Após acordo, presidente interina da Venezuela rebate Trump e fala sobre controle do petróleo

Presidente interina rebate Trump e detalha parceria de 25 anos, com US$ 100 bilhões em investimentos americanos e US$ 204 bilhões em receita

30 ago, 2026
Delcy Rodríguez I Reprodução/Instagram/@vargas.reporta
Delcy Rodríguez I Reprodução/Instagram/@vargas.reporta

A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, garantiu no sábado que o país mantém soberania sobre seus recursos petrolíferos após novo acordo com os Estados Unidos. A afirmação contradiz a versão do presidente americano Donald Trump, que um dia antes tinha anunciado que Washington havia “assegurado controle majoritário” dos mais de 65 bilhões de barris das reservas venezuelanas.

Estrutura e investimentos do acordo

“Uma coisa deve estar completamente clara: a Venezuela retém a posse e soberania sobre seus recursos”, afirmou Rodríguez em pronunciamento na televisão estatal.

Segundo a presidente interina, os 17 campos estratégicos que passarão para operação americana continuam sendo propriedade venezolana. A parceria prevê elevar a produção a 1,5 milhão de barris diários, com a Venezuela recebendo US$ 19 por unidade comercializada.

O pacto terá duração de 25 anos e contempla US$ 100 bilhões em investimentos privados de empresas americanas voltados para revitalizar o setor. Delcy projeta que o acordo gere US$ 204 bilhões em receita fiscal durante esse período.

A presidente interina classificou a parceria como histórica e afirmou que ela transformará os recursos subterrâneos, hoje “frios e inertes”, em fonte de “bem-estar econômico e social” para a população. Ela não detalhou, porém, como esse dinheiro chegará aos venezuelanos nem informou valores referentes a royalties.

Delcy Rodríguez assumiu a liderança do país após Nicolás Maduro ser preso e deposto pelo governo Trump, em meio à transição política recente.


Presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez (Foto: reprodução/ NurPhoto/ Getty Images Embed)


Ceticismo da população

O acordo gerou desconfiança nas redes sociais, inclusive entre simpatizantes do chavismo. Muitos temem que a parceria represente perda de influência nacional com poucos ganhos reais para os cidadãos e custo político elevado.

“Se eles querem o petróleo daqui, da Venezuela, têm que pagar pelo preço atual, porque a Venezuela não vai dar o petróleo de graça”, afirma Carlos Baco, funcionário público de 74 anos. Ele, contudo, relata que ainda não sentiu os efeitos da recuperação da produção e observa que consumo, alimentos, dólar e mercadorias ficaram mais caros.

O Partido Socialista Unido da Venezuela reafirmou no sábado seu apoio à decisão. O PSUV declarou defender medidas econômicas que priorizem interesses nacionais e permitam superar consequências de mais de uma década de sanções econômicas, medidas coercitivas e bloqueios.

Recuperação da produção e perspectivas

A produção petrolífera cresceu para 1,2 milhão de barris ao dia entre janeiro e julho, alta de 29,8%, segundo dados compilados. Ainda assim, permanece muito abaixo dos 3 milhões alcançados diariamente há 25 anos.

Os especialistas avaliam que aumentos expressivos na produção exigirão tempo. O engenheiro Oswaldo Felizzola estima que os efeitos só começarão a aparecer entre três e quatro anos.

“Se não fosse assim, esses campos não seriam explorados nos próximos 10 ou 15 anos, porque a PDVSA não tem os recursos econômicos para isso”, destaca Felizzola.

Para Felizzola, a entrada de empresas americanas funciona como garantia para investimentos num setor que não consegue atrair capital significativo há mais de uma década. Sem essa parceria, segundo ele, a exploração seria inviável nos próximos 10 ou 15 anos. A petroleira americana Chevron já estaria em negociações avançadas para expandir sua atuação no país.

Contexto econômico e análises

A Venezuela ainda tenta se recuperar de uma contração de cerca de 80% entre 2014 e 2021. Venezuelanos enfrentam deterioração grave do poder de compra: o salário mínimo mensal equivale a apenas US$ 0,16, enquanto benefícios estatais podem chegar a US$ 240 por mês. O custo estimado da cesta básica é de US$ 730.

Para o analista Elías Ferrer, a chegada de investimentos é positiva, apesar das condições da parceria. Ele avalia que a exploração do petróleo pode gerar royalties e benefícios para a Venezuela.

A ex-vice-ministra de Energia Dolores Dobarro também vê potencial no acordo e considera que a parceria pode contribuir para a recuperação do setor petrolífero venezuelano.

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