Ação do Brasil na OMC ganha apoio da China em disputa com os EUA

Brasil na OMC ganha apoio de chineses contra tarifas dos EUA, mas analistas avaliam que a medida pode ter efeito limitado na disputa comercial

16 ago, 2026
Presidente Lula | Reprodução/X/@lulaoficial/@Inteligência Ltda
Presidente Lula | Reprodução/X/@lulaoficial/@Inteligência Ltda

O Brasil na OMC ganhou um novo elemento de peso na disputa comercial com os Estados Unidos após a China solicitar participação nas consultas abertas pelo governo brasileiro contra as tarifas impostas por Washington. Para especialistas, a entrada chinesa fortalece politicamente a posição brasileira e amplia a repercussão do caso, embora não represente uma garantia de mudança nas medidas americanas.

O pedido chinês ocorre depois de o Brasil acionar o sistema de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio (OMC) para questionar duas medidas tarifárias adotadas pelo governo de Donald Trump. A iniciativa brasileira contesta sobretaxas aplicadas a produtos nacionais e aponta incompatibilidades entre as medidas americanas e as regras internacionais de comércio.


Membros da guarda de honra seguram as bandeiras nacionais da China e do Brasil (Foto: reprodução/Tingshu Wang – Pool/Getty Images Embed)


A participação da China é considerada relevante porque o país possui uma relação comercial de grande dimensão com o Brasil e também enfrenta o aumento das tarifas americanas. Segundo os analistas consultados pela BBC News Brasil, Pequim tem maior capacidade de negociação e de reação comercial diante dos Estados Unidos do que o Brasil.

O movimento, porém, não deve ser interpretado automaticamente como uma aliança entre Brasil e China contra os EUA. A avaliação dos especialistas é de que Pequim também atua de acordo com seus próprios interesses econômicos e estratégicos, especialmente em relação ao funcionamento das instituições multilaterais.

O que está em disputa na OMC

O governo brasileiro apresentou o pedido de consultas no sistema de solução de controvérsias da OMC no fim de julho. Essa é a etapa inicial do procedimento utilizado para tentar resolver conflitos comerciais entre países integrantes da organização.

A contestação brasileira envolve duas medidas adotadas pelos EUA. Entre elas estão:

  • Tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros após uma investigação conduzida pelo governo americano;
  • Tarifa adicional de 12,5% estabelecida no âmbito de uma investigação envolvendo dezenas de economias.

O Brasil considera que as medidas são incompatíveis com compromissos assumidos pelos EUA dentro das regras internacionais de comércio. Após receber o pedido, o governo americano informou que está disposto a realizar as consultas com representantes brasileiros.

Essa primeira etapa não significa que haverá uma decisão imediata sobre as tarifas. O mecanismo da OMC prevê diferentes fases para a resolução de disputas, e o processo pode se prolongar caso não exista um acordo entre os países envolvidos.

China tem interesses próprios na disputa

Para os especialistas, a participação chinesa pode aumentar o peso político do processo brasileiro, mas não ocorre apenas por solidariedade ao Brasil. A China também possui interesse em defender sua posição dentro das instituições multilaterais e contestar medidas unilaterais adotadas pelos Estados Unidos.

A disputa acontece em um cenário de tensão comercial entre as duas maiores economias do mundo e de questionamentos sobre a capacidade das organizações multilaterais de estabelecer limites para medidas comerciais adotadas individualmente por grandes potências.


Lula e o CEO da chinesa Great Wall Motor durante inauguração da fábrica de autos no interior de SP (Foto: reprodução/Nelson ALMEIDA/AFP/NELSON ALMEIDA/Getty Images Embed)


Nesse contexto, o Brasil ocupa uma posição estratégica. O país mantém relações comerciais importantes tanto com os EUA quanto com a China e procura evitar um alinhamento exclusivo com qualquer um dos dois lados. A aproximação com Pequim na OMC, portanto, não elimina a necessidade de preservar os canais diplomáticos com Washington.

