David Lee explora o litoral nordestino e aposta em técnicas manuais na SPFW n.º58

No último domingo (20), a São Paulo Fashion Week recebeu a mais nova coleção do estilista David Lee e sua marca homônima, que sempre garante uma imersão em sua visão estética de maneira orgânica e persuasiva. 


David Lee na SPFW Nº58  (Foto: reprodução/Marcelo Soubhia/@agfotosite)

Com a coleção “Leste, Oeste”, o designer clamou por uma reinterpretação dos clichês sobre o litoral nordestino e seus habitantes. “Peguei alguns clichês e coloquei sob a minha ótica, trazendo o que eu acho que seria esse retrato do nordeste, o que no meu ver são as manualidades e as pessoas”, afirmou Lee. Outra motivação foi a necessidade sentida por ele de mostrar ao público como seria a visão urbana do litoral, escapando de estereótipos e revelando que a região nordestina vai muito além do visual.

Crochês e cordas náuticas

O primeiro bloco da coleção foi essencialmente crochetado. Com formas estruturadas e volumosas, uma nova silhueta se desenha ao redor do corpo. Complementados por inspirações náuticas, looks e acessórios são adornados com pesadas cordas, que com o movimento dos modelos, parecem dançar em conjunto com o grande número de franjas presente nas maxibolsas.


David Lee na SPFW Nº58  (Foto: reprodução/Marcelo Soubhia/@agfotosite)

“Quis propor algo diferente, explorando também referências dos bairros onde morei no litoral de Fortaleza”, fala David sobre a técnica exclusiva que usou de crochê no prego, onde uma tela é colocada sobre uma tábua de pregos para criar o ponto.

Rendas dão leveza e o couro sintético solidez

Além da utilização do crochê, Lee também se aventurou em outras técnicas manuais: laises e a mistura de rendas trouxeram leveza e frescor para a coleção, que ganha tom romântico, porém contemporâneo, com aplicações das rendas bilro e redendê – patrimônio do Nordeste.


David Lee na SPFW Nº58  (Foto: reprodução/Marcelo Soubhia/@agfotosite)

Em casamento com a alfaiataria, a abordagem com rendas desenvolveu camisas, vestidos, shorts, saias e blazers perfeitos para o verão. A escolha de tais cortes e peças reflete o desejo de imprimir seriedade e programação ao litoral nordestino, muitas vezes acalmando apenas pela sua beleza natural, para conscientizar o público paulista.


David Lee na SPFW Nº58  (Foto: reprodução/Marcelo Soubhia/@agfotosite)

Para completar essa estética, David trabalha o couro sintético como forma de “demarcar a territorialidade da marca, compondo a conexão com a linguagem urbana contemporânea”. Na cor de argila, o material reforça o ar sofisticado, ao compor peças de alfaiataria clássica, com bermudas de corte reto, representando os jangadeiros. Assim, David Lee aborda uma visão para além da inicial sobre o litoral nordestino, e ajuda a construir a ideia, para os desavisados, de urbanização da região. 

Espetáculo estético do artesanato nacional engrandecem a moda brasileira no SPFW Nº58

No final da última semana deu início a maior semana de moda da América Latina, a São Paulo Fashion Week. Com um line-up recheado de marcas e projetos nacionais, a programação do desfile continua a cumprir seu propósito histórico de reafirmar a criatividade e cultura nacional na indústria da moda. Etiquetas como Catarina Mina, Artemisi e Bold Strap trouxeram a vanguarda fashion brasileira para seus desfiles. Confira esses e outros destaques abaixo. 

Martins e o maximalismo da cultura pop

Com a ambientação nas mãos do som inglês subversivo big-beat da banda Prodigy, o desfile da Martins trouxe a paixão de seu criador por cultura pop para as passarelas. Com uma mescla entre “Matrix” (1999) e a estética futurista de Thierry Mugler e Rick Owens, Tom Martins construiu a inspiração para sua criação cheia de babados, ilusões de ótica, xadrez e muitas, mas muitas sobreposições. 


