Em declaração forte, Lula afirma que se seu filho cometeu, pagará por eventuais ilícitos e promete ‘recuperar território’ do crime; entenda

Em sabatina com Renata Vasconcellos e César Tralli, presidente aborda Correios, INSS, dívida pública e educação

27 ago, 2026
Lula | Reprodução/TV Globo
Lula | Reprodução/TV Globo

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva concedeu entrevista à Globo na quinta-feira (27) com os jornalistas Renata Vasconcellos e César Tralli, candidato à reeleição pelo PT. Questionado sobre investigações da Polícia Federal envolvendo seu filho Fábio Luís, Lula deixou clara sua posição: não interferirá nas apurações.

Investigações do filho

A Polícia Federal apura suspeitas de corrupção e tráfico de influência envolvendo Fábio Luís. Sobre o assunto, Lula foi direto. “Eu não sou do Ministério Público, eu não sou delegado, eu não sou juiz. Se o Fábio cometeu qualquer ilícito, ele terá que pagar como qualquer cidadão brasileiro”, afirmou.

O presidente reforçou que não afastará delegados da PF e não fará qualquer movimento em favor do filho. Segundo Lula, Fábio Luís conhece bem o histórico da família: a morte da ex-mulher Marisa, atribuída a falsa acusação na Lava Jato, deixou lições. “Ele tem obrigação de não ter feito o erro”, disse.

A comparação com sua própria experiência marcou o tom da resposta. Lula passou por condenações na Lava Jato que foram posteriormente anuladas. O Supremo Tribunal Federal reconheceu que o então juiz Sergio Moro atuou de forma parcial no processo, e as decisões foram cassadas porque a competência era da Justiça Federal do Distrito Federal, não de Curitiba.


Lula (Vídeo: reprodução/X/@turmapop)


Mensagens e provas

Questionado sobre as mensagens entre Lulinha e a lobista Roberta Luchsinger, Lula minimizou o valor das comunicações como prova. “O fato de ter pego conversa no telefone não justifica absolutamente nada. Até agora não existe uma prova de um centavo público”, afirmou. Segundo o presidente, também não há registro de que seu filho tenha mantido conversa com qualquer ministro.

Lula criticou duramente Roberta Luchsinger, chamando-a de “pilantra”, e questionou o peso de acusações baseadas em palavras de alguém com esse histórico. Para o presidente, as mensagens por si só não comprovam crime. O que precisa ser apurado, segundo ele, é se houve de fato liberação de dinheiro público.

Sobre a mensagem em que a lobista afirmou que Lula teria oferecido cargo a ela, o presidente ironizou: negou conhecer a mulher e deixou implícito o absurdo da acusação.

Segurança pública e crime organizado

Em outro eixo da entrevista, Lula detalhou sua agenda para segurança. O objetivo, disse, é recuperar territórios dominados por grupos criminosos, atacando o que chamou de “andar de cima” das facções. O Brasil está pronto para trabalhar com os Estados Unidos no combate ao narcotráfico, afirmou, e mencionou aprovação de lei antifacção.

O presidente defendeu a PEC da Segurança Pública, que negocia com os presidentes da Câmara e do Senado. Após aprovação, Lula pretende criar um Ministério da Segurança Pública centralizado para potencializar as ações.

A estratégia combina legislação, cooperação internacional e reestruturação administrativa. Segundo Lula, essas medidas são essenciais para enfrentar o crime organizado em suas raízes.

INSS e Previdência

Sobre o escândalo no INSS, Lula destacou que R$ 3 bilhões foram ressarcidos integralmente. Nenhum aposentado foi deixado sem ressarcimento, garantiu. O dinheiro, disse, será recomposto pelos bens apreendidos da quadrilha que desviou os recursos.

A quadrilha foi montada em 2019 com participação de ministro da Previdência daquela época. CGU e Polícia Federal investigaram o caso por dois anos antes de descobrir o esquema. Lula afirmou que a recuperação dos valores foi prioridade de sua gestão.

Na próxima semana, o presidente anunciará que a fila do INSS foi zerada. A espera de 45 dias será mantida apenas para 251 mil pessoas, considerada normal segundo Lula. O feito representa redução significativa nos tempos de espera que marcaram a gestão anterior.

Correios e estatais

Lula descartou a privatização dos Correios e reafirmou seu compromisso com a recuperação da estatal. “Não considero vender os Correios, não considero. Quero recuperar os Correios”, disse. A empresa acumula quatro anos seguidos de prejuízo, com rombo histórico de R$ 15 bilhões.

Segundo o presidente, os Correios têm importância estratégica por estarem presentes em todos os municípios do país. No entanto, reconheceu que a estatal não se adaptou às transformações do mercado. Sob nova administração, a empresa passa por enxugamento de custos visando ao equilíbrio financeiro.

Lula vinculou a recuperação dos Correios a um projeto maior de fortalecimento das estatais estratégicas, diferenciando sua abordagem da venda de ativos que marcou gestões anteriores.

Educação

Na educação, Lula defendeu medidas como ampliação de escolas de tempo integral, pacto pela alfabetização, programa Pé-de-Meia e expansão de universidades e institutos federais. Afirmou ter orgulho do cuidado dedicado ao setor durante seu governo.

O presidente apontou que a educação básica é administrada pelos estados e citou Ceará e Piauí como exemplos de bons resultados. Um dado o impressiona: 40% dos alunos que passam no vestibular do ITA são cearenses, ilustrando o alcance das políticas estaduais quando bem executadas.

Lula vê educação como eixo estruturante do desenvolvimento e conecta investimentos no setor com redução de desigualdade. Para o presidente, o Brasil avança quando estados e União trabalham em sintonia nessa área.

Dívida pública e economia

Sobre a dívida pública, Lula afirmou não se preocupar. A dívida brasileira superou 80% do PIB durante seu terceiro governo. O presidente atribui o aumento à taxa de juros de 14% ao ano e ao déficit fiscal de 2,8% que herdou de Bolsonaro.

Segundo Lula, crescimento do PIB acima de 2% ao ano é parte importante da solução para o problema. Ele comparou a dívida brasileira com a de outras potências: os EUA têm 120% do PIB em dívida, e países como Japão e Itália também carregam endividamento significativo.

A perspectiva de Lula é que crescimento econômico sustentado reduz o peso relativo da dívida. Rejeitou argumentos de que números altos são insustentáveis, colocando a questão em contexto internacional.

Futuro econômico

Lula afirmou que pretende fazer uma “revolução tecnológica” com investimentos em inteligência artificial, minerais críticos e terras raras. Mencionou reunião com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, para discutir as reservas brasileiras desses materiais.

Segundo o presidente, o Brasil possivelmente tem mais minerais críticos que a China após recentes descobertas. Esse potencial, na visão de Lula, é chave para o posicionamento do país na economia global dos próximos anos.

A aposta em recursos naturais estratégicos e tecnologia marca o encerramento de sua fala sobre os eixos do governo.

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