EUA declaram PCC e Comando Vermelho como grupos terroristas
Medida inédita dos EUA contra facções brasileiras abre caminho para sanções financeiras severas e gera forte tensão diplomática com o governo Lula
O Departamento de Estado dos EUA anunciou na última quinta-feira (28), a inclusão das duas maiores facções criminosas brasileiras, o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), em suas listas de organizações terroristas. A decisão, que ocorre após intensa articulação política, abre caminho para sanções financeiras severas e muda a forma como a inteligência dos atuará em território brasileiro.
Entenda as designações
O Departamento de Estado e o Departamento do Tesouro dos EUA aplicaram dois dispositivos distintos aos grupos brasileiros. O primeiro deles é a classificação de Terroristas Globais Especialmente Designados (SDGT), que tem efeito imediato e permite o congelamento de bens e ativos que estejam sob jurisdição norte-americana, visando asfixiar financeiramente as facções e seus financiadores.
O segundo dispositivo é a inclusão na lista de Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO), medida que deve entrar em vigor em 5 de junho e cria a base legal para processos criminais nos EUA. Essa lei é aplicada a grupos que representam uma ameaça à segurança nacional americana e permite uma atuação mais ostensiva da justiça.
O comunicado oficial emitido pelos EUA apontou o CV e o PCC como as facções mais perigosas do Brasil, mobilizando milhares de criminosos em ofensivas violentas contra o Estado e a sociedade civil. De acordo com o texto, o impacto das operações desses grupos deixou de ser um problema exclusivamente brasileiro, afetando a segurança de nações vizinhas e do território norte-americano.
Articulação política e divergência jurídica
O anúncio ocorre logo após reuniões do senador Flávio Bolsonaro com o secretário de Estado, Marco Rubio. Para a ala bolsonarista, a medida é uma vitória no combate ao crime organizado. Por outro lado, o governo Lula tentou, sem sucesso, evitar a classificação durante visitas diplomáticas recentes a Washington.
Ver essa foto no Instagram
Encontro entre Flávio Bolsonaro e Marco Rubio (Foto: reprodução/Instagram/@flaviobolsonaro)
A principal divergência entre os dois países é jurídica, pois a Lei Antiterrorismo brasileira de 2016 define terrorismo como atos motivados por xenofobia ou preconceito, exigindo uma base ideológica ou política que o governo brasileiro afirma não existir no PCC e no CV. Para o Brasil, os grupos são organizações criminosas voltadas ao lucro e ao tráfico, enquanto para os EUA, agora eles são considerados narcoterroristas.
Impactos e riscos para o Brasil
Especialistas alertam que as consequências podem ir muito além do combate ao crime, gerando reflexos profundos em três frentes principais. Na área de inteligência, a cooperação entre polícias, como o FBI e a Polícia Federal, pode ser dificultada, uma vez que o assunto sai da esfera policial e entra na competência da CIA, que atua de forma secreta.
No campo econômico, o governo brasileiro pode sofrer com sanções contra instituições financeiras, como restrições de operadoras internacionais como Visa e Mastercard. Por fim, há um receio de perda de soberania nacional, motivado pelo medo de que a classificação sirva de pretexto para intervenções militares ou operações unilaterais dos EUA sob a justificativa de segurança nacional.
Embora analistas considerem uma intervenção militar direta improvável devido à forte integração comercial entre os dois países, o governo brasileiro deve emitir uma resposta oficial nesta sexta-feira (29), buscando modular a reação para evitar maior desgaste político antes das eleições de 2026.
