Campeão em título entra no Brasileirão com o pé esquerdo
Muita tinta se tem escorrido em torno do Flamengo. Não só por esta inesperada derrota que ninguém previu
O ano não começou lá muito bem para o time de Filipe Luís. Depois de um ano que terminou com a conquista do Brasileirão e da Libertadores, seu time entrou para a jornada 1 com vontade, mas isso não se traduziu em vitória. Aliás, muito pelo contrário. O time até começou a vencer mas o marcador final apontava 2-1, sendo que 2 para o São Paulo, equipe que conseguiu dar a volta ao resultado.
Muita tinta se tem escorrido em torno do Flamengo. Não só por esta inesperada derrota que ninguém previu. Avizinhava-se um jogo difícil, mas não se esperava uma derrota. Basta olhar para o melhor indicador que ajuda a perceber quem é favorito para vencer um jogo: odds. Elas são usadas pelas casas de apostas no Brasil para atribuir favoritismo (ou não) a uma equipe e para este duelo a nova equipe de Paquetá era favorita a vencer com uma odd de 2.00.
Como o Flamengo se comportou taticamente
A ideia inicial do Flamengo foi clara: posse de bola prolongada, circulação paciente desde trás e tentativa de atrair o São Paulo para abrir espaços entre linhas. Em termos territoriais, funcionou. O time manteve maior controlo do jogo durante a primeira parte, limitando as transições do adversário e protegendo bem a entrada da área.
Faltou, no entanto, agressividade no último terço. A posse raramente se transformou em finalizações claras, muito por mérito da boa organização defensiva tricolor. Ainda assim, Arrascaeta, mesmo começando no banco, e Pedro, com movimentos de apoio bem executados, foram os nomes que mais ajudaram a dar sentido à construção ofensiva.
O golo de Plata e a virada em 10 minutos
Aos 54 minutos, o Flamengo finalmente foi eficaz. Uma transição bem desenhada terminou com Gonzalo Plata a finalizar com frieza e colocar o campeão em vantagem. O problema surgiu logo depois. Aos 61’, Luciano empatou de cabeça, aproveitando falhas de marcação na área. Dez minutos mais tarde, aos 71’, um erro individual de Pulgar, pressionado dentro da própria área, permitiu a Danielzinho consumar a virada.
O padrão foi evidente: após o empate, o Flamengo perdeu controlo emocional e estrutural. As linhas afastaram-se, a pressão diminuiu e o São Paulo que, contratatou recentemente Rony, ganhou confiança num jogo que, até então, parecia sob controlo rubro-negro.
Queda de concentração, bola aérea e nervosismo
O empate mudou o jogo. O Flamengo recuou alguns metros, perdeu intensidade na pressão e permitiu que o São Paulo crescesse, especialmente pelo alto. O golo de Luciano, de cabeça, expôs dificuldades claras na defesa da área; um ponto sensível que já vinha sendo observado no fim da última temporada.
O segundo golo nasceu de outro problema recorrente: saída de bola sob pressão. O erro de Pulgar não pode ser dissociado da falta de linhas de passe e de apoio próximo, algo que comprometeu a segurança defensiva em momentos decisivos.
No plano emocional, o desfecho foi ainda mais revelador. Jorginho acabou expulso nos acréscimos por reclamação, e o time terminou o jogo cercando a arbitragem após um possível pênalti sobre Arrascaeta no último lance. Para uma equipa que entra no campeonato como “a ser batida”, manter equilíbrio mental será tão importante quanto ajustar o sistema defensivo.
O que as escolhas do treinador indicam
O onze inicial apostou em mobilidade pelos lados, com Plata aberto e Pedro como referência central. Arrascaeta foi preservado de início, entrando apenas no segundo tempo, numa gestão que parece olhar já para a sequência pesada de jogos.
As substituições deram mais presença ofensiva, com Everton e Arrascaeta a empurrarem o Flamengo para a frente. O efeito foi imediato em termos de volume de jogo, mas veio acompanhado de maior exposição defensiva; algo que o São Paulo soube explorar. Aliás, voltou a vencer, passado 2 dias, o Santos, em casa por 2-0.
Paquetá terá espaço no time?
A partida também ajuda a entender o timing do regresso de Lucas Paquetá, oficializado recentemente. Com contrato até dezembro de 2030, a transferência, avaliada em cerca de 36,5 milhões de libras (aproximadamente 42 milhões de euros) tornou-se a mais cara da história do clube e uma das maiores do futebol brasileiro.
Os problemas expostos contra o São Paulo ajudam a explicar a aposta. Dificuldades para controlar o ritmo após abrir o placar, pouca criatividade contínua entre linhas e fragilidade na gestão da bola sob pressão são exatamente zonas onde Paquetá pode acrescentar, seja como médio mais adiantado, seja partindo da meia-esquerda com liberdade para flutuar.
Há também uma dimensão mental. O próprio jogador já deixou claro, de forma indireta, que o regresso ao Brasil e ao Flamengo representa a busca por estabilidade e paz mental, depois de um período desgastante na Europa e de um processo disciplinar na FA, do qual acabou absolvido das acusações principais. Num elenco que mostrou nervosismo no Morumbis, a chegada de um líder técnico identificado com o clube pode ser determinante para dar personalidade nos jogos grandes.
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