Cinco principais pontos serão pauta em reunião entre Lula e Trump
Encontro dos presidentes será nesta quinta-feira na Casa Branca; reunião será voltada para temas como PIX, crime organizado, geopolítica, terras e eleições
Nesta quinta-feira (7), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reuniu com o presidente dos Estados Unidos. Donald Trump, na Casa Branca, em Washington. Segundo a imprensa dos dois países, a reunião deve discutir temas de economia e segurança, sendo o primeiro encontro focado numa possível relação oficial. Ambos se encontraram apenas duas vezes, em evento na Malásia, em outubro do ano passado, além de uma rápida interação durante a Assembleia Geral da ONU de 2025.
Encontro formalizado
Antes do encontro, os presidentes entraram em contato por telefone na última sexta-feira (1), alinhando de forma amistosa a visita. O presidente foi recebido por Trump às 12h, organizando uma primeira interação com a imprensa no Salão Oval, partindo depois para um almoço, onde discutiram os principais temas de interesse entre Brasil e Estados Unidos.
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Trump recebendo Lula na Casa Branca (Vídeo: reprodução/Instagram/@metropoles)
De acordo com a jornalista Raquel Krähenbühl, da TV Globo, a reunião terá formato de “visita de trabalho”, considerado menos formal do que uma reunião bilateral tradicional. O encontro é interpretado como uma tentativa de reaproximação diplomática e comercial entre Brasil e Estados Unidos, após a imposição de tarifas norte-americanas sobre produtos brasileiros e sanções contra autoridades nacionais. Abaixo estão alguns dos tópicos centrais da conversa entre as partes.
Crime organizado
O governo dos Estados Unidos avalia a possibilidade de classificar as facções criminosas brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como grupos terroristas. Segundo fontes ligadas ao governo de Donald Trump que atuam no Brasil, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, defende que facções brasileiras recebam a mesma classificação aplicada recentemente a organizações criminosas do México e da Venezuela.
O assunto já foi debatido em reuniões anteriores entre autoridades brasileiras e norte-americanas e deve voltar à pauta no encontro desta quinta-feira. Segundo apuração do jornalista Gerson Camarotti, Lula pretende convencer o governo dos EUA a não enquadrar as facções brasileiras como organizações terroristas, reforçando que o combate ao crime organizado é uma prioridade do governo e que a cooperação bilateral entre os países é o melhor caminho para enfrentar o problema. No Palácio do Planalto, a avaliação é de que a classificação abriria espaço para medidas mais rígidas por parte dos Estados Unidos. Em um cenário extremo, autoridades norte-americanas poderiam usar esse argumento para justificar ações militares em território brasileiro, como já ocorreu em outros países.
PIX
Outro tópico importante é o uso do PIX no Brasil, que, segundo o governo norte-americano, poderia criar desvantagens para empresas dos Estados Unidos que atuam no setor de pagamentos eletrônicos, como operadoras de cartões de crédito. Isso acontece por uma investigação do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) contra o Brasil por supostas irregularidades em práticas comerciais.
O governo brasileiro já informou às autoridades dos EUA que o PIX não discrimina empresas norte-americanas e ressaltou que grandes companhias de tecnologia, como o Google, utilizam a ferramenta. Nos últimos meses, o sistema de pagamentos passou a ser tratado pelo governo brasileiro como um símbolo de soberania nacional.
Durante um evento em abril, Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que “o PIX é do Brasil” e criticou a investigação conduzida pelos Estados Unidos. A expectativa é que o governo brasileiro aproveite a reunião com Donald Trump para tentar evitar possíveis medidas contra o país relacionadas ao sistema financeiro. Para o vice-presidente Geraldo Alckmin o encontro seria uma oportunidade para esclarecer o funcionamento do PIX e buscar um “bom entendimento” entre Brasil e Estados Unidos.
