Lula liga para Trump e considera “infundadas” alegações dos EUA sobre tarifaço
Telefonema durou uma hora e vinte minutos em clima amigável. Trump aceitou que representantes dos dois países voltem a conversar em breve
Luiz Inácio Lula da Silva telefonou para Donald Trump na manhã de sexta-feira (21 de agosto) para questionar a tarifa de 25% que os Estados Unidos impôs aos produtos brasileiros. O Palácio do Planalto confirmou o contato, cujo foco principal foi a imposição das novas taxas.
O diálogo estendeu-se por uma hora e vinte minutos. A Secretaria de Comunicação Social da Presidência (Secom) descreveu o tom como “amistoso e cordial”.
No começo de agosto, Lula já havia sinalizado a aliados que pretendia conversar com Trump nos dias seguintes. O telefonema concretizou esse plano.
O que foi discutido
A conversa abrangeu a imposição de novas tarifas aos produtos brasileiros, cooperação no combate ao crime organizado e situações de conflito no cenário internacional. Lula ressaltou que as justificativas americanas para a medida tarifária “são infundadas”. Entre essas alegações estão desmatamento, acordos comerciais preferenciais, proteção de propriedade intelectual, combate à corrupção, Pix, etanol e importações envolvendo trabalho forçado.
O Brasil repete essa argumentação nas mesas de negociação desde o início do processo. Na avaliação governamental, essas medidas carregam motivação política. Integrantes do governo denunciaram o envolvimento de adversários políticos, entre eles Eduardo Bolsonaro e Flávio Bolsonaro, na construção dessa taxação.
O presidente também observou que as tarifas prejudicam ambos os países. Conforme informou o Planalto, Lula “afirmou que ‘ao observar que as tarifas afetam negativamente tanto o Brasil, quanto os Estados Unidos, afirmou que seguir na mesa de negociação é a melhor opção para os dois países'” e enfatizou a importância de manter os EUA como principal parceiro comercial do Brasil.
Resposta americana
Trump reconheceu a importância de fortalecer as relações comerciais. O presidente americano então propôs que equipes dos dois países retomassem encontros o quanto antes.
Depois que a Secom divulgou o telefonema, Lula comentou sobre a ligação nas redes sociais, reiterando o comunicado anterior. Avaliações do entorno do presidente indicam que esse processo não deve avançar em 2024, e há orientação para cautela nas próximas ações.
O impacto das tarifas
A tarifa adicional de 25% entrou em vigor em 22 de julho. De acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), o impacto atinge 15% do total exportado para os EUA em 2025, equivalente a US$ 5,8 bilhões.
Os setores mais afetados são madeira, móveis, máquinas e equipamentos, calçados, cerâmica e açúcar. A medida surgiu após investigação conduzida pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR), órgão encarregado da política comercial americana. A investigação apurou supostas práticas comerciais desleais do Brasil que causariam dano a empresas americanas.
O Brasil também recebeu uma segunda tarifa. Nela, 54 países foram tarifados em 12,5% e seis outros em 10%, sob alegação de falhas em impedir importações com trabalho forçado. O governo Lula rejeita esses argumentos.
Presidente Lula (Foto: reprodução/Getty Images Embed/Bloomberg)
Segurança e crime organizado
No telefonema, Lula reafirmou disposição para cooperação no combate ao crime organizado, mas recusou a caracterização de grupos criminosos como terroristas. Em maio deste ano, os EUA classificaram as facções PCC e CV como organizações terroristas, o que contrariou o governo, que buscava evitar a classificação.
O presidente argumentou que “grupos criminosos exercem terror cotidiano sobre as populações mais carentes, mas não se confundem com organizações terroristas”. Segundo Lula, o Brasil dispõe de instrumentos adequados para enfrentar essas organizações sem precisar de designação especial.
Durante a ligação, Lula mencionou ações do governo para desgastar financeiramente a criminalidade. Citou a transformação de 138 presídios em unidades de segurança máxima, a aprovação da Lei Antifacção e a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública, que aguarda votação no Senado.
Trump manifestou disposição em ampliar a cooperação bilateral em segurança. Sinalizou que colocaria funcionários de alto nível para dar prosseguimento aos entendimentos nessa área.
Conflitos globais
Os dois presidentes trocaram avaliações sobre os principais conflitos internacionais, com destaque para a guerra na Ucrânia e tensões no Oriente Médio. Concordaram sobre a necessidade de buscar solução negociada entre Rússia e Ucrânia. Trump expôs suas perspectivas sobre uma possível resolução do conflito envolvendo o Irã.
Lula criticou a inoperância do Conselho de Segurança da ONU e sugeriu a convocação de reunião extraordinária para explorar saídas diplomáticas. O presidente formulou proposta semelhante em conversas recentes com Xi Jinping, presidente da China, e Vladimir Putin, presidente da Rússia. Lula disse que “os grandes líderes não são aqueles que iniciam guerras, mas aqueles que põem fim aos conflitos”.
