Marcelo Serrado fala sobre luto, envelhecimento e crises de pânico em novo livro: “É apavorante”
Ator de 59 anos aborda experiências de agorafobia e lutos em ‘Fora do Roteiro’. Volta com Crô em ‘Três Graças’ e explica por que não vai se posicionar politicamente em 2026
Marcelo Serrado, com 59 anos, lançou o livro e documentário Fora do Roteiro pela Sextante e Aquarius, nos quais aborda suas crises de pânico desde o período da pandemia. A obra percorre sua trajetória pessoal, revisitando perdas de amigos e morte da mãe, e descreve os sintomas físicos intensos que experimenta, como tremores e sensação de morte iminente. O ator também retorna ao personagem Crô em Três Graças após 15 anos de seu sucesso em Fina Estampa.
Um dos episódios mais perturbadores que descreve ocorreu em 2020, durante hospedagem em um hotel na Barra da Tijuca. Naquele momento, enquanto assistia a um episódio de Peppa Pig, Serrado teve uma crise severa e a relatou em seus próprios termos.
“Não consigo respirar, vou morrer e a única testemunha será uma porquinha rosa”
Este foi apenas um dentre vários episódios que levaram Serrado a procurar auxílio profissional. Recebeu diagnóstico de agorafobia e precisou reestruturar sua forma de viver e trabalhar.
Perda e Luto
Parte central de Fora do Roteiro trata das perdas pessoais que marcaram Serrado. Sua mãe morreu há três anos e ele descreveu o impacto de acompanhá-la durante o Alzheimer. O filme Ainda Estou Aqui o impactou emocionalmente, replicando muitas de suas próprias vivências com o luto.
Além da mãe, Serrado perdeu amigos estimados ao longo da carreira. A atriz Daniella Perez, com quem trabalhou em Beleza Fatal e mantinha grande amizade, morreu em 1992. Estava viajando quando recebeu a notícia e carregou culpa por não estar presente. Serrado foi par romântico de Daniella em uma de suas penúltimas novelas, e a perda deixou marcas profundas.
Outro momento traumático foi a morte do ator Domingos Montagner, em 2016. Serrado estava em gravações de Velho Chico quando trabalhava com Montagner e chegou a beber cerveja com ele no dia anterior ao seu falecimento. Montagner morreu afogado no Rio São Francisco dias depois, confrontando Serrado novamente com a finitude.
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Marcelo Serrado lançou o livro e documentário Fora do Roteiro (Foto: reprodução/Instagram/@marceloserrado1)
A Redução de Ritmo
Serrado optou por trabalhar menos nos últimos tempos. Esta escolha é parte de um processo de ressignificação de sua vida, levando-o a aceitar projetos que dialogassem melhor com seu estado emocional. Um desses trabalhos foi a participação nas gravações da cinebiografia de Marília Mendonça, que o impactou profundamente.
O ator reconhece que reduzir sua carga de trabalho não é apenas uma decisão profissional, mas uma necessidade para sua saúde mental. A vida acelerada que mantinha anteriormente contribuía para o agravamento de suas crises.
Envelhecimento e Vitalidade
Contrário ao que muitos imaginariam, Serrado não teme o envelhecimento. Costuma dizer que envelheceu porque “deu certo”, usando seu pai como inspiração central. Seu pai, aos 93 anos, sai, viaja, frequenta shows com Serrado e realiza exercícios de panturrilha regularmente.
O pai repete uma filosofia simples e direta: “a batata da perna é o segundo coração do homem”. Esta longevidade ativa oferece a Serrado uma perspectiva sobre envelhecer com qualidade e disposição, desconstruindo a ideia de que ficar velho significa se recolher.
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Marcelo Serrado lançou o livro e documentário Fora do Roteiro (Vídeo: reprodução/Instagram/@marceloserrado1)
Compreendendo as Crises
Serrado identificou um padrão: suas crises parecem relacionadas a momentos de pausa e descanso. Como alguém sempre muito ativo profissionalmente, períodos inativos desencadeavam os episódios. Uma crise particularmente severa ocorreu dentro de um avião, ambiente onde não tinha controle, amplificando a vulnerabilidade.
