Luísa Sonza reflete sobre exposição e diz que passou a preservar mais sua vida pessoal: ‘Não ultrapasso mais os limites da pessoa Luísa’
Em conversa com a Glamour, a artista revela como aprendeu a ser seu próprio suporte emocional e a blindar sua vida particular diante da visibilidade que a perseguiu
Em pouco menos de uma década, Luísa Sonza trilhou um caminho extraordinário na música. Começou cantando em bandas de casamento no interior do Rio Grande do Sul. Hoje ocupa espaço em festivais da magnitude de Coachella, Tomorrowland, Rock in Rio e The Town. O percurso acelerado, porém, veio acompanhado de uma exposição pública igualmente avassaladora.
Durante anos, múltiplas vozes pareceram contar sua história ao mesmo tempo. Sucessos nas plataformas de streaming, álbuns que a confirmaram como uma das maiores pop do Brasil e manchetes que frequentemente sobrepujavam a música criavam a sensação de que alguém estava sempre inventando uma nova versão dela lá fora. Agora, aos 28, ela governa conscientemente sua própria narrativa e conversa com a revista Glamour sobre essa transformação.
Abandonando as Versões Alheias
Por muito tempo, a história de Luísa pareceu pertencer a outras pessoas. Aquela menina de 17 anos que começou tudo não possuía maturidade emocional para lidar com tamanha exposição. Houve situações em que outras pessoas a colocaram em evidência de formas violentas, algo que hoje ela cuida com atenção especial.
Ela reconhece que ninguém consegue processar tanta visibilidade em idade tão precoce. Mesmo assim, avalia que enfrentou bem as exigências daquele período. Manter uma mente saudável em meio a tudo isso é algo que ela celebra.
Por trás daquela artista confiante e expansiva nos palcos existe uma mulher fundamentalmente tímida. Ela mede as palavras com cuidado, preserva um lado infantil e discreto que poucas pessoas conhecem. Fala animada sobre maratonar videogame, revisitar Star Wars e reunir pessoas próximas para momentos de leveza.
Essa dualidade a define profundamente. Quem a vê no palco e quem a vê em casa encontra pessoas quase distintas. Compreender essa multiplicidade foi decisivo para que Luísa começasse a se conhecer de fato, em vez de absorver as interpretações que terceiros faziam dela.
O Encontro Consigo Mesma
Para parar de tentar convencer os outros, precisou primeiro se convencer. Este foi o ponto crítico. Luísa precisava acessar suas próprias memórias, não aquelas que os outros construíram sobre ela. Quando começou a se conhecer e reconhecer dentro de si mesma, deixou de se conectar com narrativas falsas.
“Cada pessoa tem um momento em que passa a se sentir confortável com quem é, com o que conquistou e com aquilo que colocou no mundo. Eu sinto que cheguei nesse lugar”, disse à Glamour.
Seu círculo agora é muito mais restrito. Ela governa quem a cerca e não ultrapassa mais os limites do que é prudente para a pessoa Luísa. Essa virada reflete uma decisão deliberada de privilegiar a longevidade artística sobre ganhos imediatos.
“Quero chegar aos 50 anos de carreira e, para isso, as estratégias exigem longevidade e profundidade artística”, afirmou.
Estrutura de Cuidado
A cantora fala menos sobre o próximo hit e mais sobre permanência. Passou por episódios para os quais seu corpo e mente não estavam preparados. Enfrentou depressão e ansiedade crônica, condições que demandaram a construção de uma arquitetura de cuidados muito específica.
Ela frequenta seu psiquiatra de forma praticamente diária. Considera esse acompanhamento o maior investimento de sua vida. Precisa fazer exercício físico porque a ansiedade a consome quando fica parada. Não consegue passar horas no celular. Não consegue ficar o dia inteiro sentada. Não pode beber da mesma forma que antes. Extremos disparam gatilhos e sensações nocivas.
Construiu um círculo de pessoas que compreendem um princípio central: para existir a artista Luísa Sonza, antes a mulher Luísa precisa estar viva e inteira. Sem isso, nenhuma turnê, nenhum palco, nenhuma conquista justifica o preço.
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Luísa Sonza (Vídeo: rewprodução/Instagram/@glamourbrasil)
Amizade Consigo Mesma
Luísa vem de uma cidade de seis mil habitantes, conservadora demais. Sempre foi muito fechada, demorando para se abrir. Quando abre, porém, se entrega por inteiro. Foi criada acreditando que todo mundo era bom, uma inocência que o tempo e a visibilidade se encarregaram de corrigir.
Hoje sua prioridade é se salvar. Deixou de colocar sobre amigos, primos e pessoas queridas o peso de sua existência. Quando precisa de apoio, os procura para viver instantes sem gravidade. Quando o momento fica realmente sombrio, quem precisa tomar as rédeas é ela própria.
Tem dez bichos de estimação. Quando seus pensamentos ficam muito complicados, às vezes até perturbadores, pega um petisco para os gatos. Eles correm de qualquer canto da casa e se reúnem em sua cama. Sua casa funciona como refúgio, um lugar onde a Luísa pessoa consegue existir sem performance.
“A amizade comigo mesma foi a última que consegui construir, e talvez a mais difícil de todas”, revelou.
Por muito tempo foi sua maior crítica. Quando finalmente fez as pazes consigo, com tudo que rejeitou desde a infância, com a exposição e com o ressentimento que carregava, viu como é simples começar a se odiar quando ninguém acredita em você.
“Minha maior rede de apoio sou eu mesma”, declarou Luísa.
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Luísa Sonza concede entrevista à Glamour (Foto: reprodução/Instagram/@glamourbrasil)
Confiança Construída
A estética nunca foi seu ponto fraco. Sempre possuiu autoestima robusta, algo que credita aos pais. Carrega um verso que sintetiza isso: “Até feia eu sou bonita”. Essa segurança em si própria vem de longe, plantada desde Tuparendi.
Ela observa que muita gente confunde autoestima com soberba, particularmente quando se trata de uma mulher. Não é arrogância o que sente, mas certeza de que merece estar ali, nos palcos, nos festivais, vivendo tudo que conquistou. Essa convicção se aprofundou conforme amadurecia e entendia melhor o que sua presença significa no mundo.
Uma Década Celebrada
Luísa planeja marcar dez anos de carreira com uma turnê especial. Lançou os discos Bossa Sempre Nova e Brutal Paraíso, projetos que refletem sua jornada artística e pessoal. Subirá no Palco Mundo do Rock in Rio no dia 7 de setembro ao lado de Roberto Menescal, um instante que considera divisor de águas.
O festival é o show mais crucial de sua carreira. Lá, ela não apenas comemora dez anos de música, mas uma jornada de autodescoberta e reconstrução. Contempla o passado sem saudade e o futuro sem pressa. A menina que começou em bandas de casamento no Rio Grande do Sul aprendeu que ir longe é menos sobre êxito imediato e mais sobre estar em paz consigo mesma.
