Drones e tropas: EUA ampliam presença na América Latina
Governo Trump envia soldados para treinamentos na região, enquanto especialistas alertam para riscos a civis e questionam os objetivos do uso de drones
Os Estados Unidos ampliam sua atuação militar na América Latina com o envio de drones e pelo menos 600 soldados para atividades de treinamento e cooperação com forças locais. A iniciativa do governo Donald Trump tem como justificativa o combate ao narcotráfico, mas também envolve a disputa de influência com a China e levanta questionamentos sobre a soberania regional.
Segundo o The New York Times, os soldados serão enviados ao Panamá, à Colômbia e a Honduras. A movimentação ocorre após a transferência de drones MQ-9 Reaper da África para o Equador e a Colômbia, onde os equipamentos devem ser utilizados em operações de combate ao narcotráfico.
Como será a atuação dos militares e drones
Os primeiros militares americanos começaram a ser enviados para um centro de treinamento no Panamá. Na sequência, parte do contingente participará de exercícios na Colômbia, previstos para começar ainda em outubro, enquanto outros integrantes seguirão para Honduras.
De acordo com o cientista político Maurício Santoro, doutor em Ciência Política pelo Iuperj e colaborador do Centro de Estudos Político-Estratégicos da Marinha do Brasil, os americanos devem atuar principalmente como assessores das forças locais. A execução direta das operações ficará sob responsabilidade das Forças Armadas e das polícias dos países parceiros.
Drones e soldados americanos enviados para América Latina (Vídeo: reprodução/Youtube/@Times Brasil)
A cooperação está relacionada ao Escudo das Américas, iniciativa do governo Trump para combater o crime organizado na região. O Brasil não faz parte do grupo.
A Colômbia e o Equador enfrentam a atuação de organizações criminosas classificadas como terroristas pelo governo americano. O envio dos drones para esses países faz parte das ações anunciadas por Washington contra o narcotráfico.
A presença militar dos EUA na região não se restringe aos novos deslocamentos. Um levantamento do g1 aponta que o país realizou treinamentos e exercícios em pelo menos 21 países da América Latina e do Caribe em 2026. Em março de 2024, dados do Congresso americano registravam cerca de 1.650 militares ativos na região.
Disputa geopolítica e riscos das operações
Para Santoro, o combate ao narcotráfico não explica sozinho o aumento do envolvimento militar americano. A disputa geopolítica com a China também contribui para a estratégia de Washington, que busca manter sua influência na América Latina diante da crescente presença chinesa na região.
A ampliação das operações gera questionamentos sobre a eficácia dos ataques contra integrantes de organizações criminosas. Especialistas ouvidos pelo The New York Times colocam em dúvida se a morte de membros desses grupos é suficiente para reduzir o tráfico de drogas.
Soldados e drones (Foto: reprodução/Getty Images Embed/Alex Kraus/Bloomberg)
Organizações de direitos humanos também alertam para o risco de vítimas civis caso os ataques sejam ampliados para alvos em terra. Outro ponto de preocupação é a soberania dos países latino-americanos, especialmente diante do histórico de intervenções militares dos EUA na região.
Segundo o jornal, integrantes do próprio governo americano questionam a falta de objetivos claramente definidos para o envio das tropas. Embora o deslocamento anunciado seja temporário, autoridades ouvidas pela publicação não descartam que as rotações de militares se tornem permanentes.
O Comando Sul dos EUA foi questionado pelo portal G1 sobre o número de militares americanos, mas não havia respondido até a última atualização da reportagem.
