PCC e ’Ndrangheta: investigação revela parceria no tráfico de cocaína entre Brasil e Europa
Apuração da Polícia Federal iniciada após apreensão no Porto de Paranaguá identificou uma estrutura que combinava logística brasileira, distribuição europeia e circulação de recursos pela economia formal
A apreensão de 554 quilos de cocaína no Porto de Paranaguá, no Paraná, levou a Polícia Federal a uma rede que ia muito além dos dois contêineres onde a droga foi encontrada. A carga, localizada em dezembro de 2020, tinha como destino o Porto de Valência, na Espanha. O avanço da investigação revelou uma estrutura suspeita de reunir operadores ligados ao Primeiro Comando da Capital e à ’Ndrangheta, uma das organizações criminosas mais influentes da Itália.
A apuração resultou em uma operação conjunta entre autoridades brasileiras e italianas, com prisões, buscas, bloqueios patrimoniais e troca de informações. Segundo os investigadores, a rede teria participado do envio de mais de 1,5 tonelada de cocaína para a Europa por navios cargueiros e aeronaves privadas.
O caso mostra como PCC e ’Ndrangheta podem atuar em conjunto sem formar uma estrutura única. As duas organizações têm origens, formas de comando e bases territoriais distintas. A parceria aparece na divisão de tarefas. No lado sul-americano, operadores ligados ao PCC cuidariam do acesso à cocaína, da movimentação da carga e da saída pelo Brasil. Na Europa, integrantes da ’Ndrangheta teriam condições de receber, distribuir e cobrar pelos carregamentos.
Para compreender essa cooperação, a reportagem ouviu Carlos Eduardo da Silva, Especialista em Segurança Pública e Crime Organizado Transnacional e ex-investigador da Polícia Civil de São Paulo. Segundo ele, a operação aponta para uma relação baseada em capacidades complementares.
Silva explica que cada grupo participa da parceria com os contatos e os meios que já controla.
“O PCC participa da compra, da movimentação e do embarque da cocaína no lado sul-americano. A ’Ndrangheta recebe, distribui e administra o negócio no mercado europeu. Eles não precisam dividir o mesmo comando. Precisam garantir que cada lado cumpra sua parte”, afirma.
O PCC surgiu no sistema prisional paulista, mas ampliou sua presença para além das prisões e dos bairros periféricos de São Paulo. Ao longo dos anos, construiu relações com fornecedores de cocaína no Paraguai, na Bolívia e em outros pontos da América do Sul. Também passou a atuar em rotas internacionais e a negociar grandes remessas para a Europa.
A ’Ndrangheta mantém posição consolidada no mercado europeu de cocaína. Originária da Calábria, desenvolveu redes familiares, comerciais e financeiras em vários países. Sua força está na capacidade de receber grandes carregamentos, distribuir a droga, recuperar pagamentos e reinvestir os lucros.
“O PCC tem acesso privilegiado ao lado sul-americano da cadeia. A ’Ndrangheta conhece o mercado europeu e dispõe de redes para fazer a droga circular depois que ela chega. Essa combinação reduz custos e riscos para os dois lados”, explica Silva.
A relação não significa que o PCC esteja subordinado à organização italiana, nem que a ’Ndrangheta controle operações no Brasil. Trata-se de uma parceria entre estruturas independentes. Cada uma preserva sua liderança, suas regras e seus interesses.
Na prática, essa cooperação pode envolver a negociação da quantidade e do preço da cocaína, a escolha do porto de saída, o uso de empresas exportadoras, o transporte até o terminal, o embarque clandestino e a retirada da carga no destino. Também exige mecanismos para pagamentos e compensação de prejuízos quando uma remessa é apreendida.
A investigação identificou ainda empresas formais, negócios imobiliários e movimentações financeiras examinados como possíveis instrumentos de lavagem de dinheiro. Algumas dessas estruturas teriam movimentado valores elevados apesar de apresentar pouca ou nenhuma capacidade operacional aparente.
Esses elementos, isoladamente, não provam crime. A suspeita surge quando o fluxo financeiro não encontra respaldo no negócio declarado ou quando valores circulam por contratos e imóveis sem justificativa econômica clara.
“O tráfico internacional não funciona apenas com traficantes, navios e contêineres. Ele depende de empresas capazes de emitir documentos, receber pagamentos, comprar patrimônio e dar aparência legítima ao dinheiro. Por isso, a investigação financeira precisa caminhar junto com a investigação da droga”, diz Carlos Eduardo.
O dinheiro da cocaína pode retornar por transferências internacionais, contratos simulados, imóveis, empréstimos entre empresas ou pagamentos por serviços inexistentes. Parte dos recursos também pode permanecer na Europa para financiar novos carregamentos. Outro mecanismo é a compensação informal, em que valores entregues em um país são compensados por pagamentos feitos em outro.
“Em redes desse porte, existe uma contabilidade criminosa baseada em confiança, dívida e compensação. Quando as operações se repetem, a relação deixa de ser ocasional e passa a funcionar de maneira estável”, afirma Silva.
Essa estabilidade é um dos pontos centrais do caso. Não se trata apenas de um comprador italiano adquirindo uma carga de um fornecedor brasileiro. A repetição exige canais de comunicação, pessoas responsáveis por resolver problemas, critérios de confiança e capacidade para absorver perdas.
A carga de 554 quilos foi o ponto de partida, mas o principal resultado da investigação foi revelar o que existia por trás dela. O contêiner era apenas uma etapa de uma cadeia que envolvia fornecedores sul-americanos, operadores ligados ao PCC, estruturas empresariais, logística portuária, contatos europeus e integrantes da ’Ndrangheta.
Para Carlos Eduardo, a parceria confirma que o PCC deve ser analisado como parte de redes criminais internacionais.
“O PCC não precisa ocupar território na Itália para entrar no mercado europeu. Ele precisa de parceiros capazes de receber e distribuir a droga. A ’Ndrangheta não precisa comandar operações no Brasil. Precisa de fornecedores confiáveis e de operadores capazes de fazer a cocaína sair dos portos.”
O caso também mostra os limites de uma resposta concentrada apenas na apreensão. Retirar centenas de quilos de cocaína de circulação produz impacto imediato, mas não elimina contatos, empresas, recursos e relações de confiança.
Desmontar uma parceria entre PCC e ’Ndrangheta exige atingir quem negocia, quem resolve a logística, quem movimenta o dinheiro e quem transforma o lucro do tráfico em patrimônio. Sem isso, perde-se a carga, mas a rede continua disponível para organizar o próximo embarque, conclui Silva.
Carlos Eduardo da Silva é investigador aposentado da Polícia Civil do Estado de São Paulo, com 23 anos de atuação em unidades de elite, incluindo o DEIC e o DENARC. Atualmente pesquisa governança criminal, crime organizado transnacional e ilícitos financeiros.
