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MSCHF: o indecifrável coletivo por trás das ‘botas do Astro Boy’

27 Mar 2023 - 22h03 | Atulizado em 27 Mar 2023 - 22h03
MSCHF: o indecifrável coletivo por trás das ‘botas do Astro Boy’

“Não nos sigam” é a única frase na biografia do perfil do Instagram do MSCHF. O coletivo artístico de Nova York não se autodenomina uma empresa, não tem logo e desenvolve projetos unidos apenas pelo inusitado. Criado em 2019 por Gabriel Whaley, Daniel Greenberg, Gabriel Whaley, Stephen Tetreault, Kevin Wiesner e Lukas Bentela, o MSCHF consolidou sua fama após a viralização das Big Red Boots, botas vermelhas gigantes que parecem ser de borracha.

Na descrição da bota no site oficial da MSCHF, o coletivo defende que “a 'cartoonização' é uma abstração que nos liberta das rédeas da realidade” e que “a janela da estática continua se abrindo em direção ao surreal”. Apesar de não haver referência direta, o modelo é igual ao usado pelo personagem Astro Boy do anime japonês de mesmo nome.

As botas foram anunciadas em 6 de fevereiro deste ano e colocadas à venda dez dias depois, ao valor de 350 dólares. Esgotadas no site, elas já estavam por todo lugar nas redes sociais mesmo antes do lançamento oficial, como no TikTok em que o influenciador Nicolas Heller cobra 20 dólares para quem quisesse uma foto com o modelo.


@newyorknico Charging $20 for a fit pic in the big red boots. #nyc #viral #fyp #bigredboots #mschf @marioboscocomedy @morriscorncorn @ao.gamman @sabinocurcio ♬ Boy's a liar Pt. 2 - PinkPantheress & Ice Spice

Gabriel Whaley, em entrevista à Business Insider, falou sobre a indefinição da marca e a aparente falta de continuidade dos projetos, chamados de “drops”: “uma marca de quê? Não sei. Ser uma empresa mata a magia. Estamos tentando fazer coisas que o mundo nem consegue definir.”

No mundo exclusivamente virtual, o coletivo já criou um canal no YouTube apenas com vídeos de um homem comendo todo tipo de coisa, bem como uma forma de disfarçar o player do Netflix com o aspecto de uma call. Também já projetaram um bong para fumo de maconha no formato de uma galinha de borracha e instalaram um caixa eletrônico na feira Art Basel, em Miami, que classificava os visitantes conforme a conta bancária – do mais ao menos rico.



Um projeto polêmico e colocado à venda foram os Satan Shoes. A releitura não autorizada do modelo Nike Air Max 97 levava gotas de sangue dos membros do MSCHF e símbolos satânicos e foi produzida em 666 unidades que custavam 666 dólares. Além das polêmicas com o público e declarações de repúdio de políticos, a empresa foi levada à justiça pela Nike. Um modelo antagônico já estava prestes a ser lançado: o Air Max 97 INRI Jesus Shoes, com um crucifixo e gotas da água do Rio Jordão benta por um padre.

Outra empresa entrou com ação judicial contra o coletivo por violação de propriedade intelectual. O modelo Old Skool, da Vans, foi “derretido” na releitura Wavy Baby da MSCHF. Apesar disso, o resultado do tribunal a favor da marca de skates foi posterior ao esgotamento das vendas do modelo.

Ainda no ramo dos calçados, as botas ortopédicas foram inspiração para o modelo Help I Brooke My Foot. Ele imita esteticamente as botas usadas para imobilizar tornozelo e pés, sem o desconforto da privação de movimento.

Apesar do viés transgressor, a marca é aposta de gigantes consagrados da moda. Um deles é Alexandre Arnault, vice-presidente executivo de produto e comunicação da Tiffany & Co e filho de Bernard Arnault, dono da LVMH, maior conglomerado de moda de luxo do mundo.

Em entrevista à 032c, ele exaltou a criatividade da MSCHF. “Acho que uma coisa que podemos aprender é não nos levar muito a sério, porque as marcas de luxo costumam ser muito sérias. Outra coisa importante é que não devemos ter medo de explorar muitas categorias. Acho que a MSCHF provou que quando você constrói uma marca ou coletivo como eles, muitas áreas diferentes podem ser tocadas.”

O apoio do empresário foi além do discurso. No ano passado, a joalheria e o coletivo se uniram no lançamento de um “troféu de participação” de prata, que se esgotou em poucos segundos. Não se trata da única empresa a acreditar no coletivo: registros da Securities and Exchange Commission indicam que, nos últimos quatro anos, a MSCHF recebeu cerca de 11,5 milhões de dólares em investimentos externos.

 

Foto Destaque: A brasileira GKay com a Reed Big Boot. Reprodução: Instagram/gessicakayane

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