Anvisa alerta que retatrutida não recebeu aprovação em país algum e produtos à venda são clandestinos
Medicamento experimental da Eli Lilly mostrou redução de peso até 28,3% em testes, mas ainda não completou fases clínicas obrigatórias
A Anvisa confirmou nesta sexta-feira (24) que a retatrutida, substância experimental contra obesidade e diabetes tipo 2, não obteve aprovação para comercialização em nenhuma nação. Embora pesquisas demonstrem redução de até 28,3% do peso corporal, a molécula permanece em desenvolvimento clínico. A fabricante Eli Lilly espera o término dos testes antes de submeter pedido de registro a órgãos reguladores. Enquanto isso, versões clandestinas do medicamento já são vendidas em plataformas digitais, redes sociais e apreendidas em pontos de entrada do país.
Segundo a agência brasileira, “qualquer produto vendido atualmente com o nome retatrutida é irregular”. Sem aprovação sanitária, não há como garantir que o conteúdo corresponda à molécula anunciada, à dosagem indicada ou às condições adequadas de fabricação e armazenamento.
Testes avançados, mas incompletos
A retatrutida ultrapassou as fases iniciais de investigação. Centenas de voluntários já participaram dos testes, classificados como estágio avançado de desenvolvimento clínico. Ainda assim, o conjunto integral de estudos necessários para comprovar eficácia, segurança e qualidade permanece em andamento. Somente após a conclusão dessa etapa é que a Eli Lilly pode formalizar solicitação de registro junto às autoridades sanitárias, como a Anvisa ou órgãos internacionais.
Avisa alerta sobre a venda do produto que ainda não foi aprovado (Vídeo: reprodução/YouTube/globonews)
Em junho, uma pesquisa publicada na revista The Lancet acompanhou 930 adultos portadores de diabetes tipo 2. Entre aqueles que receberam a maior dose testada, a redução média de peso atingiu 28,3%. Mais de 65% dos participantes deixaram de atender aos critérios de obesidade conforme o índice de massa corporal. O estudo também identificou melhorias no controle glicêmico, apneia obstrutiva do sono e osteoartrite de joelho.
Como funciona a tripla ação
“A retatrutida é descrita como uma substância de tripla ação”, conforme informações da fonte. A molécula atua simultaneamente sobre três vias hormonais: GLP-1, GIP e receptor de glucagon. Ela reproduz o comportamento dos hormônios GLP-1 e GIP, liberados naturalmente pelo intestino após a ingestão de alimentos.
Medicamentos baseados em GLP-1, como a semaglutida (Ozempic e Wegovy), atuam isoladamente nesse mecanismo. A tirzepatida (Mounjaro) amplia o espectro ao atingir GLP-1 e GIP simultaneamente. A retatrutida vai além: ao incorporar um terceiro alvo, o receptor de glucagon, potencialmente aumenta o gasto energético do corpo, inclusive durante o repouso. A aprovação de outras moléculas não se estende à retatrutida: cada princípio ativo exige seus próprios estudos e autorização específica.
Riscos dos medicamentos irregulares
Produtos comercializados sem registro sanitário não passam por verificação das instalações de manufatura, matérias-primas, processos de produção ou condições de transporte e estocagem. De acordo com a Anvisa, “sem esses controles, o conteúdo da embalagem pode apresentar uma concentração diferente da anunciada, conter impurezas, microrganismos ou outras substâncias”.
Não existe mecanismo confiável para rastreabilidade de lotes ou investigação de eventos adversos graves. A concentração do princípio ativo pode divergir substancialmente do informado. O produto pode conter contaminantes, bactérias ou fungos. Há risco de não conter sequer a molécula anunciada no rótulo. Sem garantia de procedência junto à fabricante responsável pelos ensaios clínicos, o consumidor desconhece as dosagens validadas em testes, contraindicações, interações medicamentosas ou condições de conservação apropriadas. Uma embalagem sofisticada não atesta origem, composição ou segurança.
Mercado paralelo em expansão
Apesar da inexistência de aprovação global, produtos anunciados como retatrutida já estão disponíveis no mercado clandestino. No Paraguai, uma empresa promoveu canetas supostamente contendo a substância em março, com presença de influenciadores brasileiros.
Nos primeiros três meses de 2026, canetas emagrecedoras irregulares apreendidas na fronteira brasileira totalizaram valor superior a R$ 11 milhões, segundo a Anvisa. Esse montante supera o volume inteiro registrado durante todo o ano de 2025. A agência recomenda que a população evite comprar e utilizar medicamentos desprovidos de registro sanitário. Além dos riscos à saúde, a comercialização de produtos sem autorização configura delito.
