Lula avança entre eleitores indecisos após erros de Flávio Bolsonaro
Estudo do Instituto Travessia mostrou que a maioria dos indecisos saiu mais propensa a apoiar o presidente, não por suas propostas, mas pelos equívocos do senador durante o debate
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva conquistou terreno entre eleitores indecisos no debate presidencial na última sexta-feira (23) contra o senador Flávio Bolsonaro, transmitido pela Globo. Uma pesquisa qualitativa do Instituto Travessia, realizada a pedido do Estadão, acompanhou em tempo real as reações de participantes durante o encontro na zona sul de São Paulo. De seis indecisos observados, cinco deixaram o confronto mais propensos a votar pela reeleição do presidente, enquanto um manteve a indecisão.
O Instituto Travessia reuniu 12 eleitores em uma residência na Vila Mariana: seis indecisos, três apoiadores de Flávio e três de Lula. Durante o debate, os participantes utilizaram cartões coloridos para avaliar as falas dos candidatos conforme ocorriam: verde para aprovação, amarelo para neutralidade e vermelho para desaprovação.
Segundo Renato Dorgan, CEO do Instituto Travessia, a vantagem conquistada pelo presidente não resultou de propostas robustas. Os apoiadores de ambos permaneceram em suas posições, enquanto os indecisos, majoritariamente das classes C e D, se movimentaram para Lula exclusivamente por causa dos erros do senador.
“Os eleitores de Lula e de Flávio ficaram imóveis, enquanto os indecisos, em sua maioria das classes C e D, se inclinaram para Lula. Mas não por mérito do presidente, mas, sim, pelos erros de Flávio, sobretudo no episódio da menina Ana Clara. Mas ninguém disse que Lula foi bem. Ele não ganhou o debate. Flávio foi quem perdeu”, afirmou Dorgan.
O episódio de Ana Clara e o impacto na sala
O momento que mais prejudicou Flávio envolveu a menina Ana Clara Gomes Machado. Durante o debate, o senador confundiu o nome da mãe da criança. Ana Clara havia sido atingida por disparo de fuzil de um policial para quem Flávio exerceu trabalho como advogado. O erro provocou reação imediata entre os observadores. Todos os eleitores, exceto os apoiadores de Flávio, ergueram cartões vermelhos simultaneamente.
Uma participante reagiu com indignação: “Ai, meu Deus, não sabe nem quem é.” Outro observador ressaltou que o senador não demonstrava empatia com a situação da criança. Uma eleitora indecisa manteve o cartão vermelho levantado durante toda a abordagem de Flávio sobre o tema. Ao encerrar a dinâmica, essa mesma indecisa citou espontaneamente o episódio, declarando sua expectativa por outra postura do candidato.
“Eu esperava que ele fosse falar que estava exercendo a profissão dele. Quando ele errou o nome, ficou claro que ele não se importa”, avaliou a eleitora indecisa.
“Não por alguma proposta de Lula, mas por erros de Flávio e o caso Ana Clara, que impressionantemente tinha alto conhecimento”, reiterou Dorgan.
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Debate entre Lula e Flávio (Vídeo: reprodução/Instagram/@portalg1)
A menção aos “nove dedos” e a memória do trabalho
Outro instante crítico ocorreu quando Flávio se referiu a Lula como “nove dedos” durante o debate. A frase extraiu risos inicialmente, mas a reação mudou quando Lula rebateu, lembrando que perdeu o dedo em um acidente de trabalho aos 17 anos. A resposta do presidente repercutiu bem entre praticamente todo o grupo. Flávio tentou se desculpar posteriormente, mas os indecisos e eleitores de Lula reagiram com desconfiança.
Na região da Grande São Paulo, conforme observou Dorgan, existe uma memória forte de trabalho em chão de fábrica transmitida por pais e avós.
“Na Grande São Paulo, há uma memória forte de pais e avós que trabalharam no chão de fábrica. A fala de Flávio poderia ter passado como piada, mas, quando Lula lembrou do acidente de trabalho, o episódio ganhou uma dimensão considerável”, explicou Dorgan.
Os números: desempenho desigual entre candidatos
Os dados coletados revelam diferenças claras na recepção dos dois candidatos. Lula recebeu 54,95% de cartões verdes do grupo, enquanto Flávio recebeu 33,33%. O senador concentrou 36,8% de cartões vermelhos, ante 28,71% para o presidente. Três eleitores de Flávio atribuíram cartões vermelhos a Lula em praticamente todas as avaliações. Por outro lado, Flávio chegou a receber avaliações positivas de eleitores que apoiam Lula.
Cinco dos seis indecisos deixaram o encontro mais propensos a votar na reeleição de Lula, enquanto uma permaneceu indecisa. O Instituto Travessia ressalva que a pesquisa qualitativa não possui rigor estatístico e não equivale a um levantamento tradicional de intenção de voto.
Os momentos de Flávio e as críticas finais
Flávio obteve desempenhos melhores em momentos específicos. Seu discurso sobre o Nordeste marcou uma das melhores performances da noite, ao prometer trabalhar com governadores da região no combate ao crime organizado e receber nove cartões verdes. Sua abordagem sobre o SUS também agradou, embora sua defesa de redução da maioridade penal para 14 anos tenha gerado preocupações entre alguns observadores.
Entre os indecisos, a avaliação final foi contundente. Um deles sintetizou a percepção do grupo:
“Lula mostra mais conhecimento, tem mais experiência. O Flávio é a sombra do pai dele. Ele está no debate e não fala nada do que fez”, declarou um dos indecisos.
Flávio foi apontado por desviar de perguntas diretas e fornecer respostas genéricas desprovidas de detalhes sobre sua trajetória no Senado. Lula apresentou propostas mais específicas, porém sua idade e percurso político influenciaram as avaliações. Sua explanação sobre endividamento do país foi considerada vaga, gerando onda de cartões vermelhos. O segmento final sobre Banco Master recebeu a avaliação mais negativa de todo o grupo.
