Paula Fernandes aborda machismo no sertanejo e impacto da IA na música ao retornar a Barretos
Em entrevista à BBC, a artista relembrou trajetória desde infância pobre até estrelato em 2011 e revelou pressões que enfrentou no início da carreira
Paula Fernandes retorna à Festa do Peão de Barretos nesta quinta-feira (27) após 10 anos afastada do maior rodeio da América Latina. Ela abrirá as montarias cantando Ave Maria montada a cavalo e fará show solo no palco Amanhecer na sexta-feira (28), data de seu aniversário de 42 anos, para estrear a turnê 30 & Poucos Anos.
Trajetória de Paula Fernandes
Paula nasceu no interior de Minas Gerais em condição humilde. Começou cantando em botecos antes de chegar ao estrelato em 2011, quando se tornou a artista mais tocada do ano nas rádios e vendeu 1,6 milhão de discos. Hoje, acumula 30 anos de carreira na música.
No auge daquele ano, o ritmo foi implacável. Paula chegou a fazer 220 shows, um calendário que não se sustentava do ponto de vista humano. Depois de décadas na indústria, ela escolheu uma rotina diferente, mantendo uma presença consistente mas sem o desgaste extremo daquele período.
Esse recuo estratégico moldou sua percepção sobre a indústria. E é sobre essa visão crítica que Paula fala agora, em entrevista à BBC News Brasil.
Machismo no sertanejo
Paula criticou abertamente o machismo que moldou a indústria sertaneja nos seus primeiros anos. Segundo ela, o ambiente era construído integralmente para homens.
“Não consigo descrever o olhar de espanto de quando eu chegava. ‘Por que ela pediu um banheiro no camarim? Por que pediu um espelho?’. Era tudo moldado para homens, que chegam de botina, trocam de roupa em qualquer lugar, colocam uma camisa xadrez, fazem xixi em qualquer lugar”, afirmou.
As demandas básicas de uma mulher eram vistas como caprichos. Quando pedia um palco sem buracos para usar salto, a resposta tratava isso como luxo.
“A gente pede um palco sem buracos, porque uso salto, e isso são necessidades femininas, não luxo”, disse.
Discriminações no início da carreira
Os questionamentos começavam nos bastidores. Espelho no camarim, banheiro separado, estrutura mínima: tudo era encarado com estranheza. A indústria resistia a essas demandas elementares, como se conforto fosse privilégio.
Paula relembrou também os boatos que tentavam explicar seu sucesso. A narrativa era de que sua carreira havia sido impulsionada por supostos relacionamentos. A indústria inventava escândalos para justificar seu talento, como se uma mulher não pudesse ser bem-sucedida por mérito próprio.
“Me deram cinco namorados em uma semana. Aí a frase era: ‘boazinha, mas passa o rodo, né?’. E eu solteira, super quietinha”, relatou.
Era uma tática: se não conseguiam derrubar sua voz, tentavam destruir sua reputação.
Paula também enfrentou críticas de ser antipática e chata. A indústria tentava construir narrativas alternativas para desqualificar seu trabalho. Aos 18 anos, lidar com tanta pressão afetou sua saúde mental. Paula teve depressão naquela época e buscou tratamento.
Mesmo após o sucesso do feminejo e de artistas como Marília Mendonça, a indústria segue desigual. A presença feminina já não causa espanto como antes, mas as mulheres seguem sendo minoria.
Os números da própria Festa do Peão de Barretos ilustram isso. Entre os 22 artistas que subirão aos palcos na sexta-feira (28), apenas 3 são mulheres (13,6%). Considerando toda a programação de seis dias do evento, as mulheres representam 11,6% das atrações.
Para Paula, a indústria aprendeu a conviver com mulheres, mas não mudou a estrutura que as relega a segundo plano.
Posição contra inteligência artificial na composição
Paula também abordou um novo desafio para criadores: o uso de inteligência artificial. Ela rejeita completamente utilizá-la em sua música.
“Me nego. Como criadora, é inadmissível usar uma vírgula do Chat. É um crime contra minha natureza, porque sou uma criadora desde que me entendo por gente”, afirmou.
Para Paula, emoção não sai de algoritmos. A profundidade e a vulnerabilidade que tornam uma canção tocante exigem humanidade. A tecnologia não consegue replicar isso.
Sua preocupação vai além do seu trabalho. Paula questiona o futuro dos compositores num cenário onde a IA pode gerar músicas facilmente. Como os criadores provarão que uma obra saiu deles? Como proteger direitos autorais quando qualquer pessoa pode pedir à inteligência artificial uma música similar à de um artista consolidado?
“Para emocionar, tem que ser humano, vulnerável, profundo. E IA não tem profundidade”, argumentou.
Paula defende que haja legalização robusta dos direitos autorais. Sem isso, fica muito fácil reproduzir o trabalho alheio por meio de ferramentas de IA.
Paula afirmou ser apartidária e rejeitou usar sua plataforma para se posicionar politicamente. Ela se considera representante da poesia e da arte, terrenos que alcançam pessoas de todas as etnias, raças e cores.
Segundo Paula, entrar em debates políticos seria leviano da sua parte, em área que não é de sua alçada. Seu voto é íntimo e pessoal, e ela não se sente apta nem confortável em interferir no voto de outras pessoas.
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Paula Fernandes (Foto: reprodução/Instagram/@paulafernandes)
Evolução do sertanejo
Embora crítica ao machismo da indústria, Paula é aberta à evolução musical. Acha rico quando o sertanejo incorpora elementos de outros gêneros. Não vê problema em um beat de funk numa canção sertaneja.
Sua essência e raiz é sertaneja, mas Paula nunca se rotulou nem se limitou a um único gênero. No álbum 30 & Poucos Anos, trouxe uma roupagem mais country, influência que sempre admirou na música folk. No passado, a indústria dizia que isso não era suficientemente brasileiro.
Paula é representante da música popular brasileira que não cabe em caixinhas. Sua trajetória reflete uma pessoa que não segue padrões e que compõe de acordo com suas vivências. Menina anônima no início, sem dinheiro e sem abrigo, ela retratou suas experiências conforme o tempo passava e a vida lhe oferecia novos materiais.
Essa responsabilidade com o que canta e fala vem dessa história. Paula sabe que é referência para muita gente que a escuta, e isso pesa nas escolhas que faz como artista.
