Cauã Reymond defende cenas de nudez em ‘Jogada de Risco’: conversa prévia com elenco

Criador, diretor e produtor da série do Globoplay explica como funciona o protocolo de intimidade nas gravações e cita experiências anteriores com nudez no cinema

02 ago, 2026
Cauã Reymond | Reprodução/Instagram/@cauareymond
Cauã Reymond | Reprodução/Instagram/@cauareymond

Cauã Reymond, 46, acumula as funções de criador, diretor e produtor em ‘Jogada de Risco’, série do Globoplay que gerou repercussão desde o primeiro episódio por suas cenas de sexo, violência e nudez. O ator defende que toda sequência desse tipo passa por um protocolo ético rigoroso com o elenco, incluindo a presença de coordenador de intimidade durante a gravação.

Uma das cenas que mais chamou atenção na internet mostra dois jogadores, Geraldo (Breno Ferreira) e Nacho (Ramiro Martinez), em confronto frontal e sem roupa no vestiário. Sobre esse momento, Cauã comentou: “Os atores foram muito corajosos e estavam relaxados. Eles ficaram felizes com o resultado. Claro, isso gerou um burburinho, e a gente já sabia que aconteceria”.

Como funciona o acordo com os atores

Cauã é enfático ao explicar o processo de preparação do elenco para cenas que envolvem nudez. Segundo ele, não há espaço para constrangimentos ou surpresas desagradáveis durante a gravação. O diálogo com os intérpretes é fundamental desde o começo.

“Tudo é conversado. Tem que apresentar o projeto da forma como ele vai ser filmado. Em momento algum, dá para surpreender o elenco, seria antiético. Há até coordenador de intimidade para esse tipo de cena.”

O protocolo garante que cada ator saiba exatamente o que o aguarda antes de aceitar o papel. Para Cauã, essa transparência não é apenas profissional, mas também respeita a dignidade de quem participa da produção. Quando a gravação de uma sequência de nudez termina, o ator recebe uma toalha e o ambiente volta ao conforto.

A abordagem reflete sua própria experiência na frente das câmeras. O ator também aparece nu em cenas de intimidade do seu personagem, Maurício, ao lado de Leticia Colin. Mas essa não é a primeira vez que Cauã se expõe dessa forma na telinha.

“Coloquei o meu pra jogo várias vezes. Em ‘Dois irmãos’, fiz cena sem tapa-sexo. Em nenhum momento me senti invadido.”

Sua trajetória em produções anteriores inclui ‘Piedade’ (2021) e ‘A viagem de Pedro’ (2022), donde também filmou cenas de nudez. A confiança que o ator deposita no projeto vem dessa experiência acumulada.


Cauã Reymond e Maria Bopp falam sobre a série no podcast odeio cinema (Vídeo: reprodução/YouTube/AdoroCinema)


Nudez como escolha voluntária

Para Cauã, a nudez em cena sempre precisa ser uma decisão do próprio ator. Ele reconhece como legítimo quando alguém não se sente à vontade e recusa participar de sequências desse tipo. A nudez integra o repertório de opções profissionais que o intérprete pode aceitar ou rejeitar.

Essa filosofia acompanha toda a sua visão sobre ‘Jogada de Risco’. A série nasceu há mais de seis anos, quando Cauã conversou com jogadores, ex-jogadores, agentes e assessorias de times para compreender os bastidores do futebol. A pesquisa durou meio ano e forneceu material para a construção de personagens e situações.

“Meu desejo sempre foi ter uma série inspirada na realidade e nunca em fatos reais, porque não queremos problema com ninguém.”

A produção toca em temas que raramente ganham luz na mídia, como homossexualidade, saúde mental, apostas, corrupção e prostituição. Cauã descreve a série como um retrato do lado oculto do esporte, aquele que a maioria dos telespectadores nunca chega a ver.


Cauã Reymond fala sobre as cenas de ‘Jogada de Risco’ (Vídeo: reprodução/Instagram/@charlapodcast)


Trajetória como produtor

Antes de ‘Jogada de Risco’, Cauã já acumulava experiência como produtor. Sua primeira incursão nessa função ocorreu em ‘Se nada mais der certo’ (2008). Desde então, conjugou a produção com a atuação em diversos projetos, principalmente no cinema.

Para o ator, criar uma série representou uma evolução natural em sua carreira. Ele se descreve como maduro e impetuoso ao colocar em prática ideias que carrega há anos. Estar tanto na frente quanto atrás das câmeras enriqueceu sua visão como artista e ampliou seu repertório profissional.

O personagem e suas raízes

Maurício, personagem que Cauã interpreta, é um ex-jogador cuja carreira foi interrompida. Valdemar (Marcos Frota), seu pai na trama, é um ex-empresário que cometeu erros na gestão dessa carreira. A relação entre os dois é marcada por conflito e tensão, sendo central na narrativa.

Essa dinâmica toca profundamente a vida pessoal de Cauã. O ator se afastou de seu pai biológico, José Marques, quando sua mãe se separou dele ainda na infância. Na adolescência, morou com o pai em Santa Catarina, mas a relação era distante: saía de lá todas as sextas para competir em campeonatos de jiu-jítsu no Rio, regressando de ônibus todos os domingos. Cauã gostaria de ter vivido uma proximidade maior naquela época.

Atualmente, porém, a relação com José Marques é positiva. O pai oferece conselhos valiosos, e o vínculo é completamente diverso daquele que Maurício e Valdemar vivenciam na série.

O futebol na vida de Cauã

Seu pai apresentou algumas modalidades esportivas durante a juventude de Cauã. O contato real com o futebol, no entanto, surgiu através de seu irmão Pável, oito anos mais novo e torcedor do Flamengo. Quando Pável morou com Cauã aos 25 anos, o ator começou a estudar futebol para construir um elo com o irmão, os dois tendo sido criados separados.

Depois que Pável saiu para estudar na faculdade, Cauã permaneceu conectado ao universo do futebol. Ele próprio é flamenguista e sofreu uma lesão no quadril em 2010 que o impediu de jogar profissionalmente.

Construção minuciosa do personagem

Maurício passa boa parte do tempo com um cigarro na boca. Como Cauã não fuma, utilizou cigarros de alface ou camomila durante as gravações, alternando para não ficar enjoado. Esse detalhe revela muito sobre o personagem: alguém com ansiedade e compulsão, para quem o futebol deixou um vazio que precisa ser preenchido. O cigarro simboliza a angústia que o cerca.

Saúde mental no centro da narrativa

Cauã não abriu mão de colocar saúde mental no cerne de ‘Jogada de Risco’, assunto que lhe é particularmente caro. O ator faz terapia desde os 14 anos e carrega essa convicção consigo em suas escolhas criativas. Para ele, a série precisava explorar as dimensões psicológicas reais que atletas enfrentam.

Com sua filha Sofia, 14 anos com Grazi Massafera, ele mantém conversas sobre as contradições humanas e formas de lidar com elas. Sua mãe faleceu em 2019 aos 55 anos por câncer. Seu avó Carlos ainda está vivo. Cauã gostaria que ambos pudessem estar presentes para acompanhar o sucesso de ‘Jogada de Risco’.

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