Pílula contra câncer de pâncreas é aprovada nos EUA após reação emocionante de médicos

Medicamento tomado em comprimido uma vez por dia praticamente duplica a sobrevida e reduz mortalidade em 60%; autorização saiu em tempo recorde

27 ago, 2026
Food and Drug Administration (FDA) I Reprodução/Instagram/@abcnews
Food and Drug Administration (FDA) I Reprodução/Instagram/@abcnews

A Food and Drug Administration (FDA) aprovou na última quarta-feira (26) o daraxonrasib, comercializado como Rasonque, para pacientes adultos com adenocarcinoma de pâncreas metastático que já receberam ao menos um tratamento anterior. O comprimido tomado uma vez ao dia duplicou a sobrevida mediana frente à quimioterapia convencional e reduziu em 60% o risco de morte em estudo randomizado com 500 voluntários.

A decisão regulatória veio poucos meses após os resultados serem apresentados na American Society of Clinical Oncology (ASCO), em Chicago, em junho. Na sessão plenária, a comunidade médica presente levantou-se para aplaudir os dados do ensaio de fase 3, batizado RASolute 302.

O que o medicamento faz

O daraxonrasib atua sobre variações da proteína RAS, um interruptor celular que, quando sofre mutação, fica travado na posição ‘ativado’ e ordenza continuamente às células que cresçam e se propaguem para outros tecidos. Mais de 90% dos tumores pancreáticos apresentam essa mutação. Durante décadas, a comunidade científica a considerou intratável, impossível de ser bloqueada por qualquer fármaco.

O medicamento conseguiu quebrar esse paradigma ao inibir múltiplas variantes da RAS simultaneamente. Para os pacientes do estudo, todos em estágio metastático e sem sucesso anterior com quimioterapia, essa ação resultou numa diferença de vida e morte: 6,5 meses a mais de sobrevida em mediana.


Nova pílula para tratar câncer de pâncreas foi aprovada nos Estados Unidos (Foto: reprodução/Instagram/@folhadecuritiba)


Resultados do estudo RASolute 302

No grupo de pacientes com mutação RAS G12, a sobrevida mediana foi de 13,2 meses com daraxonrasib frente a 6,6 meses com quimioterapia convencional. O tempo até progressão da doença alcançou 7,3 meses contra 3,5 meses no braço de controle.

Mais de 31% dos pacientes que tomaram o comprimido apresentaram redução mensurável do tumor, em comparação com 11,2% do grupo que recebeu quimioterapia. O perfil de segurança distinguiu-se ainda mais: apenas 1,2% daqueles que usaram daraxonrasib necessitaram interromper o tratamento devido a efeitos adversos, contra 11,2% no grupo de quimioterapia.

Stephen Stefani, oncologista pela Americas Health Foundation que assistiu à apresentação em Chicago, explica por que a reação dos médicos foi rara.

“Raramente celebramos um medicamento com esse perfil: baixa toxicidade, impacto real em sobrevida e um mecanismo inédito para essa doença.”

Ele complementa:

“Eram mais de 500 pacientes com câncer de pâncreas avançado, já sem resposta à quimioterapia, avaliados no desenho mais rigoroso da pesquisa clínica, e com sobrevida dobrada em relação ao padrão anterior. O aplauso em pé foi merecido.”

Sobre a interpretação dos números, Stefani pontua um detalhe importante:

“Os 13 meses são uma mediana, há pacientes que viveram muito além disso. Mais de 30% tiveram redução objetiva da doença, com duração suficiente para ampliar a sobrevida de forma significativa. E o perfil de toxicidade é manejável, o que, numa doença dessa gravidade, não é um detalhe menor.”

A urgência da aprovação

Kyle Diamantas, comissário interino da FDA, reforçou a importância da autorização:

“A aprovação de hoje oferece uma nova opção fundamental para pacientes diante de um câncer extraordinariamente difícil e historicamente complicado de tratar.”

A agência concedeu a aprovação cerca de seis meses e meio antes da data planejada para conclusão da análise regulatória. Menos de três meses após a apresentação na ASCO, o fármaco deixou de ser apenas experimental nos Estados Unidos.

O contexto do câncer de pâncreas

O adenocarcinoma pancreático é notoriamente letal. Não apresenta sintomas nos estágios iniciais, e aproximadamente 80% dos casos já estão avançados ou metastáticos no momento do diagnóstico, significando disseminação para órgãos distantes, fora do alcance cirúrgico.

Nos Estados Unidos, cerca de 60 mil pessoas recebem diagnóstico anual; 50 mil morrem. No Brasil, 13 mil novos casos anuais resultam em aproximadamente 12 mil óbitos. A taxa de sobrevida em cinco anos para a forma metastática é de apenas 3%, entre as mais baixas entre todos os cânceres.

A resistência da doença ao tratamento vincula-se grandemente à proteína RAS. Quando mutada, ela não pode ser desativada. Por décadas, pesquisadores fracassaram em suas tentativas de bloqueá-la, pois a molécula não oferecia uma superfície farmacológica clara. A comunidade científica a denominava ‘undruggable’, intratável.

O daraxonrasib superou esse obstáculo histórico ao inibir simultaneamente diversas variantes da proteína. Os pesquisadores do RASolute 302 recomendam que o medicamento se torne novo padrão de cuidado para câncer de pâncreas metastático em segunda linha. O estudo foi publicado no Journal of Clinical Oncology.

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