Crise na ONU reduz empregos e ameaça assistência a refugiados no Brasil
Com a diminuição de recursos e as pressões dos Estados Unidos, programas humanitários enfrentam dificuldades em meio à crise financeira
A crise financeira da Organização das Nações Unidas (ONU) gera um alerta para a continuidade de programas humanitários e reduz a capacidade de atendimento a populações vulneráveis. No Brasil, o financiamento insuficiente do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) já restringe o acesso de pessoas refugiadas a serviços de apoio. O problema faz parte de um cenário internacional de redução de doações, cortes de pessoal e atrasos nas contribuições dos países-membros.
Até o fim de agosto de 2026, o ACNUR havia recebido apenas 22% do orçamento necessário para manter suas operações no Brasil durante o ano. Segundo o representante da agência no país, Davide Torzilli, a falta de recursos já impede que algumas pessoas tenham acesso a serviços anteriormente disponíveis, enquanto outras recebem atendimento mais limitado.
Brasil enfrenta dificuldades para manter o acolhimento
A redução do financiamento afeta organizações que oferecem apoio a famílias refugiadas, incluindo serviços relacionados a abrigo, alimentação e fornecimento de itens básicos. Em 2025, os cortes atingiram 40% da força de trabalho do ACNUR e de organizações parceiras financiadas pela agência no país, diminuindo a capacidade de atendimento.
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Crise na ONU (Vídeo: reprodução/Instagram/@portalg1/@globocom)
A restrição ocorre em um contexto de chegada de até 500 pessoas por dia ao país em busca de proteção internacional, conforme os dados apresentados pela agência. Diante da limitação orçamentária, o atendimento passou a priorizar critérios de vulnerabilidade e necessidades de proteção, deixando parte do público sem o suporte que poderia receber anteriormente.
A trajetória de Delmany Rodrigues ajuda a compreender o papel desse acolhimento. Ele chegou ao Rio de Janeiro em 1994, aos oito anos, acompanhado da mãe e do irmão, depois que a família deixou Angola devido à guerra civil. No Brasil, os três enfrentaram dificuldades financeiras e buscaram assistência para reconstruir a vida.
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Delmany Rodrigues (Foto: reprodução/Instagram/@dr.delmany)
Com o apoio da Cáritas e do ACNUR, Delmany recebeu auxílio para alimentação, material escolar e pagamento de aluguel. Posteriormente, bolsas de estudo possibilitaram sua formação em Educação Física e Fisioterapia. Hoje, ele tem uma clínica e trabalha como empresário, uma trajetória que evidencia como o acesso à assistência e à educação pode contribuir para a autonomia de pessoas refugiadas.
Crise financeira reduz assistência humanitária
A situação brasileira acompanha dificuldades enfrentadas pelo ACNUR em outras regiões. Em 2025, a agência solicitou US$ 10,6 bilhões para atender às necessidades de quase 130 milhões de pessoas em todo o mundo, mas arrecadou menos de 40% do montante. No ano anterior, o financiamento já havia ficado abaixo do necessário, alcançando 48% do valor solicitado.
A insuficiência dos recursos levou ao fechamento de escritórios em 140 localidades, ao encerramento de operações em 15 países e à redução de aproximadamente um terço da força de trabalho da agência. Para 2026, a estimativa é que 8,3 milhões de pessoas possam ficar sem assistência essencial.
Pessoas refugiadas (Foto: reprodução/Alan CHAVES/AFPTV/Getty Images Embed)
Os impactos incluem a redução de serviços de proteção no Afeganistão, na Síria e na Etiópia. No Chade, mais de 230 mil crianças correm o risco de perder serviços de proteção infantil. A escassez de recursos também afeta o acesso a alimentos, vacinas e educação em comunidades que dependem de ajuda humanitária.
Até o fim de julho de 2026, o ACNUR havia recebido US$ 2,7 bilhões dos US$ 8,5 bilhões necessários para financiar suas operações naquele ano, mesmo depois de reduzir o orçamento em 20%. Outro obstáculo é que mais da metade dos recursos arrecadados está vinculada a projetos definidos pelos doadores, o que limita a possibilidade de direcionar o dinheiro para outras emergências.
ONU corta milhares de postos de trabalho
As dificuldades financeiras não se restringem ao atendimento de refugiados. Dados do Conselho de Chefes Executivos das Nações Unidas indicam que o sistema da organização passou de 130.948 postos de trabalho, em 2024, para 120.176 em 2025, uma redução de aproximadamente 8%. Os cortes alcançaram 21 das 41 agências e organismos analisados.
