O El Niño fortaleceu a seca regional, ressecando a vegetação e permitindo que focos iniciais se transformem em incêndios de extensão considerável. De julho até a data da análise, Manaus acumulou 104 milímetros de chuva, cerca de um terço dos 316 milímetros esperados. Agosto terminou sem registro de precipitação, quando a média mensal alcança 56 mm.

Para que produtores utilizem fogo em manejo do solo, limpeza de pastagem, por exemplo, é necessária autorização individual do governo estadual. Essa autorização não foi concedida. A proibição estadual do fogo, estabelecida quando as chamas começaram a asfixiar a região, permanece em vigor.

Padrão de distribuição mostra fogo em terras já abertas

A análise do Inpe revela onde os incêndios de outubro se concentram. 52,8% dos focos atingiram áreas desmatadas nos últimos três anos. 30,6% concentram-se em terras abertas há mais tempo. Apenas 15,9% alcançaram vegetação nativa.

O quadro explica-se pelo processo contínuo de exploração de terras. Conforme indicam os dados, quem desmata em um período posterior queima a área para eliminação de restos vegetais e renovação de pastagem. Embora o desmatamento tenha recuado, o Inpe registrou 3.335 km² de agosto de 2025 a julho de 2026, o menor índice desde 1988, a terra aberta em anos anteriores permanece sendo queimada.

“A pessoa desmata no passado e para manter a vegetação morta ali, para limpar a área já devastada que ela usa como pasto, ela usa o fogo. É o processo contínuo de quem desmata”, aponta análise técnica dos dados.

Mesmo com a redução no desmatamento recente, a vegetação nativa sofre. Com a seca extrema provocada pelo El Niño, o fogo torna-se incontrolável e avança quilômetros além do foco inicial, atingindo áreas que não eram o alvo direto. A floresta, já debilitada pela estiagem, fica vulnerável a essas invasões.


Amazonas registra aumento de queimadas após 1º turno (Foto: reprodução/ MICHAEL DANTAS/ Getty Images Embed)


Operações de fiscalização e o debate sobre impunidade

O Ibama intensificou operações de combate aos incêndios. Jair Schmitt, presidente do órgão, informou que equipes autuaram pessoas e aplicaram multas significativas. “Nós já autuamos aqui nessa região próxima a Manaus 19 pessoas nessa última semana. R$ 2 milhões de multa e mais de 250 hectares embargados. São pessoas que iniciam fogo na sua propriedade sem autorização e, em alguns casos, esse fogo acaba avançando em territórios protegidos, inclusive em territórios indígenas”, explicou.

Embora o Ibama intensifique operações, a responsabilidade pela fiscalização do uso do fogo nas propriedades recai sobre o governo estadual. O órgão flagrou ainda garrafas contendo combustível sendo deixadas ao longo de estradas, evidência de ação deliberada.

A Polícia Federal e a Abin (Agência Brasileira de Inteligência) investigam as ações criminosas. A Polícia Civil do Amazonas formalizou mais de 120 procedimentos criminais para apuração do uso ilegal do fogo. Segundo Schmitt, persiste entre infratores um sentimento de impunidade: “Isso sim é uma hipótese que deve ser considerada, de se valer do momento político para ampliar, tensionar mais ainda o caos e o cometimento desses incêndios. O que a gente tem de relato das nossas equipes em campo, brigadistas, é desse sentimento de impunidade. Independentemente do cenário político, de determinado candidato vitorioso, as pessoas têm uma expectativa de impunidade e de não sofrerem nenhum tipo de consequência”.

Aceleração de outubro rompe padrão sazonal

Os incêndios amazônicos seguem um calendário típico. Começam em agosto, quando produtores iniciam manejo do solo, e arrefecem a partir de fim de setembro. Em 2026, esse padrão manteve-se até setembro, com o pico natural em torno do dia 20. A partir de 4 de outubro, dia do primeiro turno eleitoral, a curva se acelerou de forma atípica.

Em setembro, foram registrados 6.861 focos. Outubro, até o dia 14, já acumulava 6.183 incêndios. No período de janeiro a 14 de outubro, os 19 municípios monitorados somaram 15.674 focos, cifra que representa acréscimo de 109% em relação à média histórica. Apenas 2023, marcado por seca histórica na região, apresentou volume maior.

Newton Monteiro, pesquisador do Inpe, destacou a anormalidade: “Quando analisamos os dados do fogo, não vemos um crescimento em outubro nesses patamares. Escalou muito rápido, em poucos dias. Só tivemos um outubro ruim assim em 2023, durante uma seca histórica no Amazonas, cenário que não se repete agora”.

A causa da aceleração permanece sob investigação. A hipótese de que criminosos se valham do período político para intensificar ações ilícitas circula entre autoridades, mas carece de conclusão investigativa.

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