Pesquisa aponta crise na transição política da Venezuela após terremotos
Levantamento mostra que 89% das pessoas entrevistadas classificam o atual governo como ditadura e que 65,6% esperam novas eleições em menos de um ano
Uma pesquisa realizada após os terremotos que atingiram a Venezuela em junho aponta aumento do apoio à retirada de Nicolás Maduro, mas também maior desconfiança sobre a atuação dos Estados Unidos no país. O levantamento também mostra queda na esperança da população e reprovação à resposta do governo à tragédia.
Conduzido pelo instituto IPSE Global em parceria com universidades do Brasil, Argentina e Espanha, o estudo ouviu 2.731 pessoas que vivem na Venezuela e venezuelanos residentes em outros 21 países. As entrevistas foram realizadas em dois momentos, antes e depois dos terremotos.
Influência estrangeira
O apoio à operação americana que capturou Maduro passou de 65,4% para 84,8% após os terremotos. No entanto, cresceu de 64,1% para 80,6% a parcela dos entrevistados que considera que a intervenção dos Estados Unidos comprometeu a soberania da Venezuela.
A percepção sobre os objetivos de Washington também revela desconfiança. Para 68% dos participantes, os interesses econômicos e relacionados ao petróleo são a principal motivação dos Estados Unidos na Venezuela. Apenas 21,1% veem como prioridade uma mudança política.
No entanto, a sensação de perda de autonomia vem antes da intervenção americana. Mais de 80% dos entrevistados afirmam que a influência de países como Rússia, China, Cuba e Irã já havia limitado a soberania venezuelana.
Insatisfação ao governo
A atuação do governo venezuelano durante a crise provocada pelos terremotos recebeu avaliação negativa. Para 79% dos participantes, a resposta oficial no resgate das vítimas foi muito ruim. Apenas 5,9% atribuíram ao governo nacional o mérito pelas ações de assistência. A maior parte dos entrevistados, 55,7%, creditou o trabalho à própria população e às organizações da sociedade civil. Outros 30,5% destacaram a participação da comunidade internacional e de equipes estrangeiras.
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Resgate de um menino de onze anos dias após os terremotos. (Vídeo: reprodução/Instagram/@delcyrodriguezv)
A tragédia também alterou o estado de ânimo dos participantes. A proporção daqueles que disseram sentir esperança caiu de 43,7% para 30,5%. A sensação de incerteza passou de 18,7% para 34,2%, enquanto a decepção aumentou de 4,8% para 13,4%.
Futuro político
A situação política também permanece marcada pela desconfiança. O levantamento aponta que 88% dos entrevistados consideram fraudulenta a eleição presidencial de 2024, que declarou Maduro vencedor.
A avaliação do atual governo também é negativa: 89% classificam a Venezuela como uma ditadura sob a administração interina de Delcy Rodríguez. No período anterior aos terremotos, a mesma avaliação registrava 82,1%. Apesar das incertezas, 65,6% acreditam que uma transição de governo acompanhada de novas eleições poderia ocorrer em menos de um ano. Antes da tragédia, essa era a expectativa de 48,4% dos participantes.
