Ucraniano perde chance olímpica após usar capacete homenageando mortos da guerra
Capacete de Vladyslav Heraskevych tinha fotos de outros atletas que morreram durante os conflitos entre Rússia e Ucrânia desde 2022
Um atleta ucraniano de 26 anos que estava competindo nos Jogos Olímpicos de Inverno foi desclassificado da competição por utilizar um capacete com fotos de outros atletas que morreram nos conflitos da guerra entre a Rússia e a Ucrânia. Vladyslav Heraskevych participaria de uma prova nesta quinta-feira (12), contudo, o competidor utilizou seu capacete durante seus treinos e tinha o desejo de utilizar também durante as competições.
Por esse motivo, acabou recebendo a punição do Comitê Olímpico Internacional, alegando que o atleta descumpriu as “Diretrizes do COI sobre Expressão dos Atletas”. Vladyslav ainda era um dos porta-bandeiras da Ucrânia na cerimônia de abertura dos jogos.
O ucraniano compete no esporte Skeleton, que consiste em descer a pista de gelo deitado de bruços em um trenó, devido as altas velocidades, é consideravelmente um dos esportes mais radicais dos jogos de inverno. Antes da decisão ser tomada a respeito do que seria feito com o atleta, membros do COI ainda buscaram alternativas, ofereceram a possibilidade de Vladyslav se manifestar após a prova, mas as partes não chegaram a um consenso que fosse permitido dentro dos regulamentos da competição.
“A decisão foi tomada após sua recusa em cumprir as Diretrizes do COI sobre Expressão dos Atletas. Ela foi adotada pelo júri da Federação Internacional de Bobsleigh e Skeleton (IBSF), com base no fato de que o capacete que ele pretendia usar não estava em conformidade com as regras”, afirmou o COI em declaração.
Posicionamento de Vladyslav
Em suas redes sociais, Heraskevych publicou uma imagem usando o capacete durante seus treinos com a frase “Esse é o preço da nossa dignidade” e ainda deixou claro que nunca teve a intenção de iniciar alguma intriga com o Comitê Olímpico de Inverno: “Eu nunca quis um escândalo com o COI, e não fui eu quem o criou. O COI o criou com sua interpretação das regras, que muitos consideram discriminatória. Embora esse escândalo tenha possibilitado falar em voz alta sobre os atletas ucranianos que foram mortos, ao mesmo tempo, o próprio fato do escândalo desvia uma enorme quantidade de atenção das competições em si e dos atletas que estão participando delas”
Vladyslav ainda afirmou estar com a sensação de que o COI estava traindo aqueles atletas que um dia fizeram parte do movimento olímpico, e deveriam ser homenageados ali, na arena esportiva, onde não poderiam mais estar. Para o competidor, algumas daquelas vítimas da guerra eram amigos pessoais e ainda completou seu ponto de vista em outra publicação:
“Para mim, o sacrifício das pessoas retratadas no capacete significa mais do que qualquer medalha alguma vez poderia – porque deram a coisa mais preciosa que tinham”.
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Publicação de Vladyslav após ser desclassificado dos jogos (Foto: reprodução/Instagram/@heraskevychvladyslav)
Dura escolha para o COI
Durante os treinamentos o Comitê Olímpico de inverno havia permitido que o capacete fosse utilizado, já que os treinos não são televisionados, porém manteve a decisão de não permitir que o ucraniano usasse o equipamento durante as competições. Apesar de ser saber sobre a não permissão do uso do objeto, o competidor seguiu com o desejo de performar com o capacete, o que o levou a ser desclassificado. Heraskevych foi avisado de sua desclassificação durante uma reunião com a presidente do COI, Kirsty Coventry, no início da manhã.
“Eu não deveria estar aqui, mas achei muito importante vir e falar com ele pessoalmente (…) Ninguém, especialmente eu, discorda da mensagem; é uma mensagem poderosa, uma mensagem de lembrança, de memória(…) O desafio era encontrar uma solução para o campo de jogo. Infelizmente, não conseguimos encontrar essa solução. Eu realmente queria vê-lo correr. Foi uma manhã emocionante” – afirmou a presidente do COI, em tom emocionado.
Durante os jogos, outras manifestações também foram proibidas, como foi o caso do patinador de pista Oleh Handei, que compartilhou em suas redes sociais que havia sido proibido de utilizar seu capacete pelas autoridades olímpicas. No equipamento estava escrito a frase “Onde há heroísmo, não há derrota final”, classificada como um “slogam político” pela União Internacional de Patinação.
