EUA lideram grupo que inclui facções do Brasil como ameaça
Aliança Escudo das Américas aprova sanções contra PCC e CV; Brasil contesta classificação dos EUA sobre facções como entidades terroristas
Nesta terça-feira (22), foi formalizado pelos países integrantes da aliança Escudo das Américas, liderada pelos EUA, um pacto para classificar organizações ligadas ao tráfico de drogas como “ameaças compartilhadas”, o que abriu caminho para a aplicação de sanções a esses grupos. Essa medida abrange 24 organizações criminosas, incluindo as facções brasileiras Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC).
O bloco reúne gestões com alinhamento ideológico à administração norte-americana atual, contando com a participação de nações sul-americanas que fazem fronteira com o Brasil, como por exemplo Bolívia, Peru e Argentina. Sua idealização aconteceu em março deste ano, quando a iniciativa surgiu após um encontro de chefes de Estado promovido pelo presidente estadunidense Donald Trump em seu resort localizado no estado da Flórida.
Alinhamento político e plano de sanções
Lideranças de esquerda como os presidentes Gustavo Petro, da Colômbia, Delcy Rodríguez, da Venezuela, e Claudia Sheinbaum, do México, além de Luiz Inácio Lula da Silva (Lula), não receberam convites para o encontro de fundação da aliança continental. Porém, logo após Abelardo de la Espriella assumir a gestão, a Colômbia aderiu ao grupo posteriormente. O surgimento do bloco é associado por especialistas a uma estratégia da gestão Trump para consolidar a hegemonia e a influência dos Estados Unidos sobre as nações americanas (Doutrina Monroe).
Escudo das Américas (Foto: reprodução/Getty Images Embed/Saul Loeb)
O documento oficializa as penalidades contra grupos criminosos que incluem o CV e o PCC, contando com a chancela de 15 países, como EUA, Argentina, Paraguai, Guiana, El Salvador, entre outros. Publicada pelo Departamento de Estado norte-americano, a declaração conjunta dos integrantes do bloco enfatiza o perigo global e iminente dessas redes narcoterroristas que expandem suas atividades criminosas além de suas fronteiras, ameaçando a estabilidade, a proteção e o progresso da região, marcando o início das intervenções diretas e coordenadas contra o narcotráfico no Novo Mundo.
Com uma postura que resgata a histórica Doutrina Monroe do século 19 ao reforçar o continente como zona de influência exclusiva norte-americana, que é frequentemente referida como seu “quintal” por integrantes da Casa Branca, Donald Trump se comprometeu a erradicar a “interferência externa” nas Américas, admitindo a possibilidade de acionar as forças armadas dos EUA para esse fim. Essa visão intervencionista contrasta diretamente com a mensagem apresentada minutos antes, também no plenário da ONU, pelo presidente Lula, que na ocasião defendeu o multilateralismo, a não interferência interna e o respeito à soberania das nações.
Desacordos sobre o enquadramento de terrorismo
O governo brasileiro rejeita o rótulo atribuído por Washington às facções sediadas em seu território como “terroristas globais”, tendo como base e contraponto para essa classificação as leis nacionais, que tipificam o terrorismo como ações violentas motivadas por preconceito, xenofobia ou discriminação de raça, cor, etnia e religião com o objetivo de incitar pânico social e ameaçar a paz pública, critério em que os grupos narcotraficantes não se enquadram.
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Em Nova York, segunda reunião do Escudo das Américas (Foto: reprodução/Instagram/@whitehouse)
Essa divergência já havia sido abordada em maio do ano anterior por Mario Sarrubbo, então secretário nacional de Segurança Pública, que respondeu aos questionamentos de uma delegação norte-americana no Ministério da Justiça. Na ocasião, o representante explicou que os grupos criminosos do Brasil restringem suas ações ao cometimento de delitos e à lavagem de dinheiro, sem possuírem motivações políticas, ideológicas ou religiosas e tampouco visando alterar o regime governamental.
Países membros
A aliança Escudo das Américas consolida um bloco de cooperação regional focado no combate ao narcotráfico e na aplicação de sanções. Liderada pelos Estados Unidos, a iniciativa engloba nações da América do Norte e da América Central, como Belize, Costa Rica, El Salvador, Honduras e Panamá, estabelecendo medidas severas de restrição financeira, migratória e logística contra as organizações criminosas mapeadas.
Tal iniciativa ganha ainda mais amplitude com a massiva adesão de países da América do Sul, como Argentina, Bolívia, Colômbia, Guiana, Paraguai e Peru, além de Chile e Equador. Ao integrar esse grupo de nações sul-americanas, o pacto cria um cerco estratégico unificado e uma rede integrada de inteligência para neutralizar a expansão do narcotráfico em todo o continente.
