Especialista Brasileiro Avalia Designação do PCC e Comando Vermelho como Organizações Terroristas pelos Estados Unidos

Especialista Carlos Eduardo da Silva afirma que decisão dos Estados Unidos amplia pressão internacional sobre estruturas financeiras, logísticas e operacionais do PCC e do Comando Vermelho

29 maio, 2026
Carlos Eduardo da Silva
Carlos Eduardo da Silva

A recente decisão do governo dos Estados Unidos de designar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas representa um dos movimentos mais significativos da política de segurança internacional voltada para a América Latina nas últimas décadas. A medida reflete uma mudança importante na forma como Washington enxerga as maiores organizações criminosas brasileiras, reconhecendo que sua capacidade de influência, expansão territorial e impacto sobre a estabilidade regional ultrapassou há muito tempo os limites do crime convencional.

Para compreender as implicações dessa decisão, nossa reportagem conversou com o especialista brasileiro em crime organizado e inteligência estratégica Carlos Eduardo da Silva, ex-investigador da Polícia Civil do Estado de São Paulo, com mais de duas décadas de atuação em unidades especializadas de combate ao narcotráfico e ao crime organizado.

Ao longo de sua carreira, Silva participou de investigações relacionadas ao PCC, acompanhando de perto a evolução da organização desde sua consolidação no sistema prisional paulista até sua transformação em uma estrutura criminosa transnacional já com influência em diversos países.

Segundo o especialista, a designação norte-americana não surgiu de forma repentina. Ela representa o reconhecimento formal de um fenômeno que vem sendo observado por investigadores e analistas de segurança há muitos anos.

“Durante décadas, grande parte da comunidade internacional enxergou essas organizações apenas como facções criminosas envolvidas com tráfico de drogas. Essa visão tornou-se insuficiente para explicar a capacidade operacional, financeira e logística que esses grupos desenvolveram ao longo do tempo”, afirma Silva.

Na avaliação do especialista, um dos principais equívocos cometidos por observadores estrangeiros foi analisar o PCC apenas como uma gangue prisional. Para ele, a organização evoluiu para um sistema criminal altamente estruturado, capaz de controlar territórios, regular mercados ilícitos, impor normas internas e administrar complexas cadeias logísticas utilizadas para movimentação de drogas, armas, dinheiro e mercadorias ilegais.

“O PCC não pode ser compreendido apenas pela ótica tradicional do crime organizado. Trata-se de uma estrutura que desenvolveu mecanismos próprios de governança, disciplina interna, resolução de conflitos e expansão estratégica”, explica.

Silva destaca que o crescimento do PCC ocorreu de forma gradual, aproveitando vulnerabilidades institucionais, deficiências do sistema prisional e oportunidades criadas pela globalização das cadeias ilícitas. O resultado foi o surgimento de uma organização com capacidade de operar simultaneamente em diferentes estados brasileiros e em diversos países da América do Sul.


Especialista Brasileiro Avalia Designação do PCC e Comando Vermelho como Organizações Terroristas pelos Estados Unidos


O especialista ressalta que a decisão dos Estados Unidos não significa apenas uma mudança de nomenclatura jurídica. Na prática, ela pode ampliar significativamente as ferramentas disponíveis para o enfrentamento dessas organizações.

“A classificação como organização terrorista permite a utilização de mecanismos adicionais de cooperação internacional, sanções financeiras, compartilhamento de inteligência e medidas voltadas para a identificação de facilitadores, financiadores e colaboradores”, observa.

Segundo ele, um dos aspectos mais relevantes da medida está relacionado ao combate financeiro. Embora o tráfico de drogas continue sendo uma das principais fontes de receita dessas organizações, sua sobrevivência depende cada vez mais de estruturas complexas de lavagem de dinheiro, empresas de fachada, operadores financeiros e redes de apoio que atuam tanto dentro quanto fora do Brasil.

