Conar endurece fiscalização e suspende anúncios de bets na CazéTV

Medida cautelar interrompe campanhas de apostas esportivas durante a Copa de 2026 e amplia o debate sobre os limites da publicidade do setor no Brasil

27 jun, 2026
Casimiro | Reprodução/Instagram/@casimiro
Casimiro | Reprodução/Instagram/@casimiro

A publicidade de casas de apostas esportivas durante a Copa do Mundo de 2026 entrou na mira dos órgãos de fiscalização. O Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) determinou, em decisão liminar, a suspensão imediata das campanhas exibidas nas transmissões da CazéTV, enquanto investiga possíveis violações às normas que regulam a propaganda comercial no Brasil.

A medida, assinada pelo conselheiro relator Luiz Celso de Piratininga Jr., não representa uma decisão definitiva, mas impede a continuidade das ações publicitárias questionadas até que o caso seja analisado pelo Conselho de Ética da entidade. O objetivo é evitar que campanhas potencialmente irregulares permaneçam em circulação durante um dos eventos esportivos de maior audiência do mundo.

O episódio amplia a pressão sobre um mercado que, desde a regulamentação das apostas esportivas no Brasil, passou a ocupar espaço cada vez maior nas transmissões esportivas, levantando debates sobre responsabilidade publicitária, proteção ao consumidor e os limites da influência comercial durante eventos ao vivo.

Formato das campanhas motivou intervenção

O foco da investigação não está na existência da publicidade em si, mas na forma como ela foi apresentada ao público.

Durante as transmissões da Copa, ações de merchandising integravam a narração das partidas, com apresentadores e comentaristas divulgando apostas relacionadas a acontecimentos imediatos do jogo. Em diversos momentos, eram exibidas odds e sugestões de apostas para lances que ainda aconteceriam, em uma dinâmica integrada ao conteúdo esportivo.

Na avaliação preliminar do Conar, esse modelo pode comprometer a transparência exigida para a comunicação publicitária. Um dos pontos analisados é a possibilidade de o espectador não conseguir distinguir claramente quando a equipe de transmissão está realizando análise esportiva e quando está promovendo um produto comercial.

Outro aspecto considerado sensível é o potencial incentivo ao comportamento impulsivo. A oferta de apostas em tempo real, associada à emoção da partida, pode estimular decisões imediatas, especialmente entre consumidores mais vulneráveis.


Conar recomendou a suspensão de anúncios de bets da CazéTV (Vídeo:reprodução/YouTube/@cnnbrasl)


Embora as promoções específicas analisadas já não estejam mais ativas, o órgão considerou necessário interromper campanhas semelhantes até que o julgamento seja concluído.

Além da CazéTV, também foram notificadas as plataformas Betnacional, Bet365 e KTO, que terão prazo para informar quais providências adotaram para adequar suas ações às normas do Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária.

Pressão regulatória aumenta sobre o setor

A decisão do Conar acontece em um momento de endurecimento da fiscalização sobre as apostas esportivas no Brasil.

Paralelamente, a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) abriu uma investigação para verificar se as campanhas respeitaram o Código de Defesa do Consumidor. A apuração busca identificar eventuais mensagens capazes de induzir o público à falsa percepção de ganhos fáceis, minimizar os riscos financeiros ou estimular práticas de jogo irresponsável.

O governo federal também prepara novas regras para a publicidade das bets. Entre as propostas em estudo está a obrigatoriedade de alertas visíveis sobre os riscos associados às apostas, em formato semelhante às advertências presentes em propagandas de cigarros e bebidas alcoólicas.

Segundo o ministro da Fazenda, Dario Durigan, as futuras exigências deverão alcançar tanto as plataformas de apostas quanto emissoras, canais digitais e demais veículos responsáveis pela divulgação desse tipo de publicidade.

A discussão ocorre em meio ao crescimento acelerado do mercado brasileiro de apostas, que se tornou um dos principais patrocinadores do esporte nacional, especialmente do futebol. Ao mesmo tempo, aumentam os questionamentos sobre os impactos sociais da atividade e a necessidade de estabelecer critérios mais rigorosos para sua divulgação.

CazéTV afirma que realizou mudanças

Em manifestação enviada ao portal F5, da Folha de São Paulo, a CazéTV informou que promoveu ajustes na forma de apresentação das campanhas após receber críticas de parte do público. Apesar das alterações, o Conar entendeu que ainda havia elementos suficientes para justificar a concessão da medida cautelar.

Enquanto o mérito do processo não é julgado, técnicos da entidade continuarão acompanhando as transmissões esportivas. Caso sejam identificadas novas inserções com características semelhantes às investigadas, o órgão poderá instaurar um processo ético formal, que poderá resultar na recomendação definitiva de alteração ou retirada das campanhas.

O caso reforça um debate que deve ganhar força nos próximos meses: como equilibrar a liberdade comercial das empresas de apostas com a necessidade de proteger consumidores diante da crescente presença desse mercado no esporte brasileiro.

Matéria por: Érica Monique Antunes (Lorena.Ig)

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