Martins para SPFW Nº58 (Foto: reprodução/Maurício Santana/Getty Images Embed)


Com um mergulho também na cultura hippie das décadas de 1960 e 1970, a coleção contou com uma colaboração com a marca clássica de jeans Levi’s, por isso a presença de muitas calças amplas, jaquetas e coletes estruturados e composições em camadas – característica carimbada da Martins.

O sonho artesanal de Catarina Mina

A coleção “Herdeiras do Futuro”, produzida pela estilista Celina Hissa em conjunto com mais de 30 artesãs nordestinas, trouxe o habitual, e magnífico, frescor do trabalho manual, com crochê, macramê, bordado e renda de bilro, e a novidade da borracha da Amazônia – material que remete ao neoprene, em colaboração com a marca paraense Da Tribu, ajudou a compor franjas que foram aplicadas em tops, vestidos e bolsas da coleção.


Catarina Mina na SPFW Nº58 (Foto: reprodução/Agência Fotosite/Marcelo Soubhia)

Os 35 looks que brilharam na passarela estavam baseados na paleta de cores predominada pelo vermelho, off-white, dourado e por alguns tons de azul. Para completar visual e adicionar ainda mais brasilidade para a estética, no pés, modelos usavam Havaianas de diversas cores.

Provocação sofisticada com a Bold Strap

Assinada por William Cruz, a coleção apresentada pela Bold Strap nesta edição do SPFW trouxe o marcante DNA da marca mais uma vez: com correntes, cordas e muitos brilhos, a etiqueta ofereceu uma abordagem mais refinada ao fetichismo.


Bold Strap para SPFW Nº58 (Foto: reprodução/Maurício Santana/Getty Images Embed)


Com sua musa Camila Queiroz sempre presente, a marca brincou com a tensão entre sensual e prático, e desfilou peças para além do underwear. Vestidos, calças, jaquetas e camisetas também reafirmaram a estética provocadora da marca. 

Artemisi caminha pela fronteira entre moda e arte

Vinte e seis looks defendem a caracterização de high fashion da Artemisi. A coleção apresentada na quinta-feira (17) na SPFW mostrou o porquê da etiqueta tradicionalmente passear despreocupadamente entre a fina linha que separa moda e arte.


Artemisi na SPFW Nº58 (Foto: reprodução/Agência Fotosite/Zé Takahashi) 

“Não faço roupa para loja, faço roupa que tem um quê de arte.”, afirmou a diretora criativa da marca Mayari Jubini, depois do encerramento de uma apresentação de uma coleção que aborda desde do movimento da arte cinética, oriunda da década de 1950, até a obsessão pelo futurismo atual. Mas, se engana quem pensa que os looks super tecnológicos não necessitaram de mãos humanas em sua produção. Algumas peças precisaram de muito trabalho manual – os efeitos de vidro quebrado ou de água pingando em bustos e casacos, são pinturas feitas à mão – e meses de confecção. 

A brincadeira com efeitos visuais, texturas tridimensionais e formas surrealistas proporcionaram ao público um espetáculo aplaudido de pé.

O Pará estreia em São Paulo com a Normando

Estreante na SPFW, a Normando levou a coleção “Vândalos do Apocalipse”, uma interpretação da cultura paraense com tempero urbano para a passarela paulista.


Normando para SPFW Nº58 (Foto: reprodução/Maurício Santana/Getty Images Embed)


Estampas de escamas de tucunaré e pirarucu foram aplicadas em vestidos de seda, juntamente de um bustiê feito de cuias de tacacá e camisa de smoking com jabô, toda indumentária necessária para refletir a visão que inspirou Marco Normando: os filósofos modernistas que se reuniam no mercado Ver-O-Peso, em Belém, nos anos 1920.