Espanha escolta imigrantes para fora de Ceuta e cria barreira no mar contra chegadas a nado
Mais de 48 das 50 mil pessoas que entraram no enclave espanhol desde quinta-feira já retornaram ao Marrocos; pelo menos 67 morreram durante a crise
A Espanha conseguiu interromper o fluxo de imigrantes em Ceuta neste sábado (1). Segundo o governo espanhol, mais de 48 das 50 mil pessoas que entraram desde a última quinta-feira (30) já retornaram ao Marrocos. A situação está quase de volta ao normal, apesar de o número de mortes durante a grande entrada em massa ter chegado a pelo menos 67.
O ministro do Interior espanhol, Fernando Grande-Marlaska, confirmou a reversão da crise. “Quase todos eles já deixaram Ceuta. A situação se inverteu quase completamente”, afirmou.
Operações de retorno em andamento
Soldados e policiais espanhóis patrulham a praia de Tarajal, onde milhares de marroquinos chegaram a nado durante a crise. Os imigrantes são escoltados de volta para o outro lado da fronteira em operações que continuam em andamento.
A Guarda Civil instalou uma barreira flutuante de 500 metros para impedir novas chegadas. A estrutura foi projetada para ficar de 30 a 70 centímetros acima da água e se estende até um metro abaixo da superfície, deixando um canal pelo qual a Guarda Civil consegue patrulhar a área.
Tentativa de migração em massa termina em frustração
Muitos dos imigrantes foram levados a migrar por dificuldades econômicas no Marrocos. Segundo relatos coletados, boatos nas redes sociais incentivaram a tentativa de travessia em massa, com promessas de vida melhor na Europa.
Brahim Karroubi, um dos imigrantes que tentou entrar, descreveu a decepção com o que encontrou. “Eu queria ter uma vida melhor, mas aqui só encontrei fome e miséria. Queria me juntar à minha mãe na Espanha. Tudo estava fechado, inclusive os cafés. Um cigarro custava 2 euros, uma baguete custava 3 euros. Isso é demais”, lamentou.
Outro imigrante, Mohamed, de 27 anos, decidiu retornar após perceber que não havia oportunidades. “Vou voltar. Não há nada para fazer aqui. Os habitantes de Ceuta nos trataram mal, estamos com fome. As lojas estão fechadas”, acrescentou.
Centenas de migrantes tentaram nadar do Marrocos até a cidade espanhola de Ceuta, no norte da África (Foto: reprodução/ Anadolu/ Getty Images Embed)
Reação dos moradores locais
Os moradores de Ceuta se mostraram aliviados com a volta à normalidade, mas continuam se sentindo inseguros. Um deles afirmou que a chegada de 60 mil pessoas em menos de uma hora foi inaceitável.
A garçonete Marina Castano resumiu o sentimento dos locais. “Embora as coisas tenham se acalmado um pouco, Ceuta continua sendo insegura e ainda precisamos da polícia e dos militares, porque isso é um aviso de que eles podem nos invadir quando quiserem”, disse.
Ceuta é um território autônomo espanhol localizado no norte da África, integrado à União Europeia. Junto com Melilla, é um dos únicos territórios do bloco europeu que faz fronteira terrestre com a África, ficando na costa do Mediterrâneo, em frente ao Estreito de Gibraltar. Marrocos reivindica a soberania sobre o enclave há séculos, o que gera atritos diplomáticos recorrentes.
Para muitos migrantes, entrar em Ceuta representa a primeira porta de acesso à União Europeia. Essa realidade explica por que o enclave é alvo constante de tentativas de travessia.
Vinte e dois líderes da União Europeia pediram uma videoconferência de urgência para discutir a crise. Ministros do Interior do bloco se reuniram para avaliar a situação migratória.
Os líderes europeus reiteraram que travessias em massa não podem transmitir a ideia de que é possível entrar ilegalmente na União Europeia. Segundo a posição do bloco, entrada ilegal não pode se transformar em permanência legal. A barreira instalada funciona como medida de contenção imediata, mas a questão migratória permanece como desafio estrutural para a Europa.
