Ian Cosenza: entre pressão, silêncio e disciplina, a construção de um atleta real
Ian Cosenza pode ser definido pela disciplina, mas é a honestidade sobre suas próprias fragilidades que o torna mais interessante
Existe um momento no esporte que quase ninguém vê. Não é o da medalha, nem o do pódio, muito menos o da foto publicada nas redes. É aquele instante depois de um treino ruim, quando o cansaço pesa mais do que o orgulho. É ali que muita coisa se decide.
Ian Cosenza conhece bem esse espaço.
Com uma trajetória marcada por evolução constante, ele representa uma geração que entende o esporte como construção diária. Mas, ao contrário da imagem fria que muitas vezes se projeta sobre atletas de alto rendimento, Ian fala sobre dúvidas, medo e pressão com franqueza.
“Teve um período em que eu acordava já me cobrando antes mesmo de sair da cama”, ele admite. “Eu olhava para o calendário de competições e pensava: ‘Eu preciso estar pronto. Eu não posso falhar.’ Isso é pesado.”
A pressão que ninguém vê
Ian explica que o maior adversário nem sempre está do outro lado da arena.
“As pessoas enxergam o resultado final, mas não veem a negociação interna que acontece todos os dias. Tem dia em que o corpo responde, tem dia em que não. E quando não responde, sua cabeça começa a questionar tudo.”
Ele lembra de uma competição específica em que não performou como esperava.
“Eu tinha treinado muito. Estava confiante. E simplesmente não aconteceu. Voltei para o hotel em silêncio. Não era raiva. Era uma sensação de vazio. Fiquei me perguntando se eu estava realmente no nível que imaginava.”
Foi nessa fase que entendeu que precisava fortalecer o lado mental com a mesma seriedade que fortalecia o físico.
“Eu percebi que estava tentando ser uma máquina. E não sou. Eu sinto medo, eu sinto insegurança. Quando aceitei isso, comecei a competir melhor.”
Nazaré: a prancha que virou símbolo
Entre os capítulos mais marcantes da carreira de Ian está a prancha no museu do Farol de Nazaré, Portugal. Mas não foi apenas pelo tamanho das ondas.
Em um dia de ondas gigantes, ele escolheu algo incomum: uma prancha de madeira, desenvolvida por um amigo “carpinteiro de pranchas”, chamado David Weber, especialmente para enfrentar as condições extremas do pico português. A ideia era unir tradição e performance em um dos cenários mais exigentes do surfe mundial.
“Quando eu segurei aquela prancha, senti que estava levando algo com identidade para a água. Não era só equipamento. Tinha história ali.”
Nazaré é um campo de provas, exige preparo físico, mas acima de tudo, controle emocional.
“O mar estava pesado. Você sente o respeito antes mesmo de entrar. E sair parar surfar nestes dias tem que ser uma decisão consciente.”
Depois daquela sessão, Ian teve a noticia de que havia pego a maior onda já surfadacom uma prancha 100% de madeira. A mesma foi levada ao Forte de São Miguel Arcanjo, ponto icônico do surfe de ondas gigantes, onde passou a ser exposta e simbolizar aquele momento da sua trajetória.
Disciplina além da motivação
Ao falar de disciplina, Ian foge do discurso idealizado.
“Tem dia que eu não quero treinar. Não tem nada heroico nisso. Eu simplesmente vou. Porque se eu começo a negociar comigo mesmo, essa negociação vira hábito.”
Ele conta que criou pequenos rituais para manter constância. Dormir cedo mesmo quando prefere ficar acordado. Cumprir horários mesmo quando está cansado. Evitar distrações quando sabe que precisa recuperar energia.
“Alta performance não é um momento épico. É uma sequência de decisões chatas feitas da forma certa.”
Ian também fala sobre comparação, algo comum no universo esportivo.
“É impossível não se comparar. Você vê outros atletas evoluindo, ganhando espaço. A diferença é o que você faz com isso. Eu já deixei isso me afetar mais do que deveria.”
Hoje, ele tenta usar a comparação como referência e não como sabotagem.
