Remissão do HIV: dois novos casos anunciados elevam total para 13 no mundo

Pacientes que receberam transplantes de células-tronco conseguiram manter o vírus indetectável após suspender medicamentos, mas cientistas alertam que procedimento é arriscado

27 jul, 2026
V´írus | Reprodução/Unsplash/National Institute of Allergy and Infectious Diseases
V´írus | Reprodução/Unsplash/National Institute of Allergy and Infectious Diseases

Médicos anunciaram dois novos casos de remissão sustentada do HIV na segunda-feira (27) na 26ª Conferência Internacional sobre AIDS, no Rio de Janeiro. Com os registros, sobe para 13 o total de pacientes que mantêm o vírus indetectável após suspender antirretrovirais, segundo a Sociedade Internacional de Aids (IAS). Os pacientes receberam transplantes de células-tronco de doadores com uma mutação genética rara que oferece proteção contra o vírus.

Os dois pacientes suspenderam a medicação antirretroviral após os transplantes de células-tronco. Um deles permanece sem detecção viral há 14 meses; o outro, há 12 meses. Ambos receberam as novas células de doadores que possuíam a mutação CCR5-delta32, uma alteração genética que impede a entrada das formas mais comuns do HIV nas células de defesa.

A mutação CCR5-delta32 é uma característica rara na população mundial. Pessoas com duas cópias dessa alteração têm células resistentes às variantes mais prevalentes do vírus. Quando um doador com essa proteção oferece células-tronco a um paciente com HIV, as novas células carregam a mesma resistência, criando um ambiente menos favorável à multiplicação viral.

O que é remissão sustentada

Os especialistas usam um termo específico para esses casos. Segundo Ricardo Diaz, infectologista da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a classificação mais adequada é “remissão sustentada do HIV sem antirretrovirais”. O tempo sem medicamentos ainda é relativamente curto para falar em cura definitiva, o que explica por que cientistas preferem cautela na linguagem.

Antes de entender o que significa remissão, é importante distinguir dois conceitos. A carga viral detectável é a quantidade de HIV no sangue suficiente para ser medida por exames. A carga viral indetectável é um nível tão baixo que o teste não consegue identificá-lo. Quando mantida durante o tratamento, a carga indetectável impede a transmissão por relações sexuais, segundo orientações de saúde pública.

O paciente de Kansas City é homem de 21 anos diagnosticado com HIV e leucemia agressiva em 2018. Na época, sua carga viral era de mais de 2 milhões de cópias por mililitro de sangue, um número muito alto. Além disso, possuía quantidade extremamente baixa de células de defesa, o que tornava seu quadro crítico.

Os dois casos em detalhes

Paciente de Kansas City

Em outubro de 2020, recebeu células-tronco de uma doadora sem parentesco, mas totalmente compatível, que possuía duas cópias da mutação CCR5-delta32. O procedimento não foi simples: o paciente apresentou complicações e precisou receber um reforço de células-tronco para estabilizar seu quadro.

Os antirretrovirais foram suspensos em fevereiro de 2025. Catorze meses depois, exames continuam sem detectar vírus no sangue. Pesquisadores não encontraram células com HIV capazes de reiniciar a infecção, o que distingue esse caso de simples controle virológico.

Paciente com múltiplas formas do HIV

O segundo caso é mais complexo do ponto de vista virológico. O paciente recebeu células-tronco de um doador que também possuía duas cópias da mutação CCR5-delta32, mas sua infecção era desafiadora: ele carregava diferentes formas do HIV, algumas capazes de usar mais de uma porta para entrar nas células de defesa. Além disso, tinha histórico de hepatite B, uma complicação adicional.

Medicamentos foram suspensos pouco mais de quatro anos após o transplante. Depois de 12 meses sem antirretrovirais, o HIV continuava indetectável. Pesquisadores não encontraram vírus capaz de se multiplicar nem detectaram material genético completo do HIV em amostras do intestino, um dos principais reservatórios virais.

No entanto, a suspensão dos antirretrovirais trouxe um problema: a hepatite B voltou a se multiplicar em apenas 25 dias. Isso ocorreu porque parte dos medicamentos que controlavam o HIV também mantinha a hepatite B sob controle. O paciente precisou retomar o tratamento para a hepatite.


 

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 Reportagem do G1 (Foto: reprodução/Instagram/@portalg1)


Por que ainda não é cura definitiva

Os dois novos casos continuam sendo tratados como “possíveis curas” porque o tempo sem medicamentos ainda é relativamente curto. Pesquisadores precisam acompanhar os pacientes por períodos mais longos para verificar se o HIV realmente não voltará. Ricardo Diaz esclarece a situação:

“Isso quer dizer que você tira o tratamento e o vírus não volta. Em algumas pessoas, a gente tem evidências muito fortes de que realmente o vírus não existe mais.”

Porém, existe uma limitação importante dos exames atuais: não há um único teste capaz de verificar todas as partes do corpo. Não é possível garantir que nenhuma célula infectada permaneceu escondida em locais de difícil acesso, como gânglios, intestino ou sistema nervoso. Por isso, mesmo nos 11 casos mais antigos de remissão, os pacientes continuam sendo acompanhados regularmente.

Segundo Ricardo Diaz, é preciso esperar pelo menos dois anos sem medicamentos para que as evidências de remissão fiquem mais fortes. A interrupção dos antirretrovirais não deve ser tentada fora de estudos clínicos rigorosamente monitorados. Na maioria das pessoas, o HIV volta a se multiplicar rapidamente quando o tratamento é interrompido.

Os 11 casos anteriores

Antes desses dois novos casos, 11 pacientes já haviam alcançado remissão após transplantes de células-tronco:

  • Timothy Ray Brown, paciente de Berlim (2009), primeiro caso reconhecido de possível cura
  • Adam Castillejo, paciente de Londres (2019), segundo caso confirmado
  • Marc Franke, paciente de Düsseldorf (2023)
  • Primeira mulher a alcançar remissão, em Nova York (2023)
  • Paul Edmonds, paciente de City of Hope (2023), remissão em paciente mais velho
  • Paciente de Genebra (2024), remissão sem mutação de proteção
  • Segundo paciente de Berlim (2024), doador com apenas uma cópia da mutação
  • Mulher na faixa dos 50 anos, paciente de Marselha (2024)
  • Paciente de Oslo (2025), recebeu células do próprio irmão
  • Paciente de Chicago (2025), voltou a apresentar carga viral detectável
  • Paciente de Toronto (2026), dez meses sem antirretrovirais

Todos os 11 casos anteriores receberam transplantes para tratar doenças graves do sangue: leucemias, linfomas ou outros tumores hematológicos. Os procedimentos não foram feitos como tratamento contra HIV. O benefício para o controle viral foi, essencialmente, um resultado incidental. Esses transplantes substituíram grande parte das células de defesa dos pacientes por células do doador, o que radicalmente alterou o ambiente imunológico em que o vírus tentava sobreviver.

Na maioria desses 11 casos, os doadores possuíam duas cópias da mutação CCR5-delta32. Essa característica torna as novas células resistentes às formas mais comuns do HIV, reduzindo significativamente a possibilidade de o vírus voltar a se espalhar.

Mecanismos além da mutação

Mas a mutação genética não explica tudo. O paciente de Genebra alcançou remissão mesmo recebendo células sem a proteção CCR5-delta32. O segundo paciente de Berlim tinha um doador com apenas uma cópia da alteração. Isso indica que múltiplos mecanismos atuam simultaneamente, segundo Sharon Lewin, infectologista e ex-presidente da IAS.

“Quando as células do doador não têm o CCR5, isso funciona como um impulso adicional para aumentar a possibilidade de cura.”

Os mecanismos envolvidos incluem: o tratamento aplicado antes do transplante elimina parte das células infectadas; as novas células podem atacar aquelas que restaram e potencialmente carregam resíduos virais; quando carregam a mutação, ficam mais resistentes ao HIV; a mutação funciona como um impulso adicional para aumentar a possibilidade de remissão.

Um conceito importante para comparação é o dos “controladores de elite”. Essas pessoas conseguem manter o HIV em níveis muito baixos sem antirretrovirais porque seu próprio sistema de defesa controla a multiplicação do vírus de forma natural. Isso permite que evitem a perda das células responsáveis pela imunidade, mas não significa necessariamente que o HIV foi eliminado. O vírus pode continuar escondido em algumas células.

Nos casos de remissão após transplante, o processo é radicalmente diferente. Os pacientes passam por um tratamento intenso que destrói parte das células antigas. Em seguida, reconstroem o sistema de defesa com células de outra pessoa. Evidências indicam que isso reduziu drasticamente os esconderijos do HIV, uma diferença fundamental em relação aos controladores de elite.

O reservatório viral

Para entender por que a vigilância contínua é necessária, é essencial compreender como o HIV se comporta no corpo. O vírus consegue inserir seu material genético dentro das células de defesa. Algumas dessas células ficam adormecidas e podem permanecer assim durante anos, sem produzir novos vírus. Os antirretrovirais impedem a multiplicação, mas não conseguem retirar o material viral escondido. Esse conjunto de células infectadas é chamado de reservatório viral.

Quando o tratamento é interrompido, uma célula adormecida pode voltar a produzir vírus, reiniciando a infecção. Em geral, isso ocorre em poucas semanas. O desafio adicional é que o HIV não fica apenas no sangue. Pode permanecer escondido nos gânglios, intestino, sistema nervoso e outros tecidos, tornando esses locais mais difíceis de examinar completamente.

Por que transplante não é solução geral

Os casos de remissão provam que é possível alcançar controle profundo do HIV através de reconstrução radical do sistema imunológico. Porém, transplantes de células-tronco não podem ser oferecidos como tratamento comum contra HIV. O procedimento é acompanhado de riscos graves: infecções potencialmente fatais, rejeição das células doadas, danos a órgãos e até morte. A terapia só é indicada para pessoas que precisam dela para combater doenças graves do sangue, quando o benefício supera significativamente os riscos.

Pesquisas por alternativas mais seguras

Ciente dessa realidade, cientistas tentam reproduzir os efeitos positivos dos transplantes de forma muito mais segura. As estratégias estudadas incluem anticorpos monoclonais, medicamentos que reforçam o sistema de defesa e terapias genéticas capazes de tornar as células resistentes ao HIV.

Estudos com anticorpos e medicamentos que estimulam a imunidade já permitiram alguns participantes manter o vírus controlado após suspender antirretrovirais. As terapias genéticas apresentam resultados promissores, embora ainda sejam desenvolvidas principalmente em modelos animais.

Sharon Lewin resume o desafio:

“Precisamos fazer com que mais pessoas respondam e que esse controle seja melhor e mais duradouro.”

Não existe previsão segura de quando uma cura simples, de baixo risco e disponível em larga escala estará acessível à população. O caminho é de pesquisa contínua, teste de novas abordagens e aprofundamento dos mecanismos que os casos de remissão revelam.

Enquanto isso, os antirretrovirais continuam sendo a forma comprovada e segura de manter o HIV indetectável. Quando mantida durante o tratamento, essa condição impede a transmissão por relações sexuais. Qualquer mudança no tratamento deve ser discutida com o médico responsável. Nenhuma orientação de saúde substitui a avaliação médica individual.

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