Parlamento Europeu adia acordo comercial com os EUA feito em 2025
O parlamento Europeu pretende congelar o acordo feito em 2025, que seria aprovado neste ano, após Trump tarifar países da UE contrários aos planos dos EUA
Nesta quarta-feira (21), o Parlamento Europeu deve congelar o acordo comercial firmado no ano passado entre a União Europeia, representada pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e os Estados Unidos, representados pelo presidente Donald Trump.
O acordo previa que os Estados Unidos estabelecessem um teto de 15% de tarifa para a maioria dos produtos europeus exportados ao mercado norte-americano, medida que reduziria a incerteza em torno de tarifas mais altas que vinham sendo ameaçadas.
Já a União Europeia concordou em retirar parte de suas tarifas e até zerar taxas sobre importações americanas. Além disso, comprometeu-se a incentivar até US$ 750 bilhões (aproximadamente R$ 3,75 trilhões) em compras de energia norte-americana — como gás natural liquefeito, petróleo e produtos nucleares — até 2028, bem como até US$ 600 bilhões (aproximadamente R$ 4,3 trilhões) em investimentos europeus nos Estados Unidos até 2029.
A presidente do Grupo da Aliança Progressista dos Socialistas e Democratas no Parlamento Europeu (Grupo S&D), Iratxe García Pérez, afirmou que os grupos políticos da Casa (parlamento europeu) estão em “consenso” sobre a medida de congelar o acordo anteriormente firmado, que seria votado e aprovado nesta quarta-feira (21). Péres confirmou que a decisão é uma resposta às recentes ameaças do presidente norte-americano, Donald Trump, relacionadas à anexação da Groenlândia, território autônomo ligado à Dinamarca.
Trump vs União Europeia
Com a suspensão do acordo, a União Europeia volta a colocar na mesa uma imposição de tarifas retaliatórias aos Estados Unidos, que podem chegar ao montante aproximado de 93 bilhões de euros (cerca de R$ 580 bilhões). Além disso, o bloco avalia uma eventual restrição ao acesso de empresas norte-americanas ao mercado europeu.
Enquanto o Parlamento Europeu considera essas medidas, o presidente Donald Trump anunciou nesta semana que pretende aplicar uma tarifa de 10% contra oito países europeus — Dinamarca, Noruega, Suécia, França, Alemanha, Reino Unido, Países Baixos e Finlândia — caso eles se oponham ao plano dos Estados Unidos de comprar a Groenlândia.
Trump afirmou ainda que, a partir de 1º de junho de 2026, a tarifa será elevada para 25% para esses países e poderá ser estendida a todo o bloco europeu.
Arctic security can only be achieved together.
This is why the proposed additional tariffs are a mistake, especially between long-standing allies.
The EU and US have agreed to a trade deal last July.
A deal is a deal.
And when friends shake hands, it must mean something. pic.twitter.com/5wpMic148s
— Ursula von der Leyen (@vonderleyen) January 20, 2026
Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, sobre acordo feito em julho de 2025 entre UE e EUA (Vídeo: reprodução/X/@vonderleyen)
Após o presidente dos EUA intervir na Venezuela e prender Nicolás Maduro, o novo alvo norte-americano é a ilha da Groenlândia. Trump afirma que a nação independente da Dinamarca é muito importante para seu plano de construção do chamado Domo de Ouro — um escudo antimísseis que ele deseja erguer para proteger os Estados Unidos de ataques vindos do Ártico, sobretudo da Rússia e, em segundo plano, da China.
Outro motivo é que a ilha do Ártico é considerada uma rota marítima estratégica para o comércio global. Com o aquecimento global, o gelo do Ártico tem recuado, tornando navegáveis por mais tempo rotas que antes ficavam congeladas quase o ano todo.
As principais rotas são: a Rota do Mar do Norte, próxima à costa da Rússia; a Passagem do Noroeste, perto do Canadá; e as rotas transárticas, que cruzam áreas próximas à Groenlândia. Essas rotas encurtam significativamente as viagens entre Europa, Ásia e América do Norte.
Além disso, a região é rica na exploração de matérias-primas críticas, como: terras raras, usadas em baterias, turbinas eólicas, carros elétricos, mísseis e eletrônicos; lítio, grafite, níquel e cobalto, usados em baterias e tecnologia verde; urânio, usado em energia nuclear; petróleo e gás natural; outros minerais estratégicos para defesa e indústria de alta tecnologia. Esses recursos poderiam reduzir a dependência externa do país.
Parlamento Europeu
O Parlamento Europeu é uma das principais instituições da União Europeia (UE) e representa diretamente os cidadãos dos 27 países-membros do bloco.
Ele cria e aprova leis, dividindo o poder legislativo com o Conselho da União Europeia, que representa os governos nacionais. Analisa, altera e vota propostas apresentadas pela Comissão Europeia. Sem a aprovação do Parlamento, nenhuma lei europeia entra em vigor.
Todo acordo relevante da UE com outros países ou blocos — como acordos comerciais com os EUA, Mercosul ou China — precisa do aval do Parlamento Europeu. Ele pode aprovar, rejeitar ou travar (congelar) a ratificação de um acordo, como pretende congelar o acordo feito em julho de 2025 com os Estados Unidos, que seria aprovado neste início de ano de 2026.
United in our support for Denmark and the people of Greenland. pic.twitter.com/Cu8zjY1li7
— Roberta Metsola (@EP_President) January 19, 2026
Presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola sobre apoio a Dinamarca e Groenlândia (Vídeo: Reprodução/X/@EP_President)
Nos últimos meses, o clima entre o Parlamento Europeu e o governo dos EUA ficou mais tenso, especialmente devido a ameaças e imposição de tarifas por parte dos EUA, além de declarações consideradas hostis à soberania europeia, como no caso da Groenlândia, a qual é um território autônomo da Dinamarca.
Na terça-feira (20), a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou, durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, que a soberania da Groenlândia é “inegociável”, alertando que eventuais tarifas ou pressões dos Estados Unidos à União Europeia seriam um erro estratégico gigantesco por parte do presidente norte-americano.