“Eu aprendi que minha corrida é diferente da de qualquer outra pessoa. Quando entendi isso, a ansiedade diminuiu.”
View this post on Instagram
Rotina de um dia sem roteiro (Vídeo: reprodução/Instagram/@iancosenza)
O esporte e a identidade
Um dos pontos mais sensíveis da conversa surge quando falamos sobre identidade.
“Por muito tempo, eu me defini só como atleta. Se eu ia bem, eu estava bem. Se eu perdia, parecia que eu tinha perdido valor como pessoa.”
Esse processo de ressignificar identidade e desempenho também é explorado em histórias como Haysam Ali: “Minha transformação não foi para os outros, foi por mim”, que aborda a jornada de autoconhecimento e evolução pessoal de outra figura inspiradora no universo da transformação individual.
Ele conta que esse pensamento começou a mudar com maturidade e apoio próximo.
“Eu precisei ouvir de pessoas próximas que eu era mais do que resultado. Parece óbvio, mas quando você vive competição desde cedo, sua autoestima fica muito ligada ao desempenho.”
Essa mudança trouxe leveza.
“Hoje eu quero ganhar, claro. Mas eu não coloco mais minha identidade inteira em cima de um placar.”
Tecnologia, movimento e escolhas conscientes
Ian vive em constante deslocamento. Treinos, competições, compromissos. Ele diz que a praticidade virou uma necessidade real, não apenas conveniência.
“Quando você está sempre viajando, começa a valorizar tudo o que reduz fricção no dia a dia. Tempo vira recurso.”
É dentro dessa lógica que ele fala sobre a parceria com a Oobit.
“Eu não queria me associar a algo só por visibilidade. Para mim precisava fazer sentido no meu ritmo de vida. A ideia de integrar tecnologia de forma prática, especialmente em um cenário cada vez mais digital e global, conversa com a realidade que eu vivo.”
Ele destaca que o atleta moderno precisa entender o ambiente ao redor.
“Não dá para viver desconectado do que está acontecendo no mundo. O esporte está inserido em uma transformação digital. Eu gosto de estar próximo de iniciativas que acompanham esse movimento.”
Sem exageros ou promessas grandiosas, Ian trata a parceria como extensão natural do seu estilo de vida.
Vulnerabilidade como força
Pergunto qual foi o momento mais difícil da carreira até agora. Ele pensa antes de responder.
“Teve uma fase em que eu comecei a duvidar se conseguiria dar o próximo passo. Eu treinava, mas parecia que estava estagnado. E estagnação, para quem vive de evolução, é angustiante.”
O que o tirou desse lugar não foi um grande evento, mas ajustes graduais.
“Eu parei de buscar uma transformação radical e comecei a melhorar pequenas coisas. Um detalhe técnico aqui, um ajuste na recuperação ali. Quando vi, estava evoluindo de novo.”
Ele acredita que muitos atletas desistem justamente nesse intervalo invisível entre esforço e resultado.
“A gente vive numa cultura de imediatismo. Mas o esporte não respeita pressa.”
O que o move hoje
Hoje, Ian parece mais sereno. Ambicioso, mas menos ansioso.
“Eu ainda quero vencer. Muito. Mas hoje eu quero, principalmente, sair de cada temporada sabendo que fiz o que estava ao meu alcance.”
Ele diz que aprendeu a medir sucesso de forma mais ampla.
“Sucesso, para mim, é olhar para trás e reconhecer consistência. É saber que eu não me escondi quando ficou difícil.”
Ao final da conversa, ele resume o que aprendeu até aqui:
“Eu não sou o atleta que imaginava que seria aos 18 anos. Sou melhor. Não necessariamente mais talentoso, mas mais consciente. E isso muda tudo.”
Ian Cosenza pode ser definido pela disciplina, mas é a honestidade sobre suas próprias fragilidades que o torna mais interessante. Em um cenário onde performance muitas vezes vem acompanhada de personagens impecáveis, ele escolhe algo mais raro: ser real.
E talvez seja justamente isso que sustenta sua evolução.
