Facções lideram crimes ambientais em nova fronteira do poder no Amazonas

Garimpo ilegal, grilagem e tráfico de animais são as principais atividades dos grupos criminosos que buscam fortalecer seu poder no território amazonense

12 abr, 2026
Floresta Amazônica | Reprodução/Pixabay
Floresta Amazônica | Reprodução/Pixabay

A região do Amazonas há tempos tem servido como ponto central para o desenvolvimento de práticas criminosas comandadas por diferentes facções, como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC), que ampliam seu poder de forma contínua. Devido à localização estratégica da região, também ocorre a disseminação de atividades ilegais em parceria com países vizinhos, como Colômbia e Peru.

Crimes ambientais como foco principal

A coleta de dados da Cartografia da Violência na Amazônia 2025, divulgada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, aponta uma mudança no foco de atuação das facções criminosas, especialmente do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC). Antes concentradas nas rotas do tráfico de drogas, essas organizações passaram a direcionar esforços para os crimes ambientais.

Esse redirecionamento tem se consolidado como estratégia de lavagem de dinheiro, moeda de troca e fortalecimento das estruturas criminosas. Até o momento, três municípios apresentam predominância dessas práticas: Humaitá, Lábrea e Manicoré.

O ouro extraído de forma ilegal, por exemplo, além de impulsionar o garimpo clandestino, passou a ser utilizado como ativo nas negociações. A ele se somam atividades como a extração irregular de madeira, o tráfico de animais e a grilagem de terras, que sustentam a troca por armas e drogas importadas, ampliando o poder econômico dessas organizações.


Ouro obtido pela prática de garimpo ilegal (Foto: reprodução/Getty Images Embed/CARL DE SOUZA)


De acordo com o coronel Francisco Xavier, do Instituto Brasileiro de Segurança Pública, a expansão do CV e do PCC no estado está ligada à diversificação das atividades para além do narcotráfico, ao uso de áreas de garimpo como refúgio para foragidos e ao compartilhamento da estrutura logística com o tráfico. Esse modelo, conhecido como “sistema híbrido”, permite que drogas, ouro, madeira e armamentos circulem pelas mesmas rotas e utilizem a mesma infraestrutura.

Durante entrevista ao G1, o chefe da delegacia do meio ambiente do Amazonas, Rafael Grummt, reforçou a gravidade do cenário: “O avanço de facções como PCC e CV no Amazonas não se limita ao tráfico de drogas. Hoje, as facções geram bilhões em prejuízos ao meio ambiente e à União.”, disse Grummt.

Na mesma linha, a pesquisadora sênior do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Adriana Natal, destaca que fatores como a extensão territorial do Amazonas, as rotas fluviais e as pistas clandestinas favorecem tanto o avanço do tráfico quanto das infrações ambientais.

Relatos de agentes que atuam na região também indicam impactos diretos nas comunidades locais. Uma representante do ICMBio observa: “Tem-se observado o aumento do consumo de drogas, não somente ele, mas também a venda [tráfico], quase sempre associados ao alto consumo de álcool.”

Esse cenário revela não apenas a ampliação do controle dessas organizações sobre a população, mas também o fortalecimento de um ambiente de medo. Investigações mostram que o narcotráfico passou a operar integrado a um conjunto de crimes ambientais, que funcionam simultaneamente como fonte de recursos e mecanismo de lavagem de dinheiro.

Ainda segundo Grummt, o enfrentamento ao crime organizado na região exige mais do que ações pontuais de repressão, sendo fundamental atingir a base financeira dessas organizações, com rastreamento de recursos e responsabilização dos envolvidos. Diante dessa nova dinâmica, a atuação da Polícia Federal se torna mais complexa, deixando de se concentrar apenas na execução dos crimes para avançar sobre a estrutura econômica que sustenta e fortalece essas redes ilegais.

Fortalecimento das facções criminosas no amazonas

O fortalecimento das facções no Amazonas está diretamente relacionado à expansão territorial e à ausência de respostas efetivas por parte do poder público. A falta de ações consistentes intensifica o cenário de risco enfrentado pelas comunidades locais e pelos agentes de fiscalização, que atuam sob constante tensão.

Em novembro de 2025, um parlamentar solicitou esclarecimentos ao Ministério da Justiça e Segurança Pública sobre o avanço dessas organizações na região. O alerta também destacou os riscos de uma expansão descontrolada em um território estratégico, com impactos diretos na segurança pública, na soberania nacional e na capacidade do Estado de exercer controle efetivo.

Dados apresentados pelo parlamento indicam que a presença dessas facções cresceu quase 50% em aproximadamente dois anos, passando de 178 para 344 municípios amazonenses. Apesar disso, o governo ainda não apresentou explicações claras que justifiquem esse avanço.

Mesmo com operações em andamento, os resultados têm se mostrado limitados diante da velocidade de crescimento desses grupos. Diante desse cenário, o deputado Alberto Neto manifestou preocupação com a soberania nas regiões de fronteira e com a segurança da população do Norte, afirmando que “quando o Estado recua, o crime cresce.”

Como reflexo desse processo, os conflitos entre organizações criminosas ultrapassam as esferas política e ambiental, atingindo diretamente o tecido social. Povos indígenas e comunidades tradicionais encontram-se em situação de extrema vulnerabilidade, enquanto a consolidação dessas facções contribui para a construção de uma imagem negativa associada à região amazônica.

Investigações recentes apontam o avanço da infiltração criminosa em estruturas institucionais. Em março, foram cumpridos 23 mandados de prisão relacionados a um esquema de cunho político que envolvia integrantes dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário do estado, ligados ao tráfico de drogas. Especialistas alertam que o avanço descontrolado dessas organizações em áreas de fronteira representa risco direto à soberania nacional e à capacidade do Estado de manter o controle territorial.

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