A relação entre brasileiros e chineses também ultrapassa o comércio de produtos. Empresas e investidores chineses possuem presença em setores como energia, infraestrutura, portos e tecnologia, enquanto o mercado chinês representa um dos principais destinos para produtos brasileiros.

Apoio chinês não significa alinhamento

A entrada da China no processo da OMC pode ser interpretada como uma convergência pontual de interesses, e não necessariamente como uma mudança na política externa brasileira. O governo brasileiro mantém relações diplomáticas e econômicas com os dois países e busca preservar espaço para negociações com ambos.

Para os analistas, essa postura é relevante porque os efeitos das tarifas americanas já podem afetar setores da economia brasileira. Ao mesmo tempo, uma aproximação excessiva com qualquer uma das potências poderia criar dificuldades adicionais nas relações comerciais e diplomáticas.


Lula e o presidente da China, Xi Jinping, assinam acordos bilaterais após uma reunião no Palácio da Alvorada, em 2024 (Foto: reprodução/EVARISTO SA/AFP/Getty Images Embed)


A situação também ocorre enquanto os EUA reforçam sua atuação política na América Latina. O governo Trump voltou a destacar a Doutrina Monroe como referência para sua política externa no continente, aumentando a importância estratégica das relações entre Washington e os países latino-americanos.

Para o Brasil, o desafio está em utilizar o apoio obtido na OMC sem transformar a disputa tarifária em um conflito mais amplo de alinhamento geopolítico. A presença chinesa pode ampliar a pressão política sobre os EUA, mas o governo brasileiro ainda precisa administrar seus interesses econômicos e diplomáticos com os dois parceiros.

OMC enfrenta limitações no conflito

Apesar da importância política do caso, os especialistas avaliam que a OMC enfrenta limitações para produzir efeitos imediatos sobre as tarifas americanas. A organização perdeu parte de sua capacidade de atuação ao longo dos últimos anos, especialmente diante da dificuldade de avançar negociações multilaterais e da adoção crescente de medidas comerciais unilaterais.

Esse cenário reduz as expectativas em relação a uma eventual decisão favorável ao Brasil. Mesmo que o país consiga um resultado positivo no processo, isso não significa necessariamente que os Estados Unidos irão retirar rapidamente as tarifas questionadas.

A própria demora característica dos procedimentos comerciais internacionais pode fazer com que uma eventual decisão ocorra muito depois da implementação das medidas americanas. Por isso, o processo tem relevância jurídica e diplomática, mas seus resultados econômicos podem ser mais limitados no curto prazo.

A disputa também representa uma defesa do multilateralismo, princípio tradicional da diplomacia brasileira. Ao recorrer à OMC em vez de responder às tarifas exclusivamente por meio de medidas unilaterais, o Brasil busca utilizar os mecanismos institucionais disponíveis para contestar as decisões americanas.

Tarifa dos EUA pode mudar rotas comerciais

Outro ponto levantado pelos especialistas é que o apoio chinês não significa que todos os produtos brasileiros atingidos pelas tarifas americanas serão automaticamente absorvidos pelo mercado da China. Embora os dois países tenham uma relação comercial expressiva, os produtos afetados pelas sobretaxas não necessariamente correspondem às principais necessidades de importação chinesas.

A tendência, portanto, pode envolver uma diversificação dos destinos das exportações brasileiras. Parte dos produtos poderá buscar compradores em outros mercados, dependendo das condições comerciais e da demanda internacional.

Entre os possíveis destinos estão países europeus, economias asiáticas e mercados latino-americanos. Essa reorganização, contudo, depende da capacidade das empresas brasileiras de encontrar compradores, adaptar operações e manter competitividade diante das novas condições comerciais.

Assim, a participação da China na disputa do Brasil na OMC aumenta a dimensão política do caso, mas não resolve sozinha os impactos provocados pelas tarifas americanas. O processo ainda dependerá das negociações entre brasileiros e americanos, da evolução do debate comercial e da capacidade da organização de atuar em um ambiente internacional cada vez mais marcado por medidas unilaterais.

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