Pressão de Trump sobre a Groenlândia desafia princípio central da Otan

Intenção de anexação do território dinamarquês reacende tensões internas e levanta dúvidas sobre a sobrevivência da aliança militar

07 jan, 2026
Donald Trump durante reunião com secretário-geral da Otan, na Casa Branca | Reprodução/Bloomberg/Getty Images Embed
Donald Trump durante reunião com secretário-geral da Otan, na Casa Branca | Reprodução/Bloomberg/Getty Images Embed

A escalada de declarações do governo dos Estados Unidos sobre a Groenlândia acendeu alertas em capitais europeias e colocou a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) diante de um impasse sem precedentes. A campanha de pressão conduzida por Donald Trump inclui, de forma explícita, a possibilidade de anexação de um território ligado diretamente a um país-membro da aliança.

O episódio expõe um risco inédito para a organização formada por 32 países: a chance de um de seus integrantes, justamente o maior financiador, ameaçar outro aliado. A Otan nasceu para garantir defesa coletiva, não para arbitrar conflitos internos dessa natureza.

Uma fissura no coração da aliança

A Groenlândia é um território semiautônomo, mas política externa e defesa estão sob responsabilidade da Dinamarca. Isso transforma qualquer ameaça ao território em uma questão direta entre aliados da Otan, neste caso, entre Copenhague e Washington. A premiê dinamarquesa Mette Frederiksen reagiu de forma objetiva às declarações americanas ao alertar que um ataque entre membros da aliança paralisaria a organização. O tratado da Otan não prevê como lidar com uma ruptura desse tipo.


Dinamarca alerta que anexação da Groenlândia acabaria com a Otan (Vídeo: reprodução/YouTube/Jovem Pan News)


Desde o primeiro mandato, Trump sustenta uma postura crítica em relação a parceiros europeus. Questionou compromissos de defesa mútua, pressionou por aumento de gastos militares e ameaçou retirar proteção de países considerados inadimplentes. Agora, avança ao desafiar de forma inédita um parceiro da aliança.

Ártico, poder e intimidação

A cobiça americana sobre a Groenlândia não é recente, mas ganhou outra dimensão. O território é estratégico pela abertura de novas rotas marítimas no Ártico, acelerada pelo degelo, e pela presença de minerais raros essenciais à indústria tecnológica e militar.

O governo americano também aponta a atuação de Rússia e China como justificativa. Os EUA já mantêm uma base militar em Pituffik, o que reforça a presença estratégica sem necessidade de anexação formal. Mesmo assim, integrantes do entorno de Trump passaram a mencionar a possibilidade de uso da força. As declarações alimentaram a desconfiança entre aliados europeus e ampliaram o clima de instabilidade.


Mapa do Ártico com destaque para a Groenlândia (Foto: reprodução/X/@portalcamaquars)


Europa busca reação possível

Analistas de segurança avaliam que o impacto da crise vai além da Groenlândia. Uma ruptura interna enfraqueceria a Otan e abriria espaço para adversários explorarem a desunião ocidental. A diretora do Programa de Segurança Internacional do Chatham House, Marion Messmer, afirma que as ameaças precisam ser levadas a sério e que países europeus ainda dispõem de instrumentos para pressionar Washington, como restrições logísticas e revisão de acordos militares.

Por enquanto, a resposta oficial segue cautelosa. Líderes europeus reafirmaram apoio à Dinamarca e à Groenlândia, mas a estratégia americana, que combina diplomacia e ameaça de força, mantém a crise aberta e expõe as tensões internas da aliança.

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