Habib’s, Casas Bahia e Grupo Toky: entenda o que está por trás da onda de recuperações judiciais no país

Grupo controla 119 lojas próprias do Habib’s, 26 do Ragazzo e 6 churrascarias Tendall; empresa tem 60 dias para apresentar plano de reestruturação

27 ago, 2026
Loja do Habib's I Reprodução/Instagram/@habibspnz
Loja do Habib's I Reprodução/Instagram/@habibspnz

O Grupo Gennius, controlador das redes Habib’s, Ragazzo e Tendall Grill, entrou em recuperação judicial em 24 de agosto de 2026. A Justiça de São Paulo aceitou o pedido no dia seguinte. A dívida declarada é de valor não divulgado, embora o grupo reconheça que o total ultrapassa R$ 300 milhões, conforme O Globo apurou. A KPMG foi nomeada administradora judicial do processo.

A recuperação envolve 178 empresas, entre elas 119 lojas próprias do Habib’s, 26 unidades do Ragazzo e 6 churrascarias Tendall. O grupo também inclui 10 franqueadoras e holdings, além de 17 sociedades operacionais. Alberto Saraiva e Belchior Saraiva comandam a estrutura.

As operações seguem funcionando normalmente. Lojas continuam abertas e o atendimento aos clientes é mantido, segundo a empresa. Nenhum fechamento ou redução de quadro foi anunciado.

O que muda agora

O grupo tem 60 dias para apresentar um plano de recuperação judicial, sob pena de o processo ser convertido em falência. O prazo começa a contar do protocolo do pedido. A KPMG tem 15 dias para entregar um relatório inicial sobre a situação das empresas. O juiz Jomar Juarez Amorim, que proferiu a decisão, também determinou a suspensão de ações e execuções contra as empresas durante o período de reestruturação.

O plano precisará demonstrar como o grupo pretende se reorganizar e pagar os credores. Se não cumprir o cronograma, a transformação em falência é automática.


Loja Casas Bahia (Foto: reprodução/ Bloomberg/ Getty Images Embed)


Por que chegou aqui

O Grupo Gennius aponta a pandemia de Covid-19 como marco inicial da crise. O movimento em shoppings e centros urbanos caiu significativamente durante o lockdown. Além disso, a adoção em massa do trabalho remoto reduziu o fluxo de consumo fora de casa. A empresa havia investido em expansão de lojas antes desse período, ampliando custos fixos que depois não conseguiu cobrir.

A alta das taxas de juros dificultou o acesso a crédito para financiar operações. Simultaneamente, o crescimento de aplicativos de delivery impactou o modelo tradicional de restaurante, pressionando as margens.

A onda de recuperações

O Habib’s não está sozinho. De acordo com a Serasa Experian, em 2025 foram apresentados 977 processos de recuperação judicial à Justiça, um recorde na série histórica. Nos quatro primeiros meses de 2026, já foram 268 processos, envolvendo 602 CNPJs. Especialistas apontam dois fatores em comum: o aumento de dívidas e a dificuldade de acesso a crédito.

Quando uma empresa entra em crise de caixa, um efeito cascata costuma se desencadear. Fornecedores, desconfiando do pagamento, suspendem os fornecimentos. Sem estoque, as vendas caem. A queda de receita reduz ainda mais a capacidade de caixa, num círculo que se realimenta.

Outras grandes varejistas enfrentaram crises similares. A Casas Bahia entrou em recuperação judicial com R$ 17,3 bilhões em dívida. A Toky, que controla Mobly e Tok&Stok, pediu recuperação com R$ 1,1 bilhão em dívida. As Lojas Marabraz declararam R$ 140 milhões. Americanas está em recuperação desde janeiro de 2023.

Casas Bahia: o caso extremo

A Casas Bahia divulgou um prejuízo de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre de 2026, 18 vezes maior que o registrado no mesmo período de 2025. Além dos R$ 17,3 bilhões em dívida declarados, existem outros R$ 11 bilhões não incluídos no processo. A empresa vive a pior crise de sua história.

Em 2024, a varejista havia passado por recuperação extrajudicial, reestruturando R$ 4,1 bilhões de dívida com credores. Mesmo assim, a situação se agravou. A Domus, gestora ligada à Mapa Capital, virou acionista controladora com 82,11% do capital. Em agosto de 2026, a Casas Bahia fechou 300 lojas e demitiu três mil funcionários.

A empresa investiu em expansão de operações digitais, fechando parcerias com Mercado Livre, Amazon e Shopee. Mas a estratégia não reverteu a queda de receita operacional.

Toky: fusão que não funcionou

A Toky, resultado da união entre Mobly e Tok&Stok feita em novembro de 2024, pediu recuperação judicial em maio de 2026. A dívida declarada é de R$ 1,1 bilhão. As duas companhias somam mais de 60 lojas e mais de 2 mil empregados. A Tok&Stok havia passado por recuperação extrajudicial antes da fusão.

No segundo trimestre de 2026, o grupo reportou prejuízo de R$ 232,7 milhões, comparado a R$ 88,9 milhões no mesmo período de 2025. As vendas caíram 32%.

O ajuizamento da recuperação agravou a operação no curto prazo. O impacto sobre a confiança de fornecedores e parceiros comerciais foi imediato.

“O impacto temporário sobre a confiança de fornecedores e parceiros comerciais levou à interrupção do abastecimento e a severas rupturas de estoque no período”, consta na apresentação de resultados do Toky.

Sem produtos disponíveis, os prazos de entrega se alongaram. O volume de cancelamentos de pedidos aumentou. A receita operacional líquida foi reduzida significativamente.

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