Geopolítica e conflitos
Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump também mantêm diferenças em relação a conflitos internacionais e à condução da política externa. O governo brasileiro, por exemplo, condenou ataques realizados pelos Estados Unidos contra a Venezuela e, mais recentemente, contra o Irã. Em abril, por exemplo, Lula criticou Trump e afirmou que o presidente norte-americano não pode “ameaçar outros países com guerra o tempo todo”. O petista também retomou uma declaração feita após o tarifaço de 2025, ao dizer que Trump não foi eleito “imperador do mundo”.
Ataque dos Estados Unidos ao Irã (Foto: reprodução/Contribuidor/Getty Images Embed)
Além das críticas ao unilateralismo dos Estados Unidos, Lula tem defendido o fortalecimento da Organização das Nações Unidas (ONU) como espaço de mediação internacional. O presidente brasileiro foi convidado a integrar o Conselho da Paz criado por Trump, mas ainda não confirmou participação. Em janeiro, durante uma conversa telefônica entre os dois líderes, Lula chegou a sugerir mudanças no grupo.
Outro tema que pode entrar na pauta é a situação de Cuba. O governo brasileiro acompanha com preocupação o agravamento da crise humanitária na ilha, especialmente após medidas adotadas pelos Estados Unidos para restringir o envio de petróleo ao país.
Terras raras
A exploração de minerais críticos e terras raras também podem ter aparecido como um dos temas discutidos no encontro entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump. O Brasil possui uma das maiores reservas desses recursos no mundo e considera o setor estratégico para a transição energética, a digitalização da economia e o avanço da inteligência artificial.
O governo brasileiro defende que a exploração desses minerais ocorra sob controle nacional, com parcerias internacionais que garantam transferência de tecnologia e fortalecimento da indústria brasileira. Nesse contexto, o Brasil já sinalizou que não pretende aderir a uma aliança proposta pelos Estados Unidos para o setor, priorizando acordos bilaterais com diferentes países.
A avaliação do governo é que os norte-americanos buscam ampliar sua influência sobre as regras do comércio global de minerais críticos, atualmente concentrado principalmente na China. Outro tema que pode surgir na reunião é um acordo firmado entre o governo de Goiás e os Estados Unidos para exploração desses recursos, iniciativa que gerou reação do governo federal.
Segundo integrantes do Governo Federal do Brasil, o acordo envolvendo Goiás não teria validade jurídica, já que o subsolo pertence à União, responsável pela regulamentação da atividade mineral e pela assinatura de acordos internacionais. Antes da reunião acontecer, a Câmara dos Deputados aprovou um projeto que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, prevendo incentivos para estimular a exploração desses recursos. O texto ainda será analisado pelo Senado Federal.
Eleições
Segundo o blog da jornalista Andreia Sadi, Lula pretende transformar o encontro com Donald Trump em um ativo político interno e internacional. Entre os objetivos do presidente brasileiro está obter um compromisso informal de que o governo norte-americano não interferirá nas eleições brasileiras de outubro.
Urna eleitoral (Foto: reprodução/Cris Faga/Getty Images Embed)
Fontes do governo ouvidas pela jornalista afirmam haver preocupação dentro do Palácio do Planalto com a atuação do Departamento de Estado dos Estados Unidos, considerado por integrantes do governo como mais ideológico e próximo de setores ligados ao bolsonarismo. A avaliação é que eventuais medidas norte-americanas poderiam desgastar politicamente Lula.
Embora um ataque direto de Trump não seja considerado provável, o presidente brasileiro busca garantir um entendimento informal de não interferência e de ausência de apoio ao senador Flávio Bolsonaro, filiado ao Partido Liberal (PL). Dessa forma, o encontro também deve ser usado por Lula para reforçar sua imagem de liderança internacional. A avaliação de aliados é que a reunião pode servir como demonstração de força política em um momento de desgaste interno do governo, especialmente após a derrota no Senado Federal na indicação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal e a queda do veto da PL da dosimetria.
