Documentos digitais comprovam que Alexandre de Moraes alterou contrato de R$ 131 milhões entre esposa e Daniel Vorcaro
Metadados extraídos em investigação mostram participação do ministro do STF na edição do instrumento; escritório Barci de Moraes afirma ter consultado o magistrado
Análise de metadados revelou que o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, participou da edição de um contrato de R$ 130 milhões firmado entre o escritório de sua esposa, Viviane Barci de Moraes, e o empresário Daniel Vorcaro. A descoberta foi publicada por O Estado de S. Paulo e confirmada pela TV Globo.
Os registros digitais foram obtidos durante investigações a partir do celular de Vorcaro. O arquivo foi enviado pela esposa do ministro via WhatsApp, e suas propriedades técnicas revelam quem realizou cada alteração no documento e em que momento.
Cronologia das edições
Viviane Barci de Moraes compartilhou a minuta inicial do contrato em 11 de janeiro de 2024, às 17h30. Vorcaro devolveu o documento com suas observações em 15 de janeiro, às 21h22. Uma última modificação ocorreu naquele mesmo dia, cerca de uma hora e quarenta minutos depois, às 23h04.
Segundo análise da Polícia Federal sobre as propriedades do arquivo no Microsoft Office 365, o documento registra quem efetuou cada mudança. Guilherme Benazzi, administrador do escritório Barci de Moraes, aparece como autor na versão inicial.
“O arquivo compartilhado (‘MINUTA DE CONTRATO’) aponta em seus metadados como autor usuário denominado Guilherme Benazzi e a última modificação realizada por usuário denominado ‘Ministro Alexandre de Moraes’, às 16h30 – 03:00 do dia 11/01/2024”
O instrumento previa que o escritório Barci de Moraes forneceria serviços de consultoria jurídica e assessoria estratégica ao Banco Master. Os honorários globais contratados chegaram a R$ 130 milhões.
Alexandre de Moraes e sua esposa Viviane (Foto: reprodução/Getty Images Embed/EVARISTO SA)
Posição da defesa
O escritório Barci de Moraes confirmou que Moraes acessou e editou o contrato. Conforme comunicado da defesa, o setor de conformidade do banco solicitou ao ministro informações sobre possíveis impedimentos legais antes de assinar o documento, consultando-o na qualidade de marido da sócia diretora.
A compliance questionou se havia ações em andamento no STF ou participações em julgamentos que criassem conflito de interesses. A amplitude da contratação justificou o pedido por informações claras.
Após análise, o escritório concluiu não haver impedimentos. De acordo com a defesa, Moraes nunca presidiu julgamentos envolvendo o Banco Master. Com esse parecer, o contrato foi assinado e os serviços foram executados.
“Diante da inexistência de previsão de atuação no STF ou de qualquer impedimento legal, uma vez que o Ministro Alexandre de Moraes jamais julgou qualquer causa envolvendo o Banco Master, o contrato foi assinado e os serviços advocatícios devidamente prestados”
Como a informação foi descoberta
Os metadados foram obtidos durante a Operação Compliance Zero, desencadeada pela Polícia Federal em novembro de 2025. A análise técnica das propriedades do arquivo permitiu extrair informações sobre cada modificação, seus autores e horários exatos.
A sequência de trocas iniciou-se em 11 de janeiro de 2024 e culminou com a versão final despachada por Viviane após a atuação de Moraes. Os registros digitais documentam a participação do ministro na elaboração do instrumento. A defesa de Vorcaro não se manifestou sobre o tema.