Para este ano, foram previstas outras 2,9 mil extinções de cargos. A organização também adotou medidas de diminução de pessoal por meio de desligamentos voluntários e aposentadorias antecipadas. Entre os organismos afetados estão o ACNUR, a Organização Internacional para as Migrações (OIM) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).
Crise na ONU afeta refugiados no Brasil (Vídeo: reprodução/Youtube/@ACNUR Brasil)
Em 2025, a manutenção de todo o sistema das Nações Unidas custou US$ 64,3 bilhões, cerca de R$ 322 bilhões, valor 2% inferior ao registrado no ano anterior. Aproximadamente dois terços dos recursos foram destinados à assistência humanitária e a iniciativas de desenvolvimento.
O orçamento regular do Secretariado da ONU, responsável pela administração da organização, também sofreu redução. Para 2026, foram aprovados US$ 3,45 bilhões, aproximadamente R$ 16 bilhões, uma queda de 7% em comparação com o ano anterior. Esse montante não corresponde à totalidade dos recursos utilizados pelas diferentes agências e operações da entidade.
Estados Unidos pressionam por mudanças na organização
A falta de dinheiro é agravada pelos atrasos nas contribuições obrigatórias dos países-membros. Nos dois anos anteriores ao período analisado, os valores pendentes somaram US$ 1,6 bilhão. Os Estados Unidos estão entre os maiores devedores, embora sejam o país com a maior participação individual no orçamento regular da ONU.
Em setembro deste ano, o governo norte-americano realizou pagamentos de US$ 725 milhões referentes às contribuições regulares e outros US$ 102 milhões destinados às missões de paz. Mesmo com esses repasses, a organização informou que ainda havia US$ 1,3 bilhão em contribuições anuais pendentes, sem incluir os valores relativos às operações de paz.
Casal de refugiados venezuelanos em um abrigo do ACNUR em Boa Vista-RR, em 2018 (Foto: reprodução/EVARISTO SA/AFP/Getty Images Embed)
O presidente Donald Trump tem defendido mudanças estruturais na ONU e condicionado novos pagamentos à comprovação de avanços nas reformas. Segundo um porta-voz do Departamento de Estado dos Estados Unidos, o governo espera resultados contínuos e mensuráveis e pretende impedir que recursos norte-americanos sejam destinados a entidades consideradas contrárias aos interesses do país.
Para Uriã Fancelli, especialista em Relações Internacionais, a postura do governo representa uma forma de pressão política sobre a organização. Na avaliação dele, os EUA buscam uma estrutura menor, com menos funcionários e despesas, ao mesmo tempo que tentam ampliar sua influência sobre as decisões internacionais.
A participação dos países no orçamento regular é calculada principalmente com base em critérios econômicos, como renda nacional e renda por habitante. Em 2026, os americanos respondem por 22% das contribuições, enquanto a China representa 20%. O Brasil participa com 1,4% e quitou sua contribuição anual de US$ 44,8 milhões, aproximadamente R$ 223 milhões, em 12 de março.
Até 1º de outubro, 143 dos 193 países-membros haviam quitado as contribuições previstas para 2026. Os outros 50 ainda apresentavam pagamentos pendentes, equivalentes a quase um quarto do total que deveria ser arrecadado naquele ano.
Projetos no Brasil recebem recursos de outras fontes
Apesar das dificuldades enfrentadas pelo ACNUR, o conjunto de iniciativas das Nações Unidas no Brasil recebeu mais recursos em 2025 do que no ano anterior. Os investimentos chegaram a US$ 213 milhões, aproximadamente R$ 1 bilhão, um aumento de 37%. Ao longo do ano, foram implementados 338 projetos relacionados a áreas como saúde, combate à pobreza, agricultura familiar e assistência social.
Saiba a opnião de especialista sobre refugiados no Brasil (Vídeo: reprodução/Youtube/@G1)
O governo federal destinou US$ 106,1 milhões a ações de desenvolvimento sustentável e à implementação da Agenda 2030, programa que reúne 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Outros parceiros internacionais, incluindo Alemanha, Luxemburgo e Reino Unido, também contribuíram para iniciativas no país.
A União Europeia destinou US$ 1,3 milhão ao governo brasileiro em 2025. Já o Canadá repassou cerca de R$ 59 milhões ao Fundo Brasil-ONU para o Desenvolvimento Sustentável da Amazônia, com parte dos recursos voltada à proteção de crianças e adolescentes por meio de serviços de saúde e educação.
Esses investimentos ajudam a manter projetos de desenvolvimento, mas não eliminam a necessidade de financiamento específico para o acolhimento de refugiados e amenizar a crise. A continuidade da assistência depende de recursos suficientes para sustentar equipes, garantir serviços essenciais e atender pessoas que precisam de proteção internacional.
