Desafios econômicos do próximo governo vão além das contas públicas
Mais de 20 economistas apontam as contas públicas como principal desafio do próximo governo, enquanto outros temas também exigem medidas econômicas
Contas públicas aparecem como o principal desafio econômico para o próximo governo, segundo respostas de mais de 20 economistas consultados pelo g1. O grupo reúne profissionais do mercado financeiro, pesquisadores, professores e nomes que já ocuparam cargos no setor público, com diferentes linhas de análise sobre a economia brasileira.
A preocupação está relacionada ao resultado primário, que representa a diferença entre receitas e despesas do governo, e aos efeitos desse indicador sobre a evolução da dívida pública. Em agosto de 2026, a dívida bruta do setor público chegou a R$ 11,05 trilhões, equivalente a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB).
Contas públicas influenciam juros e crescimento
O nível de endividamento coloca o equilíbrio das contas públicas no centro das discussões sobre os próximos anos. A avaliação apresentada pelos economistas é que uma trajetória considerada mais sustentável para a dívida pode diminuir pressões sobre juros e inflação e, consequentemente, favorecer investimentos, consumo e atividade econômica.
O mecanismo envolve a relação entre gastos, necessidade de financiamento e confiança dos agentes econômicos. Quando as despesas permanecem acima das receitas durante períodos prolongados, o governo precisa ampliar o endividamento para cumprir seus compromissos. Uma percepção maior de risco pode elevar o custo para obter novos recursos.
Contas públicas (Vídeo: reprodução/Youtube/@Jovem Pan News)
Esse cenário também afeta famílias e empresas. Com maior pressão sobre os juros, o crédito tende a ficar mais caro, o que pode reduzir o consumo e dificultar decisões de investimento. A taxa básica de juros, a Selic, também pode permanecer em um patamar elevado diante de um ambiente de maior pressão fiscal e inflacionária.
Para Maílson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda, o próximo presidente precisará apresentar medidas concretas para o ajuste das contas logo no início do mandato. Na avaliação dele, a ausência de uma sinalização rápida poderia afetar as expectativas econômicas e provocar novas pressões sobre câmbio, juros e crédito.
Outros desafios entram na agenda econômica
Embora o cenário fiscal tenha sido o ponto mais citado pelos especialistas consultados, outros fatores também devem fazer parte das decisões econômicas do próximo governo. Entre eles estão questões relacionadas à capacidade produtiva do país, ao endividamento, às reformas e ao cenário internacional. Os principais temas destacados são:
- Produtividade: ampliar a capacidade de geração de riqueza depende de fatores como qualificação profissional, eficiência das empresas, infraestrutura, inovação e investimentos. A construção de uma agenda de longo prazo também exigirá articulação política para avançar em diferentes áreas.
- Juros e endividamento: famílias e empresas ainda enfrentam o impacto de dívidas acumuladas em um ambiente de taxas elevadas. A criação de condições para uma redução sustentável dos juros pode contribuir para recuperar o crédito, o consumo e os investimentos.
- Reformas e ambiente de negócios: mudanças tributárias, redução de burocracias e maior previsibilidade das regras aparecem entre os pontos discutidos pelos especialistas. O avanço dessas medidas depende da formação de maioria política no Congresso e pode influenciar decisões de investimento e competitividade.
- Relações internacionais: o Brasil também precisará lidar com um cenário externo marcado por disputas geopolíticas. A manutenção de relações comerciais e econômicas com parceiros estratégicos, especialmente Estados Unidos e China, deverá ser conciliada com os interesses brasileiros.
- Investimentos e infraestrutura: transporte, energia e saneamento estão entre os setores que demandam recursos para ampliar a capacidade produtiva. O desafio será estimular investimentos sem comprometer o processo de reorganização das contas públicas.
Ajuste fiscal se conecta a outras áreas
A discussão sobre as contas públicas, portanto, não está isolada dos demais problemas econômicos. O resultado fiscal influencia o custo de financiamento do governo e pode repercutir sobre juros, crédito e investimentos, enquanto decisões em infraestrutura, produtividade e reformas também afetam a capacidade de crescimento do país.
Nesse contexto, o próximo governo terá de lidar simultaneamente com a necessidade de reorganizar as finanças brasileiras e questões estruturais que exigem resultados no médio e no longo prazo. As escolhas feitas nesse período deverão definir parte importante das condições para o crescimento econômico nos próximos anos.