O estigma em torno das crises de pânico o preocupa. Há culpa associada a ter uma crise de saúde mental, e online muitas pessoas chamam o problema de “frescura”. Um componente de masculinidade tóxica existe: homens frequentemente dizem resolver tudo praticando esportes, criando pressão para que outros façam o mesmo. Serrado não escolhe ter a crise, segundo ele, é “apavorante”.
Celebridades de diferentes áreas enfrentaram crises semelhantes. Simone Biles, Gabriel Medina e Jim Carrey experienciaram pânico publicamente. Uma mulher o abordou no aeroporto para agradecer:
“Não pare de falar sobre isso. Porque você me ajudou, me senti abraçada por você”
Medicação e Acompanhamento
Serrado parou de tomar medicamentos uma vez e ficou bem por seis meses. Na sétima mês, teve uma crise e retomou a medicação com acompanhamento profissional contínuo. Nunca teve uma crise enquanto estava trabalhando e confia que seus colegas o acolheriam se algo acontecesse. Empresas modernas acolhem melhor funcionários que enfrentam questões de saúde mental, e ele acredita que o pior cenário é quem não fala e guarda tudo para si.
Certa vez, teve uma crise em São Paulo e foi ao hospital Sírio-Libanês. Apenas chegar e saber que estava em um espaço seguro foi suficiente para melhorar. Há tabu ao redor de dar alta em terapia, como se deixar de frequentar sessões fosse fracasso. Em seu monólogo Terapia, Serrado questiona quem fez acompanhamento e recebeu alta, observando que há igualmente tabu em tomar medicamento psiquiátrico.
Crô e Comunidade LGBT
O personagem Crô o aproximou muito da comunidade LGBT. Serrado foi a boates e passeatas gays em São Paulo graças ao personagem, vindo de uma família machista. Nunca imaginou que Crô faria o sucesso alcançado. O personagem virou figurinha, cor de esmalte, e teve pessoas fantasiadas como Crô no carnaval.
O sucesso teve uma violência grande, mas no bom sentido. Após encerrar o personagem em Fina Estampa, Serrado experimentou algo próximo a uma abstinência pós-Crô, o que o levou a lidar com sentimentos complexos de perda e encerramento.
Herança Genética e Medos
Serrado tem três filhos: Felipe e Guilherme, gêmeos de 13 anos, e Catarina, de 21 anos. Felipe tem medo de avião. Catarina também tem medo de avião. Guilherme não tem.
Seu pai acredita que essas questões estão no DNA da família. A mãe de Serrado fazia coisas inacreditáveis em aviões: entrou na cabine do piloto e dava instruções, e uma vez convenceu cinco mulheres a desembarcarem dizendo que o avião cairia. A herança genética aparenta ser real na família Serrado.
Estratégias de Proteção
Serrado desenvolveu táticas específicas para lidar com suas crises. Usa um áudio de hipnose de Tiago Garcia antes de embarcar em voos. Divide viagens longas em trechos menores em vez de enfrentar trajetos diretos extensos. Não trabalha mais no ritmo alucinante de antes.
Ele tenta não querer mudar sua essência, mesmo que se adeque às circunstâncias. Tenta ser um cara bom e legal, e mudou sua postura em relação a autógrafos e fotos: não recusa mais. Sente remorso por ter recusado fotos no passado, porque pessoas falam que suas avós o amam. Quando ouve histórias assim, sente que envelheceu.
Posicionamento Político e Saúde Mental
Serrado decidiu não se posicionar nas eleições de 2026. Ele explica sua decisão da seguinte forma:
“Não vou. Eu tenho uma questão séria de saúde mental, eu olho muito para a internet. Não quero isso para mim, isso tem um custo. Não preciso tê-lo novamente, mas estou sempre do lado do bem”
Esta escolha reflete seu compromisso com sua própria saúde mental, priorizando seu bem-estar em detrimento de engajamentos públicos de alto impacto emocional. Apesar de manter seus valores, Serrado escolhe proteger sua mente das dinâmicas que a internet amplifica durante períodos eleitorais.
