Dívidas, salário mínimo e SUS marcam confronto entre Lula e Flávio Bolsonaro na Globo
Candidatos ao segundo turno presidencial confrontaram-se na TV Globo sobre infraestrutura, salário mínimo, dívida e segurança, com ataques pessoais dois dias antes da eleição
Lula e Flávio Bolsonaro debateram na TV Globo na noite da última sexta-feira (23), dois dias antes do segundo turno das eleições presidenciais de 2026. O confronto foi mediado por César Tralli e transmitido ao vivo pelos Estúdios Globo no Rio, com cobertura simultânea da GloboNews e G1. A votação ocorre no domingo (25).
Infraestrutura e obras paralisadas
Flávio abriu o debate questionando o governo sobre o andamento de obras no país. De acordo com o senador, um relatório recente do TCU identificou gargalos significativos.
“Neste ano, o TCU, Tribunal de Contas da União, acaba de soltar um relatório que diz que existem mais de 11.500 obras paralisadas do atual governo. Ou seja, o país voltou a ser um grande cemitério de obras”.
Lula respondeu citando a herança que recebeu. O presidente mencionou que sua gestão retomou projetos estratégicos de transporte.
“Nós estamos fazendo uma rodovia muito importante, que ninguém teve coragem de fazer, que liga Porto Velho a Manaus, que é a BR-319. Nós estamos fazendo a Transnordestina, a Fiol e a Fico. Não é que vão fazer: estamos fazendo”.
Flávio prometeu concluir a Transnordestina e construir o eixo Sul da ferrovia, ligando Centro-Oeste até o oeste de Paraná e Santa Catarina. Lula rebateu afirmando que nenhum governo anterior investiu tanto em infraestrutura quanto sua administração.
Salário mínimo e política econômica
O debate sobre a política tributária marcou o segundo tema. Flávio criticou a carga de impostos, chamando-a de recorde histórico. Durante a troca, fez uma observação sobre o salário mínimo que desencadeou resposta direta de Lula.
Lula destacou os reajustes acima da inflação implementados durante governos petistas. Flávio também afirmou que reajustaria o salário mínimo acima do índice inflacionário, diferenciando-se apenas na forma de execução.
No tema de exportações, Lula citou números de sua gestão. O presidente apontou a abertura de novos mercados e o superávit comercial como evidência de sucesso econômico.
“Abrimos 700 novos mercados nesse país e aumentamos em 57 países uma média de 10 e meio, e é por isso que o nosso superávit comercial foi de quase 85 bilhões de reais. É só procurar, para vocês perceberem a bobagem que esse jovem fala quando vai debater.”
Flávio mencionou as dificuldades de agricultores na obtenção de crédito, citando juros reais próximos de 20%. Prometeu garantir recursos para seguro rural e Plano Safra, impedindo contingenciamentos orçamentários. Lula criticou a relação de Flávio com Donald Trump e a imposição de tarifas sobre produtos brasileiros.
Ver esse post no Instagram
Lula e Flávio Bolsonaro na Globo (Vídeo: reprodução/Instagram/@portalg1)
Saneamento básico e regiões Norte e Nordeste
Flávio abordou a falta de esgoto tratado nas residências, mencionando que aproximadamente 90 milhões de brasileiros sofrem com a ausência desse serviço. O senador citou o Marco Legal do Saneamento Básico firmado no governo Jair Bolsonaro e afirmou que a bancada do PT votou contra.
Lula respondeu que Flávio desconhecia a realidade nacional. O presidente mencionou a crise de oxigênio no Amazonas durante a pandemia de Covid-19. Flávio questionou se quem governava o Brasil era Lula ou o Google, em referência aos pedidos do presidente para que eleitores pesquisassem temas na ferramenta de busca. Prometeu investimentos do Marco Legal para a região Norte.
No Nordeste, Lula destacou programas como a Transnordestina, a transposição do Rio São Francisco, além de universidades e institutos federais. Flávio afirmou que será o “carioca mais nordestino já visto na face da Terra” e acusou o governo de responsabilidade na entrada do Comando Vermelho na região, citando também governos estaduais de esquerda.
Lula mencionou avanços: indústria automobilística, 14 hospitais, unidade do ITA no Ceará, institutos federais e universidades federais na região.
Enchentes no Sul e investimentos
Flávio acusou Lula de abandonar gaúchos após as enchentes de 2024, afirmando que o governo entregou menos de 30% do prometido. O senador prometeu investir em bombas e comportas para prevenir alagamentos em Porto Alegre e empregar a Marinha no combate ao tráfico no Porto de Paranaguá. Comprometeu-se também com investimentos nas rodovias federais de Santa Catarina.
Dívida pública e refinanciamento
No segundo bloco, Lula questionou por que Flávio votou contra o aumento da licença-maternidade de 180 dias quando deputado estadual. Flávio respondeu que o voto ocorreu há muito tempo e que, à época, acreditava que poderia dificultar a contratação de mulheres. Admitiu estar errado e reconheceu a importância da mãe estar próxima do filho.
Sobre a dívida pública, Flávio perguntou por que os brasileiros mais pobres são os mais prejudicados pelos gastos governamentais. Lula questionou seu adversário sobre a independência do Banco Central. Flávio defendeu a autonomia da instituição, afirmando que ela serve para “evitar que presidentes sejam gastadores”.
Flávio apresentou uma proposta de refinanciamento das dívidas. Segundo o senador, compraria as dívidas dos bancos e as refinanciaria pela Caixa Econômica Federal.
“Eu vou comprar a sua dívida dos bancos e vou refinanciar pelo Banco da Prosperidade, que é a Caixa Econômica Federal. Quando eu compro essa dívida, ela já fica menor”.
Flávio prometeu ainda suspender temporariamente os pagamentos das dívidas refinanciadas: seis meses para pessoas físicas e um ano para pessoas jurídicas.
Ataques pessoais e questões delicadas
O debate escalou quando Lula rebateu um comentário de Flávio sobre o apelido “nove dedos”. O presidente respondeu com tom firme, mencionando que perdeu o dedo aos 17 anos trabalhando.
“Se tem alguém que perdeu o dedo com 17 anos, fui eu, trabalhando à noite, quando eu não podia trabalhar. Não vou permitir que um miliciano me chame de nove dedos”.
Lula citou então o caso de Ana Clara, menina de 5 anos assassinada com tiro de fuzil, cujo réu é policial que teve Flávio como advogado. Flávio teve direito de resposta por ter sido chamado de miliciano, mas falou sobre causa animal. Afirmou que nunca foi investigado por envolvimento com milícia.
