PF vê seletividade em decisões de Mendonça e coloca Alcolumbre no centro de estratégia do ministro
Documentos de inteligência encaminhados a Moraes mostram disparidade no tratamento de casos Master, com prazos de análise variando entre 9 e 75 dias
Documentos de inteligência enviados pela Polícia Federal ao ministro Alexandre de Moraes revelam que André Mendonça adotou critérios desiguais ao conduzir investigações contra políticos envolvidos no caso Master. A PF avalia ainda que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, seria um provável alvo estratégico das ações do ministro.
Segundo a instituição federal, Mendonça extrapolou competências que deveriam permanecer restritas à investigação criminal. Esse comportamento, conforme os relatórios, deixou o nível da mera percepção e ganhou respaldo documental próprio.
Tratamento desigual entre investigados
A Polícia Federal identificou sinais de que Mendonça aplicava critérios distintos conforme a identidade política do investigado. Em seu relatório, a corporação afirmou:
“Os indícios crescentes de enviesamento na condução da supervisão judicial, manifestados em direcionamento temático de intensidade progressiva quanto a linha investigativa determinada”
A comparação entre os casos dos senadores Weverton Rocha e Ciro Nogueira expõe essa assimetria com clareza. Ambos foram submetidos à relatoria de Mendonça num espaço de pouco mais de 5 meses, mas receberam tratamentos distintos em termos de exigência probatória.
Davi Alcolumbre (Foto: reprodução/Evaristo Sa/Getty Images Embed)
“O cotejo entre os dois feitos revela variação relevante no patamar de exigência probatória aplicado a parlamentares pelo mesmo Relator, em intervalo de pouco mais de 5 meses”
No caso de Weverton Rocha, a denúncia inicial sugeria liderança em organização criminosa sem apontar ato de ofício específico. Não havia registros de valores rastreados até ele, nem diálogos que o identificassem como interlocutor. Apesar disso, a análise afirmava conhecimento de origem ilícita dos recursos, sem encontrar comunicações sobre o tema.
A PF descreveu a estrutura comum dos documentos examinados:
“As informações de Polícia Judiciária examinadas reproduzem a mesma arquitetura: introdução que antecipa conclusões, acúmulo de capturas de tela sem cruzamento que as conecte, e encerramento por assertivas categóricas não sustentadas no corpo do documento”
O padrão identificado revela uma lógica inversa: quanto mais fraco o material investigativo fornecido, maior o espaço para interpretação discricionária. E quanto maior esse espaço, menor a motivação para aprimorar os insumos originais.
O contexto da emenda Master
Ciro Nogueira foi autor da chamada emenda Master, uma proposta de alteração da PEC da Autonomia Financeira do Banco Central que buscava ampliar a cobertura do FGC de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. A emenda foi preparada por pessoas ligadas ao Banco Master.
O documento foi elaborado pelo diretor jurídico da instituição e encaminhado a Daniel Vorcaro, antes de chegar à residência de Ciro e ser protocolado no Senado. Registros mostram que Vorcaro comemorou o envio da proposta em troca de mensagens. Segundo apurações, o diretor escreveu: “Foi a versão. Que o andre me mandou. Final. Saiu exatamente como mandei”.
A PF argumenta que a conduta diferenciada se manifestou claramente na análise dos dois casos sob a mesma relatoria. Enquanto Weverton Rocha enfrentou exigências altas apesar da fragilidade do material, Ciro Nogueira foi reconhecido como tendo indícios robustos, mas com condições simultâneas impostas.
Alcolumbre como foco de investigação
O relatório sugere que Davi Alcolumbre funcionaria como alvo estratégico de Mendonça. A PF destaca o peso político do presidente do Senado e suas perspectivas de reeleição para o comando da Casa.
Em despacho de 3 de setembro, Moraes confirmou que a PF identificou direcionamento investigativo por parte de Mendonça contra Alcolumbre. Segundo o ministro:
“Avalia-se que Davi Alcolumbre constitui provável alvo estratégico, considerada sua força política, o favoritismo para manter-se na presidência do Senado Federal e o consequente controle da pauta daquela Casa, notadamente quanto ao processamento de pedidos de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal”.
O relatório menciona histórico de divergências entre Mendonça e Alcolumbre. Durante o governo Bolsonaro, o presidente do Senado figurava entre os principais obstáculos à indicação de Mendonça para o STF.
Variação expressiva nos prazos
A PF comparou o tempo gasto por Mendonça para se pronunciar sobre medidas em investigações envolvendo autoridades distintas. Os intervalos oscilaram significativamente:
- Jaques Wagner: 9 dias
- Ciro Nogueira: 29 dias
- Cláudio Castro (primeiro caso): 75 dias
- Cláudio Castro (segundo caso): 46 dias
- Instituto Previdência de Maceió: 53 dias ou mais
O relatório não sustenta que Mendonça acelerou ou retardou deliberadamente suas decisões. Não afirma tampoco que beneficiou ou prejudicou autoridades específicas. A PF apenas registra a dispersão expressiva nos prazos e aponta que essa variação pode guardar correlação com o perfil do investigado.
As ressalvas do documento
O próprio relatório da Polícia Federal contém ressalvas substantivas sobre suas conclusões. O documento é categorizado como trabalho de inteligência, sem caráter decisório e sem valor probatório. As análises recebem rotulação de confiança baixa ou moderada. A informação específica sobre Alcolumbre como alvo recebeu a classificação de hipótese com grau de confiança baixo.
Moraes determinou encaminhamento da documentação integral ao presidente do STF, Edson Fachin.