“A experiência internacional demonstra que organizações criminosas podem absorver perdas operacionais. O que realmente compromete sua capacidade de sobrevivência é a interrupção dos fluxos financeiros que sustentam suas atividades”, afirma.

Ao analisar especificamente o PCC, Silva observa que sua expansão foi impulsionada por uma combinação de disciplina organizacional, capacidade logística e adaptação constante às ações repressivas do Estado.

Ele destaca que, diferentemente de modelos criminais mais fragmentados, o PCC desenvolveu uma estrutura capaz de coordenar atividades em larga escala, conectando áreas de produção de cocaína nos países andinos a rotas de transporte, centros de distribuição e mercados consumidores.

“Grande parte da força da organização não está apenas nos indivíduos que a compõem, mas na rede de relacionamentos, rotas, facilitadores e mecanismos logísticos que ela construiu ao longo dos anos”, explica.

Em relação ao Comando Vermelho, Silva observa que o grupo mantém papel relevante em diversos mercados ilícitos e continua exercendo forte influência em determinadas regiões do Brasil. Embora possua características organizacionais distintas do PCC, sua atuação também ultrapassa as fronteiras do crime local e produz impactos significativos na segurança regional.

Para o especialista, um dos maiores desafios para as autoridades será evitar análises simplificadas do problema.

“Não estamos diante apenas de grupos criminosos isolados. Estamos diante de ecossistemas criminais complexos que exploram vulnerabilidades econômicas, sociais, institucionais e logísticas. O combate efetivo exige uma abordagem igualmente sistêmica”, afirma.

Silva também acredita que a decisão norte-americana pode provocar mudanças importantes na cooperação internacional envolvendo países da América Latina.

Segundo ele, organizações como PCC e Comando Vermelho operam em ambientes transnacionais e utilizam múltiplas jurisdições para reduzir riscos, movimentar recursos e ampliar suas atividades. Isso torna indispensável o fortalecimento dos mecanismos de inteligência compartilhada entre diferentes governos.

“A cooperação internacional não pode se limitar à troca ocasional de informações. Ela precisa funcionar como um fluxo contínuo de inteligência, capaz de acompanhar a velocidade com que essas organizações se adaptam”, ressalta.

Ao longo da entrevista, o especialista enfatizou que o principal valor da designação realizada pelos Estados Unidos talvez esteja no reconhecimento de que o fenômeno já não pode ser tratado apenas como uma questão doméstica brasileira.

“O impacto dessas organizações ultrapassa fronteiras. Suas atividades afetam cadeias logísticas internacionais, mercados financeiros, fluxos comerciais e a segurança de diversos países. A decisão dos Estados Unidos demonstra que essa realidade passou a ser reconhecida em nível estratégico”, afirma.

Para Silva, o debate agora deve avançar para além das classificações jurídicas e concentrar-se na construção de estratégias capazes de enfrentar as condições que permitem a expansão dessas estruturas.

“Prender lideranças continua sendo importante. Realizar apreensões continua sendo importante. Mas o verdadeiro desafio estratégico consiste em identificar e modificar os sistemas que permitem a sobrevivência dessas organizações. Enquanto essas estruturas permanecerem intactas, novos atores continuarão ocupando os espaços deixados pelos que forem removidos.”

A designação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas pelos Estados Unidos representa, portanto, mais do que uma mudança formal de classificação. Para especialistas como Carlos Eduardo da Silva, trata-se de um reconhecimento internacional de que o crime organizado contemporâneo evoluiu para um fenômeno complexo, adaptável e transnacional, exigindo respostas igualmente sofisticadas por parte dos governos, instituições de segurança e organismos internacionais.

Sobre a fonte

Carlos Eduardo da Silva é ex-investigador da Polícia Civil do Estado de São Paulo, com mais de duas décadas de atuação em unidades especializadas de combate ao crime organizado e ao tráfico de drogas, incluindo o DEIC e o DENARC. Atuou diretamente em investigações relacionadas ao narcotráfico, estruturas financeiras ilícitas e organizações criminosas com atuação interestadual e transnacional.

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