FLITI 2026: Ana Paula Araújo e Cissa Guimarães são destaques em feira literária de Tiradentes
A 6ª edição do encontro na cidade histórica mineira ainda contou com a participação da imortal Ana Maria Machado, além de reunir diversos nomes de peso do meio artístico
Entre os dias 06 e 10 de maio, os casarios coloniais de Tiradentes (MG) serviram de moldura para a Feira Literária Internacional de Tiradentes (FLITI). O encontro entre leitores, escritores e artistas foi um momento em que a literatura deixou as páginas para transitar pelas icônicas ruas de pedra da “joia do barroco mineiro”.
Durante os cinco dias de realização, passaram pelo evento nomes como o poeta Bráulio Bessa, a jornalista da GloboNews Aline Midlej, o ator Paulo Betti e o humorista e escritor Hélio de La Peña. A programação contou também com Flora Gil e seu filho Bento Gil, a cantora Zélia Duncan, João de Orleans e Bragança (descendente da família imperial brasileira) e a escritora e jornalista Thalita Rebouças.
Histórias de coragem e justiça: contar para transformar
Na tarde de sábado (09), no palco literário, o debate central girou em torno de obras que expõem as feridas da sociedade brasileira. A jornalista Ana Paula Araújo, apresentadora do Bom dia Brasil e autora dos livros “Abuso: a cultura do estupro no Brasil” e “Agressão: a escalada da violência doméstica no Brasil”, e a escritora e roteirista Luciana de Gnone, autora de romances policiais como o recém-lançado “Voz de Prisão”, conversaram sobre o papel da escrita no enfrentamento de realidades brutais.
O novo livro de Luciana, que já caminha para uma adaptação cinematográfica, foi inspirado na trajetória real de Gislayne Silva de Deus, que serviu de base para a construção da personagem Helena. Em uma busca por justiça que durou décadas, Gislayne ajudou a prender, em setembro de 2024, o assassino de seu pai, crime ocorrido em 1999, em Boa Vista (RR). Luciana revelou que a mulher inspiradora da trama costumava dizer que, devido ao trauma na infância, jamais seguiria três carreiras: advogada, policial ou juíza. Curiosamente, ela já exerce as duas primeiras e agora estuda para a magistratura.
As autoras revelaram também o cuidado rigoroso na escrita, principalmente por se tratar de histórias baseadas em fatos. Ana Paula ressaltou que esse processo exige um cuidado maior com a pessoa retratada do que com quem vai ler, servindo como um processo de cura e de informação para o leitor. Para a jornalista, equilibrar a denúncia do crime e a preservação da vítima é como caminhar em uma “corda bamba”. Ela contou que o retorno tem sido positivo, com entrevistados agradecendo pela sensibilidade no trato das histórias.
Luciana ainda compartilhou que, mesmo partindo para a ficção, fez questão de dar a Gislayne o aval para eliminar cenas, permitindo que ela lesse o livro antes do envio para a editora, em respeito à memória e à luta que originou o projeto. Ambas as autoras enfatizaram que o intuito nunca foi “dar palco” para os criminosos, manifestando preocupação com produções de true crime que alimentam certa morbidez ou prazer em temas tão sensíveis.
Rede de apoio e combate à misoginia
Em entrevista ao In Magazine iG, Ana Paula Araújo destacou que, em seu primeiro livro, Abuso, uma história que a impactou muito foi de uma menina que tinha a mesma idade da filha dela na época e que tinha sido abusada pelo pai. “Me chamou muita atenção o papel da mãe, foi quem flagrou a situação e reagiu defendendo a filha, denunciou o homem na delegacia”, relembrou. A jornalista reforçou a importância da rede de apoio no processo de denúncia: “É tão importante quando uma vítima é acolhida e consegue ter quem a defenda, especialmente uma criança.”
Já sobre seu mais recente lançamento, Agressão, ela conta que tem uma história que gosta muito que as pessoas leiam, que é sobre violência psicológica, porque quando a violência é física é muito fácil de identificar. “Eu entrevistei uma mulher que sofreu durante anos uma violência psicológica tão grave que ela começou a ter problemas de saúde sérios, e isso é algo que ainda é muito difícil de uma mulher perceber”, revelou a autora.
Quando questionada sobre movimentos misóginos, como o “Red Pill”, que prega um discurso de suposta opressão dos homens pelas mulheres nos relacionamentos, Ana Paula abordou que, no segundo livro, as redes sociais aparecem como um fator preocupante. Para ela, essas plataformas estão construindo uma mentalidade muito ruim em meninos muito jovens, que entram em contato com homens que defendem a violência contra a mulher e a submissão feminina, o que se torna uma outra frente de combate. “As redes sociais têm sido um vetor de espalhar essa misoginia”, alertou.
Imortal da ABL na FLITI
A imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), Ana Maria Machado, também foi um dos grandes destaques do sábado. Ocupante da cadeira número 1 da ABL desde 2003, instituição que presidiu entre 2011 e 2013, a escritora chegou a Tiradentes celebrada como a Personalidade Literária do Ano pelo Prêmio Jabuti 2025, um reconhecimento à sua contribuição para a cultura brasileira e para a formação de gerações de leitores.
Autora premiada de 10 romances, 12 livros de ensaios e mais de cem obras infantojuvenis, Ana Maria é traduzida em 22 idiomas. Sua vasta lista de distinções inclui o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto da obra, três Jabutis e reconhecimentos internacionais de peso, como o Hans Christian Andersen, o Príncipe Claus e o Casa de las Américas.

A escritora Ana Maria Machado e a professora Beatriz Resende participam de painel na Arena Literária da 6ª FLITI (Foto: reprodução/Ana Luiza Vieira)
Em uma conversa profunda sobre sua trajetória, a autora jogou luz sobre sua produção, citando obras que considera não terem recebido a mesma aclamação massiva de seus sucessos infantis. Entre os títulos destacados estão “A Audácia Dessa Mulher”, que estabelece um diálogo com o universo de Machado de Assis, e “Um Mapa Todo Seu”, baseado na história da pioneira Eufrásia Teixeira Leite.
A autora relembrou como sua vivência sob censura diária no jornalismo durante os “anos de chumbo” foi fundamental para a criação de “Tropical Sol da Liberdade”, obra que reflete sobre a ética e a resistência à deturpação da verdade. Ana Maria também destacou o impressionante alcance humanitário de “Era uma Vez um Tirano”, que se tornou um símbolo internacional de resistência à opressão. Traduzida para o árabe, a obra foi distribuída gratuitamente em campos de refugiados sírios e, atualmente, é utilizada em escolas na fronteira entre as Coreias e por exilados bielorrussos como uma ferramenta para ensinar às crianças o valor da liberdade e do questionamento à tirania.
Fé na vida e o fôlego de uma “avó radical”
Ao anoitecer, na arena literária, Cissa Guimarães e a diretora Patrícia Guimarães subiram à Arena Literária para uma conversa emocionante sobre o livro “Viver com Fé: histórias de quem acredita”. A obra nasceu do sucesso do programa de entrevistas homônimo dirigido por Patrícia no GNT e, embora esgotada, provou-se atemporal ao discutir como a crença ajuda a ressignificar o sofrimento. Ambas compartilharam como o projeto foi essencial para elaborar seus próprios lutos: enquanto Cissa vivenciava os primeiros anos após a perda do filho, Rafael Mascarenhas, Patrícia enfrentava a partida recente do pai.
Para Cissa Guimarães, a fé é um conceito que transcende as religiões formais, as quais ela define como filosofias distintas que compartilham o mesmo propósito fundamental: o amor, a compaixão e o olhar para o outro. Criada em uma família católica, a atriz passou a frequentar centros espíritas e terreiros de umbanda ainda na adolescência, movida pelo interesse nos rituais e pela maneira genuína como as pessoas manifestam sua crença nos momentos de entrega e necessidade. Cissa também associa a fé à “pulsão do desejo”, citando a perspectiva de Freud ao defender que o acreditar é o motor para que algo aconteça, uma verdadeira fé na vida.

A atriz Cissa Guimarães (à direita) fala sobre seu livro na Arena Literária durante a 6ª Feira Literária Internacional de Tiradentes. O debate contou com a presença da coautora Patrícia Guimarães (à esquerda) e mediação da jornalista Bianca Ramoneda (ao centro) (Foto: reprodução/Ana Luiza Vieira)
Patrícia Guimarães complementou destacando a fé como uma bússola no vazio deixado pela perda. Segundo a diretora, elaborar o luto ao lado da fé torna o processo “mais confortável”, funcionando como um suporte que guia o indivíduo através da interiorização da ausência. Ela reforçou que o projeto nasceu de uma necessidade vital de encontrar histórias reais de superação, priorizando a vivência prática e genuína da crença em vez de discussões puramente teológicas.
Cissa ainda abordou com honestidade a dor de datas como o Dia das Mães, descrevendo-as como ciclos que exigem aceitação diária. Apesar da saudade que “tira o chão”, ela revelou encontrar conforto na relação com os filhos, João e Thomaz, e nos netos. Um momento emocionante foi a menção a um presente recebido de um fã na saída do hotel naquele dia: um desenho dela com os filhos em que Rafael é retratado com 30 e poucos anos, idade que teria hoje, o que a ajuda a materializar as conversas que a atriz diz manter com ele diariamente.
Essa presença constante ganha contornos de leveza na figura do neto José, em quem Cissa enxerga uma semelhança física impressionante com Rafael. Foi dessa conexão que nasceu o título de “avó radical”, consolidado em um episódio emblemático: decidida a saltar de asa-delta, Cissa tentou convencer o neto a acompanhá-la na aventura. José, contudo, assistiu a tudo da areia, paralisado pelo susto, enquanto a avó ganhava o céu.
Já a lição mais profunda que a atriz extraiu da passagem do filho foi a aceitação de que a fé não te faz ganhar tudo o que você quer. Para ela, o segredo é “criar uma casinha para a dor dentro de você, porque ela vai morar com você o resto da vida”. Cissa explica que essa “casinha” deve ser confortável e não espinhosa, permitindo que a dor habite seu interior sem paralisá-la. Para isso, ela mantém uma disciplina emocional rigorosa: “Eu não deixo ela (a dor) me machucar… não fico dando comidinha na boca dela toda hora e lamentando”. O objetivo é garantir que o luto ensine em vez de apenas ferir.
