Lenacapavir, injeção que previne quase 100% o risco de infecção por HIV, é liberado pela Anvisa

Medicamento chega ao Brasil como alternativa histórica: sendo necessária uma única dose a cada 6 meses, diferente da PrEP diária em comprimidos

13 jan, 2026
Seringa | Reprodução/Unsplash/@tengyart
Seringa | Reprodução/Unsplash/@tengyart

Nesta segunda-feira (12), a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) aprovou o lenacapavir, um medicamento injetável que previne a infecção pelo HIV em quase 100%. Desenvolvido pelo laboratório Gilead Sciences, o medicamento é considerado revolucionário, ao ser aplicado apenas a cada seis meses. O que seria revolucionário comparado aos comprimidos que tem que tomar diariamente.

O fármaco será comercializado no Brasil sob o nome Sunlenca. Nos Estados Unidos, o lenacapavir foi aprovado em 18 de junho de 2025 pela FDA (Agência de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos), com o nome comercial Yeztugo. Já na Europa, a Comissão Europeia concedeu autorização de comercialização em 26 de agosto de 2025, sob o nome Yeytuo.

A autorização da Anvisa para o uso do injetável que previne o HIV é destinada à profilaxia pré-exposição (PrEP), ou seja, para prevenir a infecção. O medicamento é recomendado para pessoas que não vivem com HIV, com idade acima de 12 anos, peso superior a 35 kg, e que tenham realizado o teste para HIV com resultado negativo.

Além disso, o lenacapavir também pode ser usado como tratamento para pacientes que já vivem com HIV, especialmente aqueles que já utilizaram outras terapias e apresentam resistência a outras classes de antivirais. Nesse caso, o medicamento funciona como uma opção diferente aos tratamentos que não vêm funcionando e assim, podendo proporcionar uma melhora satisfatória aos pacientes.

O medicamento lenacapavir

lenacapavir atua antes do vírus entrar no organismo, bloqueando a infecção — por isso, é usado como prevenção (PrEP). Já quando é usado em pessoas que já têm HIV, funciona como um tratamento inovador, impedindo que o vírus continue a se multiplicar no corpo.

O primeiro estudo clínico com o lenacapavir, chamado Purpose-1 pelo laboratório Gilead Sciences, analisou o tratamento em 5,3 mil mulheres cisgênero (que se identificam com o gênero atribuído a elas ao nascer) nos países da África do Sul e Uganda. Nenhuma das pessoas que recebeu o medicamento foi infectada durante cerca de dois anos, enquanto 55 diagnósticos de infecção foram observados nos grupos que utilizaram a PrEP oral. Portanto, a eficácia das injeções foi considerada 100% nesse estudo.


 

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Anvisa anuncia a autorização do lenacapavir (Foto: reprodução/Instagram/@anvisaoficial)


O segundo estudo, chamado Purpose-2, envolveu 3,3 mil participantes de diferentes gêneros, incluindo homens cisgêneros e pessoas trans, e de diversas etnias, em 88 centros de pesquisa diferentes, como no Peru, Brasil, Argentina, México, África do Sul, Tailândia e Estados Unidos.

Ao final do estudo, foram confirmados apenas dois casos de HIV entre os participantes que receberam a injeção de lenacapavir, e nove casos entre os que utilizavam a PrEP oral — um comprimido tomado diariamente por pessoas que não têm o vírus, mas que desejam se proteger dele.

Desde meados do ano passado, julho de 2025, a Organização Mundial da Saúde (OMS) passou a recomendar o lenacapavir como parte de uma estratégia combinada de prevenção do HIV, que combina diferentes ferramentas, como: uso de preservativos (proteção primária); testagem (caso haja dúvidas ou exposição ao vírus) e PrEP (medicamento de pré-exposição).

Autorização da Anvisa 

Os pedidos para aprovação do lenacapavir como tratamento e como PrEP foram protocolados, respectivamente, em novembro de 2024 e março de 2025, e ambos receberam análise prioritária pela Anvisa, devido à sua relevância epidemiológica e ao potencial impacto na saúde pública brasileira.

No Brasil, o SUS (Sistema Único de Saúde) oferece uma estratégia de PrEP para o HIV desde 2017, baseada no uso diário de comprimidos de Tenofovir + Emtricitabina, cujo nome comercial mais conhecido é Truvada.

Esses comprimidos também reduzem o risco de infecção a quase zero, mas, como precisam ser tomados diariamente, podem se tornar um fator de complicação, dificultando a adesão ao tratamento. Já o lenacapavir necessita apenas de uma injeção a cada seis meses, facilitando a prevenção e aumentando a adesão.


Médico infectologista explica sobre o medicamento (Vídeo: reprodução/YouTube/@renatocassol)


Antes do lenacapavir, a PrEP mais avançada a oferecer prevenção de longa duração era o cabotegravir, da GSK, também injetável, mas aplicado a cada dois meses. O cabotegravir foi aprovado pela Anvisa em junho de 2024, porém seu custo é muito elevado em território nacional.

O alto valor também pode ser um possível entrave para o lenacapavir no Brasil. Além disso, é necessário que a Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED) defina o preço máximo do medicamento. Portanto, ainda não há previsão de lançamento nem de valores, que só poderão ser definidos após essa etapa, permitindo a venda em território nacional.

O injetável é comercializado nos Estados Unidos, custando mais de 28 mil dólares por pessoa ao ano (cerca de R$ 150 mil). Com esse alto valor, nenhum sistema de saúde conseguiu implementar o lenacapavir até o momento.

O laboratório Gilead Sciences chegou a anunciar alguns acordos com fabricantes para produzir e vender versões genéricas do medicamento em 120 países com alta incidência de HIV e recursos limitados. Entretanto, o Brasil e outros países da América do Sul, Ásia e Europa ficaram de fora desse primeiro acordo.

Autores de um estudo estimaram que o remédio poderia ser vendido por apenas 25 dólares (cerca de R$ 135) e ainda gerar lucro.

Ainda não há valor ou data definida para o início da comercialização do medicamento. Quando iniciar a comercialização, ficará a cargo de analisar e tentar implementar um plano para levar o medicamento ao SUS. O órgão responsável por essa análise é a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) e, pelo Ministério da Saúde, assim, implementar o remédio gratuitamente no SUS.

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