Parlamento Europeu adia acordo comercial com os EUA feito em 2025

O parlamento Europeu pretende congelar o acordo feito em 2025, que seria aprovado neste ano, após Trump tarifar países da UE contrários aos planos dos EUA

21 jan, 2026
Roberta Metsola discursando no Parlamento Europeu | Reprodução/X/@Beefeater_Fella
Roberta Metsola discursando no Parlamento Europeu | Reprodução/X/@Beefeater_Fella

Nesta quarta-feira (21), o Parlamento Europeu deve congelar o acordo comercial firmado no ano passado entre a União Europeia, representada pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e os Estados Unidos, representados pelo presidente Donald Trump.

O acordo previa que os Estados Unidos estabelecessem um teto de 15% de tarifa para a maioria dos produtos europeus exportados ao mercado norte-americano, medida que reduziria a incerteza em torno de tarifas mais altas que vinham sendo ameaçadas.

Já a União Europeia concordou em retirar parte de suas tarifas e até zerar taxas sobre importações americanas. Além disso, comprometeu-se a incentivar até US$ 750 bilhões (aproximadamente R$ 3,75 trilhões) em compras de energia norte-americana — como gás natural liquefeito, petróleo e produtos nucleares — até 2028, bem como até US$ 600 bilhões (aproximadamente R$ 4,3 trilhões) em investimentos europeus nos Estados Unidos até 2029.

A presidente do Grupo da Aliança Progressista dos Socialistas e Democratas no Parlamento Europeu (Grupo S&D), Iratxe García Pérez, afirmou que os grupos políticos da Casa (parlamento europeu) estão em “consenso” sobre a medida de congelar o acordo anteriormente firmado, que seria votado e aprovado nesta quarta-feira (21). Péres confirmou que a decisão é uma resposta às recentes ameaças do presidente norte-americano, Donald Trump, relacionadas à anexação da Groenlândia, território autônomo ligado à Dinamarca.

Trump vs União Europeia

Com a suspensão do acordo, a União Europeia volta a colocar na mesa uma imposição de tarifas retaliatórias aos Estados Unidos, que podem chegar ao montante aproximado de 93 bilhões de euros (cerca de R$ 580 bilhões). Além disso, o bloco avalia uma eventual restrição ao acesso de empresas norte-americanas ao mercado europeu.

Enquanto o Parlamento Europeu considera essas medidas, o presidente Donald Trump anunciou nesta semana que pretende aplicar uma tarifa de 10% contra oito países europeus — Dinamarca, Noruega, Suécia, França, Alemanha, Reino Unido, Países Baixos e Finlândia — caso eles se oponham ao plano dos Estados Unidos de comprar a Groenlândia.

Trump afirmou ainda que, a partir de 1º de junho de 2026, a tarifa será elevada para 25% para esses países e poderá ser estendida a todo o bloco europeu.


Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, sobre acordo feito em julho de 2025 entre UE e EUA (Vídeo: reprodução/X/@vonderleyen)


Após o presidente dos EUA intervir na Venezuela e prender Nicolás Maduro, o novo alvo norte-americano é a ilha da Groenlândia. Trump afirma que a nação independente da Dinamarca é muito importante para seu plano de construção do chamado Domo de Ouro — um escudo antimísseis que ele deseja erguer para proteger os Estados Unidos de ataques vindos do Ártico, sobretudo da Rússia e, em segundo plano, da China.

Outro motivo é que a ilha do Ártico é considerada uma rota marítima estratégica para o comércio global. Com o aquecimento global, o gelo do Ártico tem recuado, tornando navegáveis por mais tempo rotas que antes ficavam congeladas quase o ano todo.

As principais rotas são: a Rota do Mar do Norte, próxima à costa da Rússia; a Passagem do Noroeste, perto do Canadá; e as rotas transárticas, que cruzam áreas próximas à Groenlândia. Essas rotas encurtam significativamente as viagens entre Europa, Ásia e América do Norte.

Além disso, a região é rica na exploração de matérias-primas críticas, como: terras raras, usadas em baterias, turbinas eólicas, carros elétricos, mísseis e eletrônicos; lítio, grafite, níquel e cobalto, usados em baterias e tecnologia verde; urânio, usado em energia nuclear; petróleo e gás natural; outros minerais estratégicos para defesa e indústria de alta tecnologia. Esses recursos poderiam reduzir a dependência externa do país.

Parlamento Europeu

O Parlamento Europeu é uma das principais instituições da União Europeia (UE) e representa diretamente os cidadãos dos 27 países-membros do bloco.

Ele cria e aprova leis, dividindo o poder legislativo com o Conselho da União Europeia, que representa os governos nacionais. Analisa, altera e vota propostas apresentadas pela Comissão Europeia. Sem a aprovação do Parlamento, nenhuma lei europeia entra em vigor.

Todo acordo relevante da UE com outros países ou blocos — como acordos comerciais com os EUA, Mercosul ou China — precisa do aval do Parlamento Europeu. Ele pode aprovar, rejeitar ou travar (congelar) a ratificação de um acordo, como pretende congelar o acordo feito em julho de 2025 com os Estados Unidos, que seria aprovado neste início de ano de 2026.


Presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola sobre apoio a Dinamarca e Groenlândia (Vídeo: Reprodução/X/@EP_President)


Nos últimos meses, o clima entre o Parlamento Europeu e o governo dos EUA ficou mais tenso, especialmente devido a ameaças e imposição de tarifas por parte dos EUA, além de declarações consideradas hostis à soberania europeia, como no caso da Groenlândia, a qual é um território autônomo da Dinamarca.

Na terça-feira (20), a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou, durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, que a soberania da Groenlândia é “inegociável”, alertando que eventuais tarifas ou pressões dos Estados Unidos à União Europeia seriam um erro estratégico gigantesco por parte do presidente norte-americano.

Mais notícias