Eleitorado negro cresce para 20,5 milhões em 2026, maior registro da Justiça Eleitoral

Dados do TSE mostram que pretos e pardos aumentaram quase o dobro desde 2022, impulsionados por políticas de combate ao racismo e mobilização do movimento negro

20 jul, 2026
Mulher detém o Título Eleitoral | Reprodução/Unsplash/Rafapress
Mulher detém o Título Eleitoral | Reprodução/Unsplash/Rafapress

O Tribunal Superior Eleitoral anunciou nesta segunda-feira (20) o quantitativo definitivo de eleitores para 2026: 158,7 milhões de brasileiros em condições de votar, dos quais 20,5 milhões se autodeclararam pretos ou pardos. Trata-se do maior contingente de eleitores negros que a Justiça Eleitoral já registrou desde que passou a coletar sistematicamente essa informação.

O crescimento do eleitorado total foi de 1,46% comparado a 2022, quando alcançava 156,4 milhões de votantes. Isso significa 2,29 milhões de novos eleitores em quatro anos.

A coleta de dados sobre raça e cor funciona por autodeclaração no cadastro eleitoral. Comparações históricas são possíveis apenas a partir de 2022, quando o TSE iniciou a coleta sistemática desses registros.

Os números detrás do crescimento

Pardos aumentaram de 8,5 milhões para 16,9 milhões, quase duplicando sua participação. Pretos cresceram de 1,8 milhão para 3,6 milhões, também chegando a dois dígitos. Amarelos subiram de 114,4 mil para 229,5 mil. Indígenas passaram de 155,7 mil para 287,1 mil, um aumento de 84,47%. Brancos evoluíram de 5,3 milhões para 11,7 milhões.

O contingente de eleitores sem informação sobre raça ou cor recuou de 140 milhões para 126 milhões.

Uma perspectiva contextual: segundo o Censo 2022 do IBGE, a população negra no Brasil totaliza 112,7 milhões, representando 55,5% da população. Os 20,5 milhões de eleitores negros refletem apenas aqueles em plenas condições legais para votar.

O que explica a autodeclaração crescente

Vera Lúcia Santana Araújo, ex-ministra do Tribunal Superior Eleitoral, atribui o aumento a políticas de combate ao racismo e ao trabalho de mobilização do movimento negro. Historicamente, segundo ela, a identidade negra foi ligada a aspectos negativos, desestimulando autodeclarações.

“Ser negro no Brasil, que é racista, significa ser excluído, ter a autoestima baixa. Você opera na negatividade porque a estética negra é desqualificada”, disse Vera Lúcia Santana Araújo.

Para Vera, quando a identidade é trabalhada de forma afirmativa, muda a autoimagem. “Trabalhar afirmativamente a identidade negra, com medidas de inclusão, eu me passo a me ver de maneira elevada. Essa sociedade tem que me ver, respeitar, me reconhecer como mulher negra, eu passo a me afirmar socialmente”, complementou.

Ela menciona a Primeira Marcha das Mulheres Negras, realizada em Brasília em 2015 com 50 mil participantes, como ponto de inflexão na mobilização coletiva. O evento foi repetido em 2024. Vera encerra com uma consigna do movimento: “Fora do coletivo não há saída”.


Eleitores se registram para votar em uma seção eleitoral (Foto: reprodução/Dado Galdieri/Getty Images Embed)


Eleitores em 2026: o que está em jogo

Os pleitos definirão presidente, vice, 27 governadores e respectivos vices, 513 deputados federais, 54 senadores (dois terços do Senado), 1.035 deputados estaduais e 24 deputados distritais. A Câmara dos Deputados será integralmente renovada.

O primeiro turno está marcado para 4 de outubro. Caso necessário, o segundo turno para cargos majoritários acontecerá em 25 de outubro.

O voto é obrigatório para maiores de 18 anos. Isentos são analfabetos, eleitores entre 16 e 17 anos e maiores de 70. Ausências implicam multa de 3% a 10% sobre R$ 35,13, passível de aumento até dez vezes conforme situação econômica. Três faltas consecutivas acarretam proibição de emissão de passaporte, identidade e participação em concursos públicos.

Mais